sábado, 13 de junho de 2020

Lisboa silenciosa



Desde sempre, que eu me lembre, nunca os "Santos" foram assim. Hoje, dia da sua festa maior, Lisboa estava vazia e silenciosa, quase triste.
Sem marchas, sem arraiais, sem arcos e balões, sem ruas enfeitadas, sem uma festa em cada esquina, sem vendedoras de manjericos na Praça da Figueira, sem procissão, sem algazarra e sardinhadas, sem ser poder sequer entrar na Sé. Desta vez, faltou a noite em que Lisboa não dorme nem descansa, as cores garridas, os bailes até ser dia. Desta vez, falta a alegria de sempre, toda a gente na rua e a festa desmedida que sempre havia nestes dias. Hoje, apenas temos  o Tejo e esta luz magnífica de uma cidade plena de magia, abençoada por Santo António e São Vicente, caprichosa e sedutora, que enamora de igual modo os que a conhecem bem e a têm como sua e os que a visitam e se lhe apegam para sempre.
Orgulho-me muito de ter nascido e de viver aqui, neste lugar tão romântico e encantador, que eu sei de cor e conheço a pé, nos seus mais escondidos recantos, nas vielas estreitas de Alfama e nas largas avenidas e praças, com o Tejo sempre à espreita, Lisboa Menina e Moça (...) cidade mulher da minha vida, fazendo-se desentendida e adormecendo embalada pelas suas águas quietas, em incessante e antigo namoro.
São muito estranhos os tempos que vivemos. Mas ainda que às vezes tudo nos pareça um pouco desanimador e difícil de levar, há que continuar a acreditar. Há-de voltar a festa do Santo António e a alegria de antes. E, até lá, teremos sempre a nossa Lisboa e os seu magnífico e inigualável entardecer.

quarta-feira, 3 de junho de 2020

O mês de Junho



Depois de Março, este é o mês de que mais gosto. Por ser o mês de Lisboa, da minha mãe e de outras pessoas de quem gosto muito. Porque anuncia o Verão e tem sabor a despreocupação e a liberdade. Pelas longas tardes de brisa amena a fazer apetecer ficar na rua, de manjericos e de sardinhas assadas, de passeios à beira-Tejo e fins de tarde a olhar o mar. E o mundo torna-se-me infinitamente mais belo.
Se não fosse pandemia, que veio alterar tudo, estaria a poucos dias de entrar de férias. Este ano, porém, tudo é diferente. Faltarão os arraiais e a algazarra tão típica destes dias e da minha cidade, reinventaremos festejos, mas não deixaremos de soltar o cabelo ao vento, de tentar ser felizes e despreocupados, nem de querer-nos com loucura.

sábado, 30 de maio de 2020

Fica para o ano




Por ser Pentecostes, este seria, em circunstâncias normais, o fim de semana do Rocío. Se não fosse a pandemia, haveria, como sempre, milhares de romeiros pelos caminhos de areia e pó, as tradicionais apresentações à Virgem das 125 hermandades, os vivas à Blanca Paloma, a emoção da salve entoada por um coro de vozes que se unem pela mesmo motivo, e aquela alegria desbordante e inesgotável, noite e dia, o som da guitarra, da flauta, do tamboril e das palmas, as sevilhanas, os trajes de flamenca, e tudo que que faz parte da festa e a torna tão singular, e se vive por dentro, sem se conseguir explicar.
Este ano, eu estaria na Romaria pela décima terceira vez. Em vinte anos, só faltei sete vezes. E quando não vou, invade-me a imensa nostalgia de saber que era ali que deveria estar.
Este ano é diferente de todos. Vive-se tudo mas de modo muito distinto, desde a distância, fazendo mais sentido que nunca o que diz a canção: Rocío es todo el año/ no solo la romería/ hay que soñar con la Virgen/ a todas las horas del día. 
Por isso, para todos os que, como eu, vivem intensamente este momento, mantêm-se a força e a motivação de sempre, apesar de tudoPor isso, as ruas  de Almonte e do Rocío por onde a Virgem haveria de ter passado no seu regresso à aldeia, estão engalanadas com flores no âmbito da iniciativa "Rocío de Luz", da responsabilidade da irmandade matriz. E haverá orações e plegarias, a mesma fé e devoção, a missa de Pentecostes.
O Rocío é um lugar único, pleno de magia e encantamento, onde sempre queremos voltar. E enquanto esperamos pelo próximo regresso à quietude da marisma, enquanto sonhamos voltar a estar em silêncio diante da Virgem, ou no tumulto alvoroçado e aparatoso da Romaria, entre risos, lágrimas incontidas e emoções à flor da pele, este ano cabe-nos viver o mais incomum de todos os Rocíos, sem carroças, sem sinos, sem rebujitos, mas entre promessas e gratidão, e sabendo que é verdade o que tantas vezes repetimos baixinho: muy dentro del corazón/, de una forma permanente/, a la Virgen del Rocío/ Siempre la tengo presente.


