quinta-feira, 20 de março de 2014

Já chegou a Primavera!




É oficial: há pouco mais de uma hora, às dezasseis horas e cinquenta e sete exactas, segundo os entendidos, começou a Primavera. No calendário, claro está. Porque na realidade desta vez ela antecipou-se, decidindo-se, magnanimemente, a satisfazer vontades alardeadas e inconfessados desejos e, após as inclemências e rigores do Inverno mais cinzento dos últimos anos, irrompeu de súbito há duas semanas, mesmo a tempo de festejar os meus anos na alegria imensa dessa chegada imprevista e no encantamento dos primeiros dias de sol e temperatura amena.
Hoje, dizem, o sol cruza o equador e o dia é do mesmo tamanho que a noite. Não sei bem se são dados científicos, mas sei que agora se dissipam as sombras e começa a que é para mim a melhor época do ano. Agora, são três meses bons, de possibilidades infinitas, em que melhora a disposição e tudo se anima e brilha mais, e cresce a vontade de fazer imensas coisas, na luz do sol sem excessos, na claridade dos dias cheios de cores e perfumes fortes de flores, de cantos vibrantes de pássaros, de sorrisos radiosos e de momentos perfeitos de puro prazer, o coração ao alto e a vida a (re)começar.

 (Fotografias de José Manuel Durão)

quarta-feira, 19 de março de 2014

Quando íamos ver passar os comboios



Não sou nada adepta dos "dias de". O meu pai também não era. Quem olha para esta fotografia facilmente imagina um pai de colo enorme onde cabíamos as duas ao mesmo tempo, quando, na verdade,  eram raros estes momentos.
Tinha um feitio difícil e não especialmente afectuoso. Por educação e maneira de ser, era às vezes um pouco distante e quase sempre muito distraído,  pouco dado a colos, a  abraços e a beijinhos.
O seu modo de gostar manifestava-se de uma forma muito mais subtil, nos longos passeios que dávamos por Lisboa todas as tardes, na forma discreta como nos ia ensinando a conhecer e a amar a nossa cidade; ou quando nos levava a ver passar os comboios, que tanto o fascinavam; e em tantas outras recordações de um tempo já muito antigo, que fazem parte da nossa história.

terça-feira, 18 de março de 2014

A temporada da dieta




É um facto ineludível, quase uma fatalidade, que se repete ciclicamente.  Nesta altura do ano, já se sabe, mal chegam os primeiros raios de sol e surge no horizonte a promessa de dias longos, a antecipar o desejo de férias, de ócio e liberdade, de pele destapada e de corpos estendidos ao sol, enchem-se de gente os ginásios, tudo cheio de vontade de "trabalhar o corpo" e de perder o máximo de peso no mínimo de tempo, e vendem-se toda a espécie de produtos, cremes, comprimidos, chás, o que quer que seja que dê para emagrecer, em tentativas mais ou menos desesperadas de remediar os excessos cometidos no Inverno. Como quem espera um milagre.
A obsessão da dieta tem uma época própria, quase semelhante à época de caça. A comunicação social e a publicidade não nos permitem sequer a mais pequena distracção, bombardeando-nos de modo exaustivo com as últimas modas, os segredos das "estrelas" e descobertas comprovadamente infalíveis. A última, a deste ano, é a dieta Detox, que consiste em levar não sei quantos dias só a beber batidos e outros líquidos. Ou, numa versão alternativa, ou mesmo combinada,  pode também passar por vestir o fato de treino, pôr os phones  para compor o look e ir correr furiosamente ao "ar livre", nem que seja entre os escapes dos automóveis, em plena Avenida da República, à hora de ponta.
Enfim, vivemos muito em função de aparências, numa época que tende a valorizar, talvez demasiado, a imagem, o culto do corpo e o mito da eterna juventude. E, por muito que digamos que isso não é o mais importante, ninguém está imune. No fundo todos gostamos de nos sentir bem na nossa pele, todos somos  vaidosos, nem que seja só um bocadinho, todos somos sensíveis ao olhares alheios e gostamos de agradar.
As mulheres, quase todas, mesmo as que são esqueléticas, acham sempre que nunca estão suficientemente magras. Não fujo à regra: como qualquer mulher,  também tenho tendência a achar que o ideal era perder dois ou três quilos; mas não vivo obcecada com essa ideia de perfeição, mais ou menos inatingível. Tenho, pois, as preocupações normais: faço exercício o ano inteiro (para me sentir bem, mais do que para estar magra) e porque me habituei a fazê-lo a vida toda e já não consigo passar sem ele. E tenho cuidado com o que como, porque sou gulosa por natureza. Mas não evito uma bela sobremesa, ou um bom vinho, se vou jantar fora, por exemplo; e permito-me aqui e ali aquelas transgressões que dão sempre tanto prazer e sem as quais a vida não teria graça nenhuma!

