sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Filmes que não deixam marca




Não sei se Kate Winslet é uma grande actriz, mas na verdade não me convencem muito as sua interpretações, nem aquela mistura de mulher banal com um ar levemente retro e sonhador, qual heroína do século XIX.
O defeito será provavelmente meu, que depois de Titanic - um filme que detestei - não consigo vê-la sem evocar de imediato a famosa imagem, pretensamente romântica, de braços abertos na proa do navio, com Céline Dion em fundo, aos guinchos. Uma piroseira!...
E, mesmo assim, fui ver o filme "Um segredo do passado", Labor Day no original, em que apenas o seu nome me era familiar. Tem algum interesse, mas não lhe daria mais de seis, numa escala de um a dez.
Enfim, é um filme daqueles que se vê e se esquece em pouco tempo. Apesar de ter ingredientes que são meio caminho andado para o sucesso: o amor improvável e inesperado, os dramas do passado a ensombrar o presente, o suspense, o amor que é simultaneamente prisão e redenção, o final feliz. Apesar de Kate Winslet ser mais ou menos convincente na construção da sua personagem, frágil e densa, e de ter na relação de silêncios e cumplicidades, de papéis invertidos, até, de certo modo, que estabelece com o filho (pelos olhos de quem a história nos é narrada), os momentos mais conseguidos.
Mas, pior ainda, foi o filme que vi antes deste. Não me acontece muito, mas às vezes também me dá para escolher um filme apenas porque o título me parece sugestivo. Sem saber mais nada, sem qualquer outra referência.
Foi isso que me levou a ir ver Endless love (Amor Infinito), num daqueles momentos em que o que há em mim de mais romântico vem ao de cima.
É um remake de um filme de 1981 (sei-o agora!), esse de Franco Zeffirelli, com Brooke Shields e também, tal como este, desconsiderado pela crítica. Com razão.
Sem emoção nem garra, trata-se de uma daquelas histórias pobrezinhas de banais amores juvenis, que vencem todos os obstáculos, e que me recordou os filmes que todos víamos quando éramos adolescentes. Uma verdadeira xaropada!
Dir-se-ia, pois, que as minhas duas últimas escolhas cinematográficas não foram grande coisa. Acontece...

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Os grandes nunca morrem

Foi também a ouvir a guitarra de Paco de Lucía que o meu amor pelo Flamenco se acentuou e cresceu.
Hoje, dia triste para quem gosta de música, e em particular de Flamenco, lembro-me de Camões e de aqueles que por obras valerosas se vão da lei da morte libertando...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

A hora de dizer não ao AO!



Ainda a propósito da discussão da "Petição pela desvinculação de Portugal do Acordo Ortográfico de 1990", que terá lugar dentro de três dias, a 28 de Fevereiro, na Assembleia da República, e à qual estranhamente (ou talvez não) a comunicação social quase não se refere, mas que suscitou ontem um post de HSC no seu "Fio de Prumo", o Público de hoje traz um texto de Maria Alzira Seixo, professora da Faculdade de Letras de Lisboa, que vale a pena ler e do qual transcrevo apenas um excerto.
E porque este é um assunto que diz respeito ao país inteiro e não apenas aos especialistas da área, com implicações e consequência na vida de todos nós, aconselho a leitura integral do artigo, aqui. É que esta é, acima de tudo, uma questão de patriotismo e, como tão bem diz o texto ainda é tempo, ou citando Fernando Pessoa, é a Hora!