segunda-feira, 25 de maio de 2020

(Re)encontro



A cada ano é um prazer renovado, ainda que sempre repetido. O mar é uma das minhas grandes paixões. Talvez por ter nascido e vivido sempre perto dele. Ou apenas porque sim. Dizem que as paixões não têm que explicar-se; e eu concordo. Na verdade preciso dele e do que me faz sentir quando me sento em silêncio na sua frente e o olho demoradamente, sem pensar em nada. Ou quando fecho os olhos e apenas o ouço, no seu vaivém incessante e cadenciado. E me deixo ir nessa meia sonolência contemplativa e extasiada. E solto os sonhos e deixo a alma e o corpo serenar.
É junto do mar que mais me sinto em harmonia com o universo e me reencontro e reconcilio comigo e com o mundo. Por isso, quando em cada ano o visito pela primeira vez, sinto um enorme prazer tranquilo, como se todas as coisas voltassem ao seu lugar.
O mar reequilibra-me e seduz-me, atrai-me e mete-me medo, em tudo o que significa de paz e de tumulto, de caos e de harmonia, num encantamento impetuoso e desmedido, provocando em mim uma vaga de bem -estar e de prazer  que, apesar de repetida, nunca é igual; e que apetece prolongar sem fim.
É sempre assim. Mas este ano, com o confinamento e a solidão que lhe está associada, poder estar de novo diante do mar, ou entrar nele e deixar-me envolver, é uma ainda mais maravilhosa e indizível sensação de liberdade.

domingo, 24 de maio de 2020

A palavra exacta


Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola (...) Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. (...) Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e abraçam-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.
                                                                                                       
 ( Maria Velho da Costa, Cravo) 


Famosa pelas Novas Cartas Portuguesas, publicado em 1972 juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa ficou para sempre com o epíteto de uma das "Três Marias" e associada a uma escrita mais ou menos revolucionária.
Com vários prémios recebidos, entre os quais se contam o Prémio Camões, em 2002, e o Grande Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, em 2013, a sua obra tem a ver com a busca incessante da palavra, comum a todos os grandes escritores. Ela própria definiria a literatura como "a palavra no tempo, na história, no apelo do entusiasmo do que pode ser lido ou ouvido, a busca da beleza ou da exactidão ou da graça do sentir." E do livro diria que "é acto lúdico contra vários horrores. Um acto de riso". 
Talvez injustamente esquecida, como tantas vezes acontece, Maria Velho da Costa é um nome singular da literatura portuguesa. Faria 82 anos a 26 de Junho, no mesmo dia da minha mãe. 
Ficamos todos um pouco mais pobres.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Os dias da "nova normalidade"




São tempos estranhos os que vivemos. Depois de cerca de dois meses fechados em casa, isolados do resto do mundo e, muitas vezes, também, longe dos que mais amamos, num demorado e mais ou menos penoso confinamento - uma das palavras que aprendemos à força - a vida vai retomando a normalidade possível, embora nada seja ainda como dantes. É mais a "anormalidade" possível: andamos na rua com a cara tapada, mantemo-nos à distância de todos incluindo os que tanto queríamos abraçar, e vamos vivendo assim, a meio-gás, sentindo falta de tudo e mais alguma coisa, do que nos parecia óbvio e inquestionável, ou tão natural como respirar. 
E assim vamos "desconfinando" aos poucos, em segurança, a acreditar no que nos dizem, e sempre com o sabor agridoce de tudo aquilo de que fomos de repente privados, e que tarda em voltar. 
Por mim, enquanto espero pelos beijos, os abraços e os colos, pelo toque da pele e pelas mãos que seguram outras mãos, pelas viagens e passeios sem limites nem fronteiras, pelo cinema e pelos concertos ao vivo, pela Romaria do Rocío, pela possibilidade de ir a Espanha e a França sempre que me apetecer, por andar sem máscara e pela proximidade sem medo, consolo-me com tudo o que tenho de bom, e é tanto: a saúde, a música, as flores, a Primavera, alheia a "bichos maus", e o mar,  imensamente azul, fresco e  apaziguante, aqui mesmo ao pé para nos deslumbrar.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

