terça-feira, 22 de abril de 2014

Afectuosamente, Helena

 
A apresentação de cada livro da Helena Sacadura Cabral é, antes de mais, uma festa. Um encontro de amigos, onde os afectos ganham lugar de destaque. Porque a Helena é assim: uma mulher fascinante e muito terna, de olhar vivo, profundo e perscrutante, a quem apetece encher de beijinhos e de mimos.
O que sempre me impressiona, nestas ocasiões, é a forma calorosa como recebe cada pessoa, o sorriso grande e franco de quem está bem com a vida, a gargalhada sonora e acima de tudo uma certa humildade, que não é de todo falsa modéstia, mas antes a sabedoria de quem não se leva demasiado a sério e sabe rir-se de si mesma.
A Helena, mesmo com o prestígio e conhecimentos que tem, não é de vaidades parvas, nem assume nunca aqueles "ares de grande escritora". E, por isso, é muito fácil sentir-se perto e ser tocado pela sua mensagem, que é sobretudo a da importância do amor.
O novo livro da Helena "O que aprendi com a minha mãe", que ainda mal comecei a ler  é, pois, naturalmente, sobre os afectos. Na introdução diz isto: Existem na vida de todos nós pessoas que nos marcam para sempre. Umas, pela presença constante. Outras, pelas sementes que largam no nosso caminho.
De si mesma, diz muitas vezes: gosto de gostar.
Era assim que devia ser sempre. E, na época que vivemos, mais ainda...
E é isto que tem este mundo da blogosfera, para além de um lado negativo que tem também, como tudo, e do qual  pude já conhecer uma pequena parte: esta coisa maravilhosa e compensadora de trazer à nossa vida pessoas fantásticas, cuja presença nos acrescenta, ensina e enriquece.
Por mais este livro e por tudo o resto, devíamos agradecer-lhe. Pela minha  parte, aqui fica: a Helena é uma pessoa de quem eu gosto muito! E de quem é bom gostar... 

(Fotografia de Neuza Ayres)

domingo, 20 de abril de 2014

Domingo de Páscoa


É todos os anos o mesmo ritual e, ao mesmo tempo, é sempre diferente. A Páscoa toca-me de uma maneira especial. E comovo-me com a igreja cheia, o som dos sinos, e todos os glórias e aleluias. E com a mistura do sagrado e do profano, a alegria do recomeço e da renovação que a Primavera ajuda a consolidar, os cheiros de flores, os ovos e os coelhinhos, um outro ciclo de vida e tudo a ser de novo possível.
Nestas alturas, sinto-me ainda mais abençoada e protegida, fortalece-se-me a fé e enche-se-me o coração de uma tranquila serenidade. Daqui a sete semanas é Pentecostes, e chega a Romaria do Rocío, que é também muito importante para mim.
(Fotografia de Miguel Vitorino)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

A "Madrugá"


Na Andaluzia, de que eu tanto gosto, há três momentos que marcam a Primavera: a Semana Santa, a Feira de Abril e a Romaria do Rocío, de que já aqui falei.
Na Semana Santa, Sevilha modifica-se, enche-se de gente e, entre o Domingo de Ramos e o Domingo de Páscoa, pelas ruas apinhadas passam as procissões das cerca de cem confrarias e irmandades, num percurso que as leva até à Catedral.
Mas é na madrugada de Sexta-Feira que  a Semana Santa de Sevilha vive o seu momento alto e verdadeiramente especial - la Madrugá - com a saída das seis mais emblemáticas e conhecidas confrarias, por ordem de antiguidade, ao longo de toda a noite: La hermandad del Silencio; la del Jesús del Gran Poder; la Esperanza Macarena; el Calváriola Esperanza de Triana; e la de Los Gitanos.
É uma noite de magia e de emoção, com as imagens religiosas mais carismáticas de Sevilha nas ruas a cheirar a incenso e a flor de laranjeira, entre música, silêncio, os passos dos costaleros que transportam os andores (los pasos) e as saetas, um cântico religioso de cariz flamenco, intenso e dramático, cantado de forma aparentemente espontânea a capella, desde uma varanda ou em plena rua, diante das imagens.
Apesar de não parecer, nunca estive "ao vivo e a cores" na Semana Santa de Sevilha. Mas algum dia será. O que conheço da Madrugá é apenas o que vi pela televisão, o que li e o que me contaram.
E se me interessa tanto tudo isto é  porque há, na maneira festiva e de certo modo grandiosa como os espanhóis vivem a fé, uma alegria intrínseca, até nos momentos de maior seriedade e recolhimento, com a qual me identifico muito mais do que com a religiosidade portuguesa, que me parece bem mais tristonha e "lamurienta"... 
(Fotografia de Pepo Herrera)


