
Viviam vidas separadas, mas encontravam-se às vezes ao meio do caminho, numa existência exclusiva, um segredo que apenas eles os dois conheciam, difícil de aceitar e de entender pelo resto do mundo, que não sabia nada sobre o começo daquele amor quase clandestino, que surgira nas suas vidas como uma inevitabilidade pressentida desde o primeiro instante, confirmada no tempo que separou o primeiro olhar do primeiro toque, no desejo que não pôde refrear-se e no arrepio da pele a estremecer, primeiro, e a explodir depois em prazer incontido, até à saciedade; quando tudo parecia ser só corpo, na excitação da vontade física a transbordar dos olhos e na urgência do abraço apertado, almas a nu e carícias demoradas, quando esquecidos de tudo se entregavam ao prazer e se demoravam um com o outro e um no outro, num consentimento mútuo feito mais de gestos do que de palavras, no aconchego do seu amor, que tinha uma aura romanesca e parecia existir de uma forma difusa, fora da vida real, mas era ao mesmo tempo tão diferente e maior e melhor que o que estava aquém e além dele e os marcava profunda e definitivamente; e eram um do outro sem ser; e estavam perto mesmo quando estavam longe; e deslumbravam-se e entonteciam com a certeza de se terem um ao outro e de se conhecerem de cor e não poderem nunca separar-se ou esquecer-se, nem sequer em momentos de dor e de desânimo.
Depois tudo fora mudando lentamente, sem aviso nem sinais de alerta. Ainda se encontravam, mas não era já a mesma festa; já não havia aquele loucura do coração a saltar no peito e do corpo a arder de desejo, como nos momentos em que não havia mundo, nem vida, para além deles os dois. Havia dias em que ainda se perdiam no fundo dos olhos um do outro e se emocionavam e enterneciam; e havia os outros, em que a distracção do quotidiano dissimulava o facto de na verdade já pouco restar dos momentos de magia, de cumplicidade secreta e de entendimento total.
Agora, eram cada vez maiores os recantos de silêncio e os mistérios impenetráveis das suas vidas, que já raramente partilhavam; e crescia a distância que os ia separando mais e mais, até serem quase como dois estranhos que apenas tiveram um passado em comum. Agora, até quando estavam perto estavam cada vez mais longe e o que os unia era também o que os separava, o que queriam e não queriam esquecer.
E ela pensava, às vezes, quando a nostalgia a invadia desde dentro até chegar à superfície da pele e tomar conta de tudo - coração, cabeça, corpo, vida - que lhe parecia não haver mais remédio que virar costas e partir de vez, perguntando-se o que acontecera afinal: se é apenas o tempo que destrói tudo, ou se pode um amor daquele tamanho morrer assim, ficando cada vez mais afastado, emudecendo e apagando-se devagar.
Mas em momentos de abandono e lágrimas silenciosas correndo à solta, ou em noites de solidão e desamparo, quando estava cansada, farta, triste, ainda sonhava com os seus corpos agarrados um contra o outro, em longos abraços, no doce embalo da brisa suave e na luz do fim da tarde sobre um rio qualquer...
Porque havia os dias em que ele lhe faltava sem doer, e havia também as horas e os dias em que lhe doía a imensa falta que lhe faziam o seu olhar silencioso, o seu cheiro, a sua voz, a mão, o colo, ou o corpo inteiro.
E vinha a saudade de um tempo em que o desejo de ser livre coexistia com afectos que julgava atados ao peito para sempre, quando afinal para sempre poderia não ser mais que uma miragem. E aquela canção ao som da qual se haviam amado pela primeiro vez voltava a tocar na sua cabeça, repetindo-se sem cessar: maybe it's just the way it is and there's nothing I can do it's just the way it is...