Oito anos




Que este meu blogue chegaria hoje aos oito anos era uma coisa que eu não imaginava de modo algum naquele dia 7 de Maio de 2012, quando decidi, hesitante e desajeitada, aventurar-me por este mundo, que eu desconhecia em absoluto, sem supor que isto pudesse durar tanto, ou chegar tão longe.
Mil duzentas e setenta e duas publicações, muitos dias e muitas horas depois, Isto e Aquilo (o nome que escolhi de forma um pouco precipitada) continua vivo; e mesmo se, com os anos, o entusiasmo inicial esmoreceu um pouco, continuo a gostar de ir escrevendo por aqui, sem qualquer pretensão nem objectivo que não seja a paixão das palavras e a vontade de dizer o que penso e sinto.
Ao longo do tempo, foi maior e melhor tudo o que aprendi e me diverti do que o lado mau que estas coisas também têm, como tudo na vida. Claro que recebi comentários ofensivos, os quais sempre ignorei como mereciam, e guardo apenas as coisas boas que esta experiência trouxe à minha vida, e que são muitíssimas e profundamente compensadoras.
Às vezes ainda sinto que ponho a alma demasiado a nu, mas ao mesmo tempo também isso me vai importando cada vez menos, porque se é verdade que o que escrevemos não é inteiramente autobiográfico como muitos tendem a pensar, também é verdade que revelamos muito do que somos e pensamos através da escrita. Mas a vida e os anos têm-me ensinado a ser cada vez menos vulnerável aos olhares, opiniões e pensamentos alheios, sobretudo de quem não conheço, ou não me importa.
Oito anos é muito tempo. É o meu número preferido, logo a seguir ao "meu" 7. Dizem que o número oito simboliza o ilimitado, o que não tem início nem fim; e também o equilíbrio e a totalidade. Por isso, ou apenas porque sim, vou continuando por aqui enquanto me apetecer, com esta janela aberta por onde pode espreitar quem quiser, e onde será sempre bem-vindo "quem vier por bem". E quem não, pois pode seguir caminho, que não vale a pena perder tempo, nem energia, com o que não nos interessa.
A todos os que nestes oito anos passaram por aqui, silenciosamente ou com voz, aos que me leram, apoiaram, incentivaram, concordaram, discordaram, ou que quer que seja, muito obrigada.

domingo, 3 de maio de 2020

A minha é melhor que a tua


Por causa da pandemia, esta foi a primeira vez que passámos separadas este dia a que tu sempre deste tanta importância. Ser mãe sempre foi a tua melhor vitória, aquilo a que te dedicaste de alma e coração, dando o melhor de ti em cada instante. Por isso nos sabia tão bem celebrar o tempo de estarmos juntas e todos os gestos, conversas, risos e cumplicidades de mãe e filha, que ninguém mais pode entender.
Hoje, não te levei flores da florista "Malmequer", como aconteceu a vida toda, nem demos beijinhos, nem apertámos as mãos, nem dissemos com os olhos tudo o que não chega às palavras. E até aquela vídeo chamada - única maneira de nos vermos agora - nos soube a pouco. Por estes dias, imagino como sentirás a falta da minha voz e da minha presença, dos meus mimos e das minha parvoíces, e até das minhas canções desafinadas, que só tu consegues suportar. 
Eu nunca saberei agradecer-te tanto que fizeste, e ainda fazes, por mim. O teu exemplo desde logo. A tua garra, energia e boa disposição. A alegria e a superação. O teu coração enorme, sempre ao serviço dos outros, sem nunca se deixar subjugar. E o teu colo enorme, meu refúgio, amparo e força de todas as horas boas e más, mesmo quando recorri a ele em lágrimas e em silêncio e tu percebeste tudo sem eu ter que contar.
Mas, no fundo, somos felizes por nos termos e por, no coração, continuarmos sempre agarradinhas uma à outra, a dar-nos mimos, e colo, e energias boas.
Em circunstâncias normais, as pessoas tendem a achar que têm a "melhor mãe do mundo". Peço desculpa, mas a melhor é mesmo a minha. Até com as sua fraquezas e vulnerabilidades. Ou, se calhar, também por causa delas. 
E apesar de, este ano, as comemorações terem sido totalmente "atípicas", apesar de não nos termos podido ver fisicamente, o mais importante de tudo é o que guardamos no coração. E isso, está para lá de todas as contingências e condicionalismos; e será nosso para sempre.

