domingo, 30 de março de 2014

A Casa da Achada

 
Ainda na sequência do curso "Mãos que constroem sonhos", sobre Mário Dionísio e o Neo-Realismo, de que já falei aqui, conheci este fim de semana A Casa da Achada.
Situada na Lisboa mais típica, entre a Mouraria e o Castelo, mesmo por trás da Igreja de São Cristóvão, esta Casa, também designada Centro Mário Dionísio, reúne todo o espólio do autor, tanto de pintura como de literatura, o arquivo pessoal e a sua biblioteca privada.
Tal como explica a página da internet  (www.centromariodionisio.org), a Casa da Achada foi fundada em Setembro de 2008, por familiares, amigos, ex-alunos e apreciadores da obra de Mário Dionísio, e está aberta ao público desde Setembro de 2009.
Desenvolve uma intensa e diversificada actividade cultural, que inclui ciclos de cinema, exposições, palestras, espectáculos.
Porém, como costuma ser frequente neste país, infelizmente, os apoios estatais, autárquicos, ou quaisquer outros são muito reduzidos, praticamente inexistentes, pelo que A Casa da Achada se vai mantendo e continuando a existir graças aos contributos dos amigos e à força de vontade e empenho da filha, Eduarda Dionísio.
Foi pois um privilégio extraordinário, e também uma emoção, ter podido ontem visitar com ela a exposição que reúne toda a pintura figurativa de Mário Dionísio (intitulada "50 anos de Pintura") e ouvi-la, na sua imensa capacidade comunicativa, explicar cada quadro, contar histórias, falar das relações entre os quadros, e destes com a obra literária, e ainda acompanhar a visita com a leitura de textos do pai.
Gosto muito, já se sabe, de partilhar as coisas boas. Por isso, aqui fica a sugestão: vale realmente a pena visitar A Casa da Achada, tal como vale a pena conhecer a obra imensa, multifacetada e interessantíssima de Mário Dionísio, que em A Paleta e o Mundo, escreveu isto:
Que raros, na verdade, têm sido os pensadores, os críticos, os políticos, que sabem incluir nos seus planos de acção esta consciência da realidade: é preciso sonhar.
E para quem não conhece mesmo nada da obra, sugiro que se comece, por exemplo, por isto.

(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Laços


No calendário, os dias não são todos iguais. Há os que passam por nós de forma quase indiferente, mesmo se tentamos que cada um seja novo e especial. São dias que se sucedem a outros dias, sem espalhafato nem marcas, e se vivem entre banalidades e rotinas. Mas há também os que têm significado(s)  e os que ganham de repente um sentido novo. E que, por isso, se assinalam. Porque nos recordam alguma coisa ou alguém, porque nos trazem lembranças e afectos, ou pelos mais variados motivos.
Há um ano e tal, quase dois, passei a guardar o dia 28 de Março na lista dos meus dias dignos de celebrar. Porque, além dos nossos, os dias de todos aqueles de quem gostamos  e a quem queremos bem são nossos, de certo modo, também.  Vivem-se em alegria, até quando, como hoje, não há um sol a brilhar esplendoroso e a Primavera parece querer retroceder. É que  os amigos verdadeiros fazem-nos sempre sentir quentinho o coração. Tratam-se com cuidado, com carinho e atenção. Levam-se connosco pela vida fora. E isso é  magnífico. E reconfortante.
É o lado mais misterioso, indizível e irracional dos afectos, que nos aproxima de algumas pessoas e nos afasta de outras por razões inexplicáveis, que faz com que cada uma delas, na sua singularidade, seja única  e rara para nós, diferente de todas as outras. E por isso não gosto de ouvir dizer  "ninguém é insubstituível"; porque me parece que é exactamente o contrário.
Nós somos o exemplo vivo de que a amizade se pode revestir das mais diferentes maneiras de existir, e que há pessoas às quais sabemos intuitivamente que alguma coisa nos liga, ainda antes de cruzarmos um olhar. E que é possível estar perto, mesmo quando não se está fisicamente presente. 
Temos em comum um imenso amor pela nossa cidade e muitas outras afinidades, gostos, cumplicidades. Não sabemos tudo um do outro (e ainda bem!). Mas para além do que nos distingue e aproxima, dos defeitos e qualidades de cada um, o que nos une é uma estima que se desenvolve sem pressa nem obrigações, entre o rigor das palavras e a magia dos silêncios, claro e escuro, luz e sombras, sol e lua; que se fortalece com o tempo e é já carinho e amizade, respeito mútuo e consideração.
Aprecio em particular a sua inteligência, a sensibilidade,  o sentido de humor, a generosidade e a alma de artista. E o que me ensina e faz pensar, as pequenas descobertas subtis que se vão fazendo devagar, na emoção do que se pressente mais do que se sabe, e noutras boas sensações que são do melhor que a vida tem.
Sim, este é um post especialmente dedicado. É raro, mas às vezes também me dá para isto. Hoje justifica-se. Porque este dia é do Paulo, que é uma pessoa de quem eu gosto. Gosto muito!
É um amigo muito querido, diferente de todo os outros, mas, tal como os demais, é uma daquelas pessoas com quem rio, penso, me emociono, enterneço, maravilho e sinto que é bom poder contar; e que a vida é boa e vale a pena por causa destas harmonias mais ou menos secretas e de sentimentos genuínos assim; e  que são fortes os laços que nos unem, como nós difíceis de desatar.
Parabéns, Paulo!...
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima, naturalmente)