(...) As palavras são manancial de riqueza: juntam a criatividade de "crescer" em diversos sentidos, a partir das suas raízes fortes, em lógica de desenvolvimento que é tanto delas mesmas como dos que as usam, quando respeitam o seu étimo. E reúnem-se na família vocabular que é a Língua. (...) Ora já sabemos como o chamado Acordo Ortográfico as veio maltratar, como as cortou das raízes da sua proveniência, como lhes decepou ligações de vizinhança com línguas europeias (...) o Acordo Ortográfico desfigura a linguagem: desmembra famílias de palavras, estraçalha vocábulos (que parecem outros com os quais os falantes os confundem), isola termos que ficam lexicalmente à deriva, num oceano de incongruências, arbitrariedades, confusões, deslocalização do sentido original, que já não é possível perceber para se atinar de imediato com o sentido. Um desatino!
Ficámos aleijados a escrever em português. Por determinação da lei que impôs o Acordo Ortográfico como medida política de aproximação com os países de língua oficial portuguesa. Os quais, afinal, enjeitam tal medida, pois não o adoptaram! E aleijados também porque porque ninguém entre nós sabe escrever segundo o Acordo, tão impossível de fixar ele é, ilógico nas suas regras, infinidade de excepções e hipóteses de escrita múltipla. (...) 
Não vale a pena exibir mais agravos do Acordo Ortográfico: as críticas que lhe têm sido feitas chegam e sobejam para entendermos o seu alcance de danificação, em expressão e raciocínio, a curto prazo (e já actual!), no falante luso. E as implicações a vir na descida do nosso nível cultural, profissional e económico, no futuro. É uma amputação! Quem aprovou a lei não o supunha, talvez. Embora tenha havido claros pareceres e advertências, na altura devida - e os responsáveis fizeram, no sentido mais próprio, ouvidos de mercador. 
Mas ainda é tempo! A Assembleia da República que aprovou esse instrumento de atraso mental não é hoje a mesma, e os que nela permanecem, do grupo anterior, tiveram entretanto ensejo de reflectir, de compreender. Tenhamos esperança! Os portugueses que formam esta AR podem mostrar-se cidadãos responsáveis, que não querem depender, durante o resto da vida, de conversores automáticos colocados em computadores, os quais ainda por cima erram na aplicação do próprio Acordo, e o resultado é que não se fica a escrever nem em Português nem na ortografia imposta, escreve-se em língua que não existe, não é a da lei, nem a usual! Os deputados não serão indiferentes à ideia de seus filhos e netos, e todos os portugueses, se tornarem deficientes linguísticos ad aeternum, com os custos que isso acarretará, em atraso e marginalidade decorrente, para Portugal.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Aselhice e amizade

Sem presunção excessiva e apenas porque conheço bem as minhas capacidades e limitações, tenho-me na conta de pessoa inteligente, perspicaz e decidida.
Mas há também os assuntos nos quais admito ser especialmente inábil. Cito dois, que podem servir de exemplo - e já nem vou falar da condução: o bricolage e as tecnologias.
Num e noutro domínios colecciono histórias fantásticas, que são verdadeiras pérolas, para não dizer anedotas, ilustrativas da minha proverbial faltinha de jeito para certas coisas. Conto uma, muito antiga, de quando ainda dava aulas há poucos anos. Um dia, quis usar um gravador, que não funcionava nem depois de verificar todas as tomadas da sala de aula e quase a instalação eléctrica da escola inteira. Nada a fazer. O gravador mantinha-se mudo. Até que um aluno, solícito, me ofereceu ajuda. Aproximou-se, olhou para o gravador e disse, sem se rir: é natural que não funcione, professora. Está em versão "pausa". Rimo-nos todos.
Penso que me valeu o facto de se tratar de uma turma de secundário e de os alunos serem, naquela altura, pouco mais novos que eu e, talvez por isso, mais compreensivos. Acho que foi o que atenuou o tamanho do vexame.
Mas porque tudo tem também um lado bom, tenho conseguido encontrar sempre alguém, tal como aquele aluno, disposto a ajudar-me a resolver o que não sou capaz de fazer, nas mais diversas circunstâncias, que podem ir de instalar um candeeiro no tecto, a (re)encontrar um post do blogue, misteriosa e subitamente perdido.
Tenho de facto muito bons amigos, alguns (poucos) encontrados aqui mesmo, na blogosfera, com quem aprendo imenso; e sou feliz por isso. Creio, até, que esse é talvez o meu bem mais precioso.
Às vezes ainda ouço a voz da minha mãe, que quando se zangava comigo me falava sempre da minha "mania que és independente". Ou relembro os que me repetem a toda a hora os perigos deste mundo virtual, onde julgam haver apenas psicopatas e perseguidores tarados. Haverá gente louca e perturbada, decerto, mas também gente impecável, decente e encantadora, tal como na vida.
A todos, apetece-me falar de amizade. E de como ela me é fundamental. E dizer-lhes que nunca vou conseguir agradecer aos meus amigos o bom que é poder contar com eles, nem explicar-lhes a importância que têm para mim. E, acima de tudo, como e quanto lhes quero bem.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Desfazer ideias feitas