quarta-feira, 29 de abril de 2020

O que só nós sabemos



Se não podemos ver-nos nem tocar-nos, sobra a saudade. Faltas-me tu, as nossas tardes e os nossos dias, os instantes perfeitos de estarmos juntos, perdidos nos olhos e na pele um do outro, e todos os momentos de abraços sem pressa que sempre nos pareciam o paraíso e a eternidade.
Falta-me a magia de quem se entende apenas pelo que vê no fundo de outros olhos, faltam-me os teus olhos, as tuas mãos, o teu corpo,  os nossos silêncios e até os nossos amuos. Faltas-me tu e todas as sensações de te ter perto, todos os sonhos e esperanças, as carícias e o prazer, e o silêncio emocionado de estar juntos e isso ser bom, como uma fatalidade a que não podemos nem queremos escapar.
Agora percebo ainda melhor como é forte o que nos une; e tenho a certeza que não há abraço melhor que o teu, que  eu estou contigo e tu comigo para sempre, na tranquilidade de um afecto tão fundo como uma certeza absoluta, e na harmonia secreta do que não precisa sequer de ser dito para ser verdade.
Quando nos pudermos voltar a abraçar, esqueceremos o mundo e voltaremos a esse universo só nosso, com o tempo suspenso no despropósito maravilhoso do que só nós somos e conhecemos, libertando as mais audaciosas vontades, entregues à exaltação de todos os sentidos, nos instantes em que mais nada, nem mais ninguém, importa. E enquanto esse momento não chega, na minha cabeça vai soando aquela canção muito antiga: (...) dentro dos meus braços os abraços hão-de ser milhões de abraços, apertado assim, colado assim, calado assim, abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim, que é pr'acabar com esse negócio de você longe de mim...)


sábado, 25 de abril de 2020

Liberdade



O 25 de Abril apanhou-me em plena adolescência, com uma incipiente consciência política por força da idade e das circunstâncias. Ainda assim, entre memórias mais nítidas ou mais difusas que guardo dos tempos da revolução e dos anos que se lhes seguiram, fica-me sempre a sensação de novidade, de incerteza e de esperança, mas, sobretudo, de festa desmedida.
E, no meio da rebaldaria total que era a escola por essa altura, para lá de todos os excessos da época, de tudo o que correu bem e mal, aqueles foram anos em que me diverti muito e que me orgulho de ter podido viver.
Hoje, 46 anos depois de um dia tão singular sob todos os pontos de vista ("o dia inicial inteiro e limpo" nas palavras de Sophia de Mello Breyner), a liberdade e a democracia tornaram-se tão óbvias e naturais como qualquer dado adquirido e, por isso, inquestionável. E, apesar de às vezes se tender a pensar, erradamente, que celebrar a liberdade é apanágio da esquerda e que o conceito é menos apreciado à direita, como se ela pudesse ser apenas de alguns e não de todos, apesar de muitos acharem que no "estado de emergência" a que estamos obrigados por causa da pandemia que nos aconteceu grande parte dos direitos, liberdades e garantias desapareceram ou estão em suspenso, eu diria, parafraseando um grande poeta injustamente esquecido - Ary dos Santos - que "agora ninguém mais cerra/ as portas que Abril abriu."