quinta-feira, 27 de março de 2014

Repetidamente, voltar...

 
 
 
 
 
 

Começa a ser um hábito, uma necessidade, o que lhe quiserem chamar. É, isso sei-o com certeza, um prazer daqueles bons, que sucessivamente se renovam e que, no entanto, nunca são iguais.
Nos últimos anos, tenho escolhido a chegada da Primavera para estar de novo nesta "minha" cidade,  - onde me sinto tão  a gusto, - ganhar novas energias e deixar-me encantar.
É pena não poder trazer para aqui o cheiro fortíssimo a flor de laranjeira que enche o ar intensamente, que quase inebria, mas as imagens, tantas vezes,  podem dizer mais que muitas palavras...
Por isso, enquanto imagino um novo regresso, calo-me, olho, e deixo as recordações tomarem conta do resto.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Lugares da minha vida



Há certos lugares que me são irresistíveis, que sinto como se me pertencessem, e que me fazem tão bem que necessito regressar a eles de tempos a tempos. Para me encher de beleza, tranquilidade e alegria. Para me (re)encontrar e sentir em paz. 
E, então, é como se tudo estivesse no sítio certo. Mais ou menos isso...

domingo, 23 de março de 2014

Inabilidade(s)



Apesar de notória e reconhecida por muitos, a minha capacidade de organização desvanece-se de súbito quando se trata de escolher o que levar numa viagem, por mais curta que seja.
Não sou exactamente daquelas pessoas que levam a casa inteira, mas admito que escolho sempre levar  muito mais do que necessito e não apenas no que à roupa diz respeito. Há pequenas coisas de todo o tipo que acho que podem fazer-me falta. Enfim, com a mania de ser previdente, acabo por ser pouco prática.
E, por isso,  é frequente ter de me sentar em cima da mala para a conseguir fechar, ou ter que deixar para trás,  à última da hora, o que me parecia imprescindível, só porque chego à conclusão que não cabe tudo. Também já por mais de uma vez me aconteceu ter de comprar um saco suplementar, porque no regresso a mala aparenta ter encolhido.
Às vezes pergunto-me se esta minha faltinha de jeito será mero sinal de falta de hábito, ou antes sintoma de uma inabilidade intrínseca e mais ou menos incorrigível.
E, nesses momentos, só nesses, prometo-me infalivelmente que para a próxima vou emendar-me.


