sexta-feira, 14 de março de 2014

Junto ao mar




É uma das minhas paixões. Reequilibra-me e pacifica-me, atrai-me e seduz-me. Por isso, às vezes, preciso de me sentar na sua frente, quieta e calada, e de olhá-lo demoradamente. Mas não agora, não hoje, nem amanhã, que também gosto de evitar as enchentes e o demasiado óbvio. Basta-me sabê-lo aqui perto, ou vê-lo em imagens belíssimas, assim, diante das quais emudecemos e sonhamos. E um dia, que estará para breve, sei que nos vamos enfim (re)encontrar. 

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

quinta-feira, 13 de março de 2014

Tão perto e cada vez mais longe...




Viviam vidas separadas, mas encontravam-se às vezes ao meio do caminho, numa existência exclusiva, um segredo que apenas eles os dois conheciam, difícil de aceitar e de entender pelo resto do mundo,  que não sabia nada sobre o começo daquele amor quase clandestino, que surgira nas suas vidas como uma inevitabilidade pressentida desde o primeiro instante, confirmada no tempo que separou o primeiro olhar do primeiro toque, no desejo que não pôde refrear-se e  no arrepio da pele a estremecer, primeiro, e a explodir depois em prazer incontido, até à saciedade; quando tudo parecia ser só corpo,  na excitação da vontade física a transbordar dos olhos e na urgência do abraço apertado, almas a nu e carícias demoradas, quando esquecidos de tudo se entregavam ao prazer e se demoravam um com o outro e um no outro, num consentimento mútuo feito mais de gestos do que de palavras, no aconchego do seu amor, que tinha uma aura romanesca e parecia existir de uma forma difusa, fora da vida real, mas era ao mesmo tempo tão diferente e maior e melhor que o que estava aquém e além dele  e os marcava profunda e definitivamente; e eram um do outro sem ser; e estavam perto mesmo quando estavam longe; e deslumbravam-se e entonteciam  com a certeza de se terem um ao outro e de se conhecerem de cor e não poderem  nunca separar-se ou esquecer-se, nem sequer em momentos de dor e de desânimo.
Depois tudo fora mudando  lentamente, sem aviso nem sinais de alerta. Ainda se encontravam, mas não era já a mesma festa; já não havia aquele loucura do coração a saltar no peito e do corpo a arder de desejo, como nos momentos em que não havia mundo, nem vida, para além deles os dois. Havia dias em que ainda se perdiam no fundo dos olhos um do outro e se emocionavam e enterneciam; e havia os outros, em que a distracção do quotidiano dissimulava o facto de na verdade já pouco restar dos momentos de magia, de cumplicidade secreta e de entendimento total.
Agora, eram cada vez maiores os recantos de silêncio e os mistérios impenetráveis das suas vidas, que já raramente partilhavam; e crescia a distância que os ia separando mais e mais, até serem quase como dois estranhos que apenas tiveram um passado em comum. Agora, até quando estavam perto estavam cada vez mais longe e o que os unia era também o que os separava, o que queriam e não queriam esquecer.
E ela pensava, às vezes, quando  a nostalgia a invadia desde dentro até chegar à superfície da pele e  tomar conta de tudo - coração, cabeça, corpo, vida - que lhe parecia não haver mais remédio que virar costas e partir de vez, perguntando-se o que acontecera afinal: se é apenas o tempo que destrói tudo, ou se pode um amor daquele tamanho morrer assim, ficando cada vez mais afastado, emudecendo e apagando-se devagar.
Mas em momentos de abandono e lágrimas silenciosas correndo à solta, ou em noites de solidão e desamparo, quando estava cansada, farta, triste, ainda sonhava com os seus corpos agarrados um contra o outro, em longos abraços, no doce embalo da brisa suave e na luz do fim da tarde sobre um rio qualquer...
Porque havia os dias em que ele lhe faltava sem doer, e  havia também as horas e os dias  em que lhe doía a imensa falta  que lhe faziam o seu olhar silencioso, o seu cheiro, a sua voz, a mão, o colo, ou o corpo inteiro.
E vinha a saudade de um tempo em que o desejo de ser livre coexistia com  afectos que julgava atados ao peito para sempre, quando  afinal para sempre poderia não ser mais que uma miragem. E aquela canção ao som da qual se haviam amado pela primeiro vez voltava a tocar na sua cabeça, repetindo-se sem cessar: maybe it's just the way it is and there's nothing I can do it's just the way it is...

terça-feira, 11 de março de 2014

Patetices...




A Primavera repentina e antecipada também tem destas coisas.


(Fotografia de mfc do blogue Pé-de-Meia (a primeira) e minha (a outra), ou a diferença entre quem sabe e quem nem tanto...)

segunda-feira, 10 de março de 2014

O Jardim da Gulbenkian






O Jardim da Gulbenkian é meu. Às vezes até me esqueço um bocadinho que ele existe. Mas quando chega a Primavera e passo perto, há sempre um perfume qualquer que me faz ter vontade de transpor o portão e entrar.  
Conheço-o bem, pelo lado de fora e de dentro, de dia e de noite, em cada recanto ou degrau, nos extensos relvados ou no Anfiteatro ao ar livre, onde já fui imensas vezes espectadora (Jazz em Agosto, bailado, concerto) e uma vez também "artista". E mesmo se agora o visito raramente, conservo vivas as memórias de ínfimos detalhes e uma imagem muito nítida daquela espécie de oásis no meio da cidade, tão acolhedor, todo só sombras,  silêncio e frescura.
É que durante a minha infância e juventude o Jardim da Gulbenkian era muito perto de casa. Por isso,  é um dos lugares da minha vida. Que me pertence, porque, de certo modo, cresci nele.
Lembro-me de quando ia para o liceu com a minha irmã, a pé, e desistíamos do caminho mais curto só pelo prazer de passar por dentro do jardim. E de brincadeiras de infância, mais antigas ainda: de jogar Badmington e o "volante" ficar preso nas árvores, de saltar entre as pedras, ou de procurar o melhor sítio para me esconder. E havia tantos e tão bons esconderijos... 
Depois, foi também cenário idílico e secreto de amores pueris, de beijos ardentes  e apaixonados, que nos tiravam o fôlego e faziam acreditar  que deviam ser assim o paraíso e a eternidade. Ou de tardes de ócio passadas em confidências e conversas com amigos, num tempo em que achávamos que tudo era possível e que havíamos de conseguir transformar o mundo e torná-lo melhor e mais justo, quase tão bonito como aquele nosso jardim.
Hoje, sem estar previsto e por razões que não importam, voltei ao meu Jardim da Gulbenkian na quietude de uma manhã de segunda-feira. Emocionei-me e  deixei-me arrebatar por aquela tranquilidade silenciosa de águas rumorejantes e cantos de pássaros, pelo sossego e a enorme paz  à minha volta.  E, sem saber ainda a tarde atribulada que me esperava, apeteceu-me esquecer os deveres e as obrigações e estender-me ao sol, a ler, sem pensar em mais nada.

domingo, 9 de março de 2014

(In)certezas


O tempo que passa também traz coisas boas: vive-se tudo mais tranquilamente, desvaloriza-se o que não é verdadeiramente importante e dissipam-se, ou esbatem-se, muitas certezas absolutas...

sábado, 8 de março de 2014

Dias de descanso


Há também os dias assim, em que sabe bem ficar em casa e não fazer nada de especial; deixar tudo para depois e dar-se apenas a uma doce e sonhadora preguiça, embalada por música suave...
(Fotografia do blogue E Deus criou a mulher)