Como acontece provavelmente com toda a gente, há palavras de que eu gosto e outras de que não gosto nada, as quais me recuso a utilizar ou, pelo menos, evito.
Gosto, por exemplo, da palavra "desmazelo". Talvez porque, para além da sua sonoridade, me lembra o empenho com que a minha mãe nos ensinava a andar arranjadas em todas as ocasiões, adequando o modo como nos apresentamos a cada circunstância, como forma de respeito por si próprio, antes de mais, e pelos outros também. E reprovava vivamente tudo o lhe parecia o mínimo sinal de desleixo. Habituei-me, por isso, a achar, tal como ela, que é de muito mau tom parecer uma "desmazelada".
Vem tudo isto a propósito do tempo. Porque hoje, no meu percurso matinal mais lento do que o habitual por causa da chuva, perdida em mil pensamentos, como de costume, achei que apesar de estarmos no Inverno, tantos dias cinzentos de seguida só podem ser "desmazelo" do Anticlone dos Açores, que parece ter-se escondido não sei onde, a fazer uma birra.
Dizem os entendidos que o que justifica o actual estado do tempo é o facto de o Anticlone se ter deslocado para sudoeste, não bloqueando os temporais e deixando passar tudo o que é sistema frontal, o que nos leva o sol para outras paragens e nos impede de desfrutar do céu limpo e dos dias luminosos a que estamos tão habituados. Há quem se apresse, também, a falar em consequências do aquecimento global e blablabla. Não me interessa!...
O que sei é que tantas horas, dias, meses, de negrume e de céu baixo me influenciam o humor e me deixam mais nostálgica e desconsolada, ainda que sem motivo(s).
E lembro-me de Cesário Verde, porque esta cor monótona e londrina (...) desperta-me um desejo absurdo de sofrer.
Mas, no fundo, sou uma optimista. E acredito que depois disto, daqui a pouco mais de uma mês, vamos ter este ano uma Primavera verdadeiramente esplendorosa.
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)