sábado, 22 de março de 2014

Suárez



Quem me conhece sabe da minha paixão por Espanha e da atenção com que acompanho a actualidade e a vida cultural deste país de que me sinto sempre tão próxima. Foi por isso com tristeza que soube hoje do súbito agravamento do estado de saúde de Adolfo Suárez.
Suárez  é uma figura incontornável, com lugar de destaque na História espanhola. O seu nome ficará para sempre ligado à transição pacífica da ditadura para a democracia. Foi presidente do governo de 1976 a 1981. É a ele e ao Rei Juan Carlos que se deve uma Espanha  tal como hoje a conhecemos: livre, moderna e empreendedora.
Como quase todos os espanhóis, também eu tenho por ele um carinho especial.
Com 81 anos, Suárez sofre de Alzheimer há onze. Lembro-me de há alguns anos, já não sei exactamente quantos, ter visto uma entrevista do filho, Adolfo Suárez Llana, num programa de televisão chamado Las Cerezas que me impressionou: com uma força e uma serenidade fundadas na fé, falou da doença do pai e do modo como todos viviam com ela. E disse uma coisa que na altura não me tocou particularmente, mas que agora recordo muitas vezes, sobretudo aos Domingos, quando tenho que cuidar da minha mãe com o mesmo carinho e cuidado com que ela cuidou de mim. O que ele disse foi mais ou menos isto: temos que aceitar que vida muda e transforma muita coisa; e que chega uma altura em que nos cabe a nós pegar na mão dos nossos pais e conduzi-los e ampará-los como um dia eles também fizeram connosco.
 O mesmo filho de Adolfo Suárez, o habitual porta-voz da família,  anunciou ontem em conferência de imprensa o fim iminente do seu pai. E, emocionando-se, disse: está en manos de Dios
Suárez é um exemplo de classe e de lealdade ao Rei, que um dia disse dele: Sin su ayuda, seguramente España no habría volado ni tan alto ni tan lejos.
Dizem também os que com ele privaram que tinha uma grande sentido de Estado e que era um conciliador, generoso, inteligente e decidido. Um referência, pois, -  em tudo tão diferente do seu homónimo português...
Com o desaparecimento de Adolfo Suárez, cuja ligação à vida é neste momento muito ténue, perde-se uma das grandes figuras do século XX, não apenas de Espanha, mas da Europa e do mundo.
Espanha vive este exacto instante expectante, emocionada e quase incrédula, pendiente  desta notícia que ninguém gostaria de receber.
E eu, hoje, sou espanhola também. E como li num jornal espanhol: Lo único que puedo decirle a Adolfo, su hijo, es que su padre hizo lo más difícil: elevar la mirada por encima de si mismo. Que es mucho más de lo que jamás harán algunos. 

sexta-feira, 21 de março de 2014

Poesia


Énivrez-vous 

Il faut être toujours ivre. 
Tout est là : c'est l'unique question. 
Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps 
qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, 
il faut vous enivrer sans trêve. 
Mais de quoi ?
De vin, de poésie, ou de vertu, à votre guise. 

Et si quelquefois, sur les marches d'un palais, 
sur l'herbe verte d'un fossé,
dans la solitude morne de votre chambre,
vous vous réveillez,
l'ivresse déjà diminuée ou disparue, 
demandez au vent, à la vague, à l'étoile, à l'oiseau, à l'horloge, 
à tout ce rit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui fuit
à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, 
demandez quelle heure il est ; 
et le vent, la vague, l'étoile, l'oiseau, l'horloge, vous répondront : 
"Il est l'heure de s'enivrer ! "
Pour n'être pas les esclaves martyrisés du Temps, 
enivrez-vous ; enivrez-vous sans trêve! 
De vin, de poésie, d'amour, ou de vertu, à votre guise. 

                                      Charles Baudelaire