segunda-feira, 17 de março de 2014

Atrás da porta


Completamente por acaso, soube que Elis Regina faria hoje 69 anos. Não me admira que fosse do signo Peixes, aquele que, segundo dizem, tem as mulheres mais excessivas, desconcertantes e misteriosas, ostentando emoção e sensibilidade imoderadamente.
Não sei se acredito muito nestas coisas. O que sei é que Elis Regina é única; e que ouvi-la  é sempre impressionante. E depois,  juntar um compositor como Chico Buarque com uma intérprete e uma voz assim, tinha que dar nisto.
Esta é uma das minhas canções preferidas. Para ouvir muitas vezes...

domingo, 16 de março de 2014

À volta das palavras




Procuro palavras originais,  fortes e autênticas, mas nem sempre elas chegam para dizer tudo que penso e sinto. E sobra o desconforto do que não pode calar-se, e não é redutível às palavras, e existe apenas no mais fundo de nós.

sábado, 15 de março de 2014

Ode Marítima



Esta é a história de um tipo que vê um paquete e se vira do avesso, vai para fora da zona do conforto, mergulha em si próprio (...) Eu subscrevo emocionalmente a viagem, vou como um barco de papel num ribeiro, perco o controlo de mim. É uma sensação estranha, mas boa. Não sou este homem, mas procurei-o em mim. Não tanto uma personagem, mas uma determinada energia. (...). As referências são-me familiares. Também conheço a dor e a mágoa e a angústia. (...) É a grande epopeia da humanidade, a necessidade desesperada de sentir alguma coisa.

São palavras de Diogo Infante, a propósito da interpretação da Ode Marítima. Uma interpretação sublime e inesquecível, a confirmar uma vez mais, e  aqui de maneira inequívoca, incontestável, a genialidade do seu enormíssimo talento.
Durante uma hora e um quarto vemos o texto ganhar vida e acompanhamos esta viagem dentro de si, que é também viagem dentro de nós, do nosso imaginário marítimo e da alma portuguesa, feita de saudade dorida e da ânsia de  descoberta.
Num cenário de extrema beleza e sobriedade, há ainda a presença discreta e marcante de João Gil e da sua guitarra, companheiro e cúmplice deste longo grito interior, naquela força imensa que é raiva e desespero, mas também contenção e memória.
Mesmo para quem, como eu, conhece o texto, ouvi-lo e vê-lo assim é um momento raro e emocionante, que lhe dá uma outra dimensão e grandiosidade e inevitavelmente nos toca de maneira especial. E voltamos à realidade com palavras ainda a ecoar dentro de nós:
E a hora real e nua como um cais já sem navios
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh'alma...
Como disse João Gil, todos os portugueses deviam ver a Ode Marítima. E eu concordo. Porque é comovente e enriquecedor. Mais que isso: é avassaladoramente desafiante. E faz-nos sentir implicados.
Já vi o Diogo Infante e o João Gil muitas vezes e acompanho de muito perto o trabalho de ambos. Sei  que tudo o que fazem é sempre muito bom. Posso pois parecer suspeita, porque gosto muito dos dois, que são artistas maiores, com muitas provas dadas.
Mas ontem, vi-os como nunca os tinha visto antes e, por isso, quando o espectáculo terminou, tive vontade de lhes dar um grande abraço para lhes agradecer esta imperdível e admirável Ode Marítima, que me fez sentir tanta coisa.
E que recomendo vivamente!

sexta-feira, 14 de março de 2014

Junto ao mar




É uma das minhas paixões. Reequilibra-me e pacifica-me, atrai-me e seduz-me. Por isso, às vezes, preciso de me sentar na sua frente, quieta e calada, e de olhá-lo demoradamente. Mas não agora, não hoje, nem amanhã, que também gosto de evitar as enchentes e o demasiado óbvio. Basta-me sabê-lo aqui perto, ou vê-lo em imagens belíssimas, assim, diante das quais emudecemos e sonhamos. E um dia, que estará para breve, sei que nos vamos enfim (re)encontrar. 

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)