domingo, 19 de abril de 2020

A nostalgia do resto do mundo










Agora que não podemos ir por aí fora a conhecer o mundo, que tudo nos parece mais pequeno, vazio e solitário, faltam-me as minhas cidades, como me faltam as minhas pessoas. Entre umas e outras encontro muitas semelhanças. Podem atrair-nos e enamorar-nos ao primeiro olhar, mas só se conhecem devagar e com o tempo, revelando-se-nos aos poucos na sua complexidade, e numa descoberta lenta que pode ser apaixonante, ou decepcionar-nos para sempre.
Amo as cidades, cosmopolitas e efervescentes de vida, ou mais pequenas e tranquilas, exuberantes ou discretas, mas com qualquer coisa de peculiar, uma magia própria, que pode estar no movimento das ruas, no bulício matinal, num cheiro diferente ou num recanto  tranquilo e mais ou menos secreto, num pormenor de arquitectura, ou no modo como as pessoas vivem, circulam, interagem.
Conhecer cidades é para mim o lado mais interessante das viagens. Por isso, preciso de voltar uma e outra vez até nos conhecermos, nos fazermos íntimas e me poder sentir como em casa, confirmar apegos, deixar-me levar naquela preguiça boa de ir sem destino, à procura do que me enche a alma e me faz sentir uma felicidade maior.
Partir é tão bom como voltar. Eu, que preciso com frequência de respirar outros ares para me (re)encontrar em novos lugares ou nas cidades que eu amo, vejo-me agora, como toda a gente, limitada às quatro paredes da minha casa, que eu adoro, mas de qual preciso às vezes de sair para querer voltar.
Faltam-me os lugares e as pessoas - os que eu conheço e os que me falta descobrir - como me falta o vento no cabelo e a brisa do mar. Falta-me a luz de Lisboa ao fim da dia, que agora só vejo da minha janela, a lânguida quietude dos fins de tarde frente ao rio, de olhos, movimentos e pensamentos à solta, sem limites nem poiso certo.
Ligo-me às cidades com a mesma dedicação e afecto com que me ligo às pessoas, deixando que me seduzam devagar, e que cada reencontro saiba à familiaridade do que já se conhece e ao espanto do que é capaz de continuar a surpreender-nos. E, tal como no amor, delicio-me a contemplá-las, deixo-me arrebatar sem dar pelo tempo passar e sento-me em silêncio muitas vezes, como quem se abriga num colo conhecido, deixando-me envolver pela serenidade desse doce encantamento, em momentos que depois gravo na memória para horas de desgosto, desencanto ou aflição, como estas por que passamos agora.
Assim, revivo todas as horas de felicidade que guardo na memória, todos os abraços, os beijos e os passeios que nunca pude esquecer, para mitigar o tédio e a solidão. Mas, mesmo querendo continuar a acreditar que tudo vai voltar a estar bem e a ser bom, que não há impossíveis, e que, na lógica do perpétuo movimento, o que há-de vir poderá ser  ainda melhor, é impossível não querer agora voltar a encontrar e a deixar-me deslumbrar pelas cidades e pelas pessoas.

sábado, 11 de abril de 2020

O apelo da rua


Passado quase um mês do "confinamento", que tenho seguido de forma rigorosa, com saídas apenas para ir ao supermercado e à farmácia, hoje, pela primeira vez, o sol e o maravilhoso dia de Primavera acabaram  por se me impor com mais intensidade e cedi à tentação de dar uma pequena volta no bairro. Havia algumas pessoas na rua, levadas, provavelmente, por um propósito semelhante ao meu de esticar as pernas, respirar o ar "lá de fora", caminhar um pouco sem destino certo, ou apenas porque sim. 
Que estranhos tempos os que vivemos: com vagar para tudo, desacelerámos os gestos, demoramo-nos em pequenas tarefas que antes fazíamos a correr, percebemos a importância do que outrora tínhamos como garantido e agora nos parece um sonho por concretizar.
E enquanto esperamos pelos abraços que nos fazem ver o mundo de pernas para o ar e pela possibilidade de andar outra vez livremente pelo mundo, sem luvas, sem máscaras, sem afastamentos nem proibições, pensamos em todos os que sofrem ou lutam para vencer tudo isto que aconteceu e, naturalmente, não podemos deixar de nos sentir, ainda assim, privilegiados só por poder ir ali e voltar.

domingo, 5 de abril de 2020

Recolhimento



Com o mundo inteiro estranhamente silencioso, começa hoje a que será a mais peculiar de todas as Semanas Santas que já vivemos, propiciando de forma mais intensa a espiritualidade que este tempo requer. Obrigados ao isolamento, em forçada clausura que gostaríamos que não tivesse acontecido, poderemos enfim virar-nos um pouco mais para dentro e (re)pensar-nos.
Serão, sem dúvida, uma Semana e uma festa diferentes de todas as outras. A Páscoa é para mim, juntamente com a Romaría del Rocío e, muito antes do Natal, -  imensamente corrompido pelo consumo excessivo e os gestos maquinais - a grande celebração da fé. Talvez, também, dada a sua coincidência com a Primavera, que, é de igual modo, o meu tempo de eleição, e que tem muito a ver com a plenitude do recomeço e com a festa da vida.
Este ano faltarão todos os sinos, as velas, as glórias e aleluias, a igreja cheia cantando em uníssono, os cânticos de exultação, os coelhinhos e os ovos, os abraços de quem nos quer bem, e todos os rituais e sinais exteriores da festa da vitória da vida sobre a morte.
Mas a Páscoa é também o tempo da esperança renovada, de nos perturbarmos com o inacreditável do que celebramos e é tão bonito, da alegria de acreditar no amor acima de tudo, e de reactivarmos o que de há de melhor no mais fundo de nós.
E, afinal, todos os momentos intensos da vida sentem-se sobretudo pelo lado de dentro; e nunca precisam de muitas palavras.

sábado, 4 de abril de 2020

Uma bolachinha?