Durante sete Sábados, tive o prazer e o privilégio de ouvir, de aprender, de ler e de pensar sobre Mário Dionísio e o Neo-Realismo, num curso com o extraordinário nome "Mãos que constroem sonhos", conduzido pelo saber e a generosidade da que foi (e é ainda) a melhor professora da minha vida, Maria Alzira Seixo, de quem já falei aqui mais de uma vez e que modificou a minha maneira de ver a literatura, de a perceber e de gostar dela. Que, acima de tudo, me ensinou a pensar.
Foi assim que pude descobrir em Mário Dionísio um interessantíssimo e fascinante escritor de personalidade vincada e obra diversa  e muito abrangente; e que o Neo-Realismo é mais que uma corrente simplista de cunho fortemente social, como tantas vezes ouvimos dizer, mas é também um movimento modernista, através de uma nova concepção concreta das coisas, da palavra pragmática, que apela à acção, em que as questões sociais importam, mas também as emoções e os sentimentos. Há o homem que luta por melhores condições de vida, mas igualmente pela libertação psicológica e cultural, e a arte como uma maneira de conceber um mundo melhor, a concretização de um sonho, uma espécie de redenção.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Tardes de Lisboa



Para meu prazer e benefício, há também os dias em que a vida abranda o ritmo e o tempo parece correr mais devagar.
Nessas horas em que o relógio aparentemente se demora um pouco mais, esqueço as rotinas e desacelero os passos, solto o cabelo no vento e sigo errante pelas ruas, atenta às gaivotas que cruzam o azul do céu em direcção ao rio, às vozes e risos de quem passa a caminho de não sei onde, como eu, que me distraem dos pensamentos a querer fugir para outros lugares, e me despertam os sentidos para  tantos cheiros, cores, luz, e vida à minha volta.
Quando me dou assim, ela retribui, vaidosa e sedutora, confiando-me os seus segredos em novos detalhes que julgo ver pela primeira vez. E respiro o ar de maresia que me chega ao fundo da alma e  me traz uma nostálgica e romântica serenidade, eu e a cidade, enlaçadas e  confundidas,  como quem se ama.
É então que sinto que este é o meu lugar, porque é em dias assim, de gestos lentos e de vontades à solta, que Lisboa é  mais minha. E que volto a apaixonar-me  por ela. 

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Filosofia



http://www.youtube.com/watch?v=qhV9bTNsq4I

Há quem diga que rir é o melhor remédio. Será. A vida levada com bom humor pode ser mais leve, sem dúvida. Sobretudo se soubermos não nos levar demasiado a sério e se nos rirmos também, antes de mais, de nós mesmos. 
Mas hoje prefiro dar destaque à  música e a tudo o que ela nos traz de bom. Porque, como ouvi um dia destes, a música é "a arte do significante absoluto", a única que não tem referente. E  o do be do be do, que  combina harmoniosamente sons e silêncios, é como voz sem palavras, com todos os sentidos em aberto e permitindo-nos todas as emoções. Basta ouvir. E deixar-se embalar. Shhh!...