Tenho uma confissão a fazer: sou uma "menina da mamã".
A nossa relação sempre foi intensa e profunda, um daqueles laços fortíssimos que não se explicam e apenas se sentem pelo lado de dentro, unidas e agarradas uma à outra até em momentos de desacordo, amuo, ou conflito, que também fazem parte do amor, uma ligação visceral que ela sempre gostava de justificar - porque encontrava justificações para tudo, fossem certas ou não - com o facto de me ter amamentado a leite materno.
A minha mãe, que para mim é a melhor do mundo, teve também os seus erros e falhas, como toda a gente. Mãe-galinha total, sempre excessivamente preocupada com o nosso bem-estar e felicidade, vivia no pavor de que pudéssemos passar fome. Por isso, mesmo já crescidas, sempre que a visitávamos ou era ela que ia a nossa casa, enchia-nos de comida, que podia ser fruta, os seus maravilhosos croquetes ou marmelada, qualquer coisa que sabia que nos dava alegria e prazer, ou que ela achava que era bom para nós.
É a ela que devo, pois, o vício das bolachas. Porque nessa sua ânsia de que não nos faltasse nada, costumava perguntar com regularidade: não queres uma bolachinha? E eu queria. Queria sempre. Por isso ainda hoje adoro bolachas e, apesar de tentar controlar o mais possível a minha gulodice para manter a linha, não dispenso nunca as bolachas Maria, que tanto me lembram aquela pergunta.
Hoje, sinto a falta dela mais que nunca, e de todos os seus mimos e cuidados.
Hoje, que o nosso amor é, também para mim, sinónimo de preocupação constante, sou eu que tenho que cuidar de que não lhe falte nada e de que possa estar tão tranquila quanto possível no seu mundo de silêncio e movimentos reduzidos, ainda mais agora que este maldito bicho nos impede de nos vermos e de nos dizermos tudo apenas pelo toque e pelo olhar.
Nem imagino a falta que lhe farão por estes dias  as minhas conversas e parvoíces, os meus beijinhos e festas, ou as canções desafinadas que lhe cantava baixinho para a embalar.
E, enquanto espero pelo dia em que possa voltar a ver a serenidade silenciosa dos seus magníficos olhos verdes, que muito me tranquilizam, em que possa voltar a abraçá-la  e a chamar-lhe "mamita" e "mãe Lourdes" e dizer-lhe o que ela sabe de cor,  - que eu gosto muito dela  - e senti-la a apertar com força a minha mão, sei que o nosso amor continuará imutável, porque está antes e depois das palavras e porque está sempre connosco, mesmo na distância a que estamos obrigadas. 

terça-feira, 31 de março de 2020

Pequenas alegrias


Numa altura em que tudo é diferente daquilo a que estávamos habituados, há pequenos gestos banais que podem fazer a diferença.
Agora que estamos fechados em casa, como devemos, e que as saídas se limitam ao estritamente necessário de idas ao supermercado ou à farmácia, pelo menos para quem, como eu, pode funcionar em teletrabalho, uma qualquer ida à rua pode dar um sentimento de satisfação inimaginado.
Foi o que se passou comigo por estes dias, quando depois de vários dias sem sair, tive que ir pôr o lixo na garagem, o que significa dois passos da porta da rua até ao caixote do lixo que está perto da porta de saída da garagem, e o inverso para voltar a casa. Nunca antes pudera imaginar que uma ida à garagem pudesse ser motivo de alegria...
E penso nisto, ao mesmo tempo que penso que este dia foi especialmente feliz há quatro anos, que se tudo fosse como antes, iria amanhã de férias para San Sebastián, e que tenho esperança  e acredito que tudo vai ficar bem outra vez.

domingo, 29 de março de 2020

O confinamento

É tudo muito recente. Sem que ninguém o esperasse, aprendemos na pele, e com dor, o que quer dizer isolamento e quarentena. De maneira mais ou menos repentina, ficámos circunscritos a um espaço reduzido, fechados, com os movimentos limitados e, entre o desconforto e a inquietação, habituámo-nos, à força,  a viver de outra maneira.
E assim, nos dias que se sucedem a outros dias quase sem poder distinguir-se entre si, soubemos como pode ser dura a solidão, como pode doer a ausência física dos que mais queremos. Vamos inventando rotinas e maneiras de passar o tempo, de nos adaptarmos às novas circunstâncias, de sobreviver a isto que nos aconteceu. Parece que o tempo cresceu subitamente, que vida se tornou mais lenta. É a hora de Verão e quase não damos por isso; estamos muito perto da Páscoa e quase não damos por isso. Que estranha é esta sensação de pormos a existência entre parênteses.
Mas, por maior que nos possa parecer este fardo, claro que há os que estão bem pior que nós, os que sofrem por estar doentes, os que se afligem por não poder abraçar os que mais amam e são especialmente vulneráveis, os que não têm casa onde ficar em segurança, os que não têm nada nem ninguém, e todos os que estão na linha da frente, que se põem em risco para nos salvar, ou para que a nossa vida mantenha a normalidade possível. 
Quando o pesadelo passar,  - o que todos esperamos que seja mais cedo do que tarde - nada poderá voltar a ser igual, porque tudo aquilo que nos afecta nos deixa marcas, positivas e negativas, decerto; e porque o mundo e a vida são uma constante transformação.
Que ao menos tudo isto sirva para nos tornar mais fortes, mais próximos, mais atentos aos outros, mais generosos e humanos.

quinta-feira, 26 de março de 2020

Abraço(s)



Quantas vezes, no calor do teu abraço, senti sem dar-me conta que o mundo era perfeito? E só agora que não estás aqui, que não podemos ver-nos, nem tocar-nos, percebo a importância do que tínhamos como garantido e quase banal, que era fortaleza e fragilidade, solidão e companhia, caminho e porto seguro.
Fazes-me falta. Faltas-me tu, os teus olhos, a tua pele e o teu abraço apertado. Era dentro dele que queria viver para sempre, porque não há melhor lugar.
Que saudade e que vontade de voltar aos nossos abraços sem pressa, quando deixa de haver mundo, porque o mundo todo és tu; e te encostas a mim em abandono, e com beijos lentos te entrego o meu corpo e eu inteira nele, e as tuas mãos grandes me arrepiam a pele, e o bem que me fazes, e tudo o que provocas em mim.
Enquanto revivo na memória todos os abraços que agora me faltam, todos os abraços que me aconchegam e importam, sonho com o dia em que possamos novamente colar os nossos corpos num longo, silencioso e sentido abraço, deixar os corações bater  um contra o outro e converter os dias de estar juntos em momentos inesquecíveis e bons para usar nas horas de aflição como as que vivemos por estes dias, deixando-nos ir, afugentando dúvidas e medos, sem deixar de  acreditar. Porque acreditar é uma das melhores e maiores provas de amor.
Havemos de voltar a abraçar-nos.

sexta-feira, 20 de março de 2020

Entre o medo e a esperança


Numa ou duas semanas mudou tudo. A nossa vida transformou-se radicalmente, vimo-nos confinados ao espaço mais ou menos reduzido das nossas casas - que nos parecem ainda o porto mais seguro - e tentamos adaptar-nos à nova realidade, feita de incertezas, medos, tédio e solidão, mas também de esperança, de convicção de que tudo passe rápido e possamos retomar a vida de que tanto nos queixávamos, a rotina do quotidiano, as deslocações para o trabalho, o convívio social, os beijos e abraços que tanta falta nos fazem agora, a possibilidade de andar livremente pelo mundo.
Neste momento difícil, em que o rigor, o cuidado e a disciplina são as palavras de ordem para o bem de cada um e de todos, sempre com a preocupação constante com todas as vulnerabilidades que nos rodeiam e importam, saibamos encontrar a melhor maneira de passarmos por isto e sair vitoriosos. 
Por mim, entre as dificuldades tecnológicas com o teletrabalho, o contacto mais virtual do que físico com aqueles de que gosto e que gostam de mim, os livros, as redes, as notícias, e  a tentativa de levar uma vida tão normal quanto possível nestas circunstâncias, é a música que me enche os dias.
Esta, por exemplo:


(Imagem de Roberto Leal)

sábado, 7 de março de 2020

Feliz por ter nascido

Quase sem darmos por isso, os dias vão-se somando e num instante passam muitos anos. No dia do nosso aniversário é quando tomamos claramente consciência de que estamos a ficar mais velhos, apesar de o processo ser gradual e  acontecer em todos os segundos, minutos, horas e dias da nossa vida de forma mais ou menos imperceptível. Mas isso é, penso eu, um bom sinal. Sou uma daquelas pessoas que gosta muito de fazer anos. Porque a vida é para ser festejada; e porque acho que só tenho razões para me sentir feliz.
Agora, que já tenho um percurso muito razoável, sinto-me bem com o que sou e com o que tenho, embora saiba que aqui e ali poderia ter sido ou feito diferente. Mas não me arrependo de nada. Aceito as marcas do tempo com naturalidade e nunca sinto ter a idade que tenho. Acho que a idade real não tem muita importância, talvez por haver no meu círculo afectivo gente que ocupa uma faixa etária entre os catorze, quinze, e os oitenta e tantos, ou até os noventa e quatro da minha mãe.
A ela devo tudo (ou perto disso). E nunca saberei agradecer-lhe suficientemente o facto de me ter trazido à vida neste dia 7,  - que tem para mim um significado tão especial - , de me ter mostrado o mundo e dado asas para também poder ser e descobrir sozinha, de em silêncio me ter dado tantas lições de generosidade, de aceitação, de alegria e de vontade de viver.
Nasci no sétimo dia do terceiro mês de um ano bissexto, entre as oito e as nove da noite, e por isso sou abençoada; porque o sete reúne em si o três, número da perfeição, - princípio, meio e fim, pai, filho e espírito santo -  e o quatro (quatro elementos), sendo assim em si mesmo o número que simboliza  a união entre o céu e a terra, a alma e o corpo, o espírito e matéria.
Sendo do signo de Peixes, e embora não ligando muito a essas coisas de astrologias e outras pseudociências, tenho muitas das características que, com toda a razão ou sem razão nenhuma, se lhe atribuem: sou sensível e emotiva de forma imoderada, muito dada a afectos e meiguices,  carinhosa, romântica, desconcertante, razoável e excessiva, leal e desbocada, organizada, sonhadora e todas as contradições, defeitos, manias e vulnerabilidades que me tornam única, não melhor nem pior que ninguém, mas apenas eu.
Com o tempo, aprendi a aceitar-me como sou e a gostar de mim até com o que não gosto. Aprendi a serenidade e o prazer do vagar, que nos faz viver cada momento de uma forma muito mais plena. Amo as línguas, as artes e as letras, como gosto de pessoas e de cidades, de mar e de sol, de ouvir chamar o meu nome e de andar a pé, de abraços apertados e de festas no cabelo, de regressar a casa, de conversas entre amigos e de manhãs de preguiça, do primeiro café do dia, de voltar a Paris e do dia dos meus anos.
Sinto-me muito feliz e agradecida por tudo o que sou, tenho, e posso ainda viver e aprender, na inquieta procura de tudo o que me falta ver e experimentar. Mas, hoje, é dia de beijos e abraços e de todos os mimos e amor a que tenho direito, porque este dia é todo meu. E porque viver é maravilhoso.

terça-feira, 3 de março de 2020

Março


Este mês é meu. Foi em Março que eu nasci e é em Março que (re)começa a Primavera. Tudo coisas boas, portanto. E, quando chega Março, tenho sempre esta sensação de mudança, de renascimento, como se ficasse mais atenta a tudo - cores, perfumes, sons, -  ou como se este mês, que para mim é azul  como o céu e o mar, e amarelo como as frésias dos meus anos, me permitisse querer e acreditar mais do que noutras épocas do ano.
Em Março estou quase sempre bem-disposta e cheia de energia, de sentidos mais alerta, com vontade de ir a todo o lado, de andar na rua, de sentir o vento nos cabelos, ou o calor do sol no corpo.
Mês de festa(s) e de bem-estar generalizado, Março traz-me força, positividade, vontades várias e muita alegria; é o tempo de me reapaixonar  pela vida e de possibilidades infinitas, que traz consigo uma promessa de felicidade sempre renovada.

Tandis qu'à leurs oeuvres perverses
Les hommes courent haletants
Mars qui rit, malgré les averses,
Prépare en secret le printemps.

                                                       (Théophile Gautier)