quarta-feira, 16 de abril de 2014

Viver em Liberdade



Liberdade é a palavra que mais se ouve por estes dias, cujos limites e acepção se discutem tão exaustivamente que quase se lhe esvazia o sentido. Não quero reduzir ou minorar a importância que lhe é devida, mas não tenho na verdade memória do que é viver sem ela. Ainda bem...
E, estranhamente, ou talvez não, quando a ouço, mais do que o 25 de Abril, ou de igual modo, é  Éluard que me vem à cabeça; e um poema de que me lembro desde sempre, que já soube de cor, inteirinho, apesar de agora já só conseguir dizer o início e o fim.
Escrito  em 1942, num tempo em que, sob a ocupação alemã, a França também ambicionava  voltar a ser livre, ele diz mais, muito mais que qualquer discurso, por mais elaborado e bonito que seja.
É assim:

Sur mes cahiers d’écolier
Sur mon pupitre et les arbres
Sur le sable sur la neige
J’écris ton nom


Sur toutes les pages lues
Sur toutes les pages blanches
Pierre sang papier ou cendre
J’écris ton nom


Sur les images dorées
Sur les armes des guerriers
Sur la couronne des rois
J’écris ton nom


Sur la jungle et le désert
Sur les nids sur les genêts
Sur l’écho de mon enfance
J’écris ton nom


Sur les merveilles des nuits
Sur le pain blanc des journées
Sur les saisons fiancées
J’écris ton nom


Sur tous mes chiffons d’azur
Sur l’étang soleil moisi
Sur le lac lune vivante
J’écris ton nom


Sur les champs sur l’horizon
Sur les ailes des oiseaux
Et sur le moulin des ombres
J’écris ton nom


Sur chaque bouffée d’aurore
Sur la mer sur les bateaux
Sur la montagne démente
J’écris ton nom


Sur la mousse des nuages
Sur les sueurs de l’orage
Sur la pluie épaisse et fade
J’écris ton nom


Sur les formes scintillantes
Sur les cloches des couleurs
Sur la vérité physique
J’écris ton nom


Sur les sentiers éveillés
Sur les routes déployées
Sur les places qui débordent
J’écris ton nom


Sur la lampe qui s’allume
Sur la lampe qui s’éteint
Sur mes maisons réunies
J’écris ton nom


Sur le fruit coupé en deux
Du miroir et de ma chambre
Sur mon lit coquille vide
J’écris ton nom


Sur mon chien gourmand et tendre
Sur ses oreilles dressées
Sur sa patte maladroite
J’écris ton nom


Sur le tremplin de ma porte
Sur les objets familiers
Sur le flot du feu béni
J’écris ton nom


Sur toute chair accordée
Sur le front de mes amis
Sur chaque main qui se tend
J’écris ton nom


Sur la vitre des surprises
Sur les lèvres attentives
Bien au-dessus du silence
J’écris ton nom


Sur mes refuges détruits
Sur mes phares écroulés
Sur les murs de mon ennui
J’écris ton nom


Sur l’absence sans désirs
Sur la solitude nue
Sur les marches de la mort
J’écris ton nom


Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom


Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer


Liberté
                                     Paul Éluard


 (Fotografia de mfc, do blogue Pé-de-Meia)

terça-feira, 15 de abril de 2014

Um dia diferente

 
Dizer de cada dia que é recomeço, ou continuação, é quase um lugar comum. Mas há também os dias diferentes, em que tudo se afasta do habitual e se vivem entre o nervosismo e a excitação da novidade, por mais banal que ela possa ser.
Em dias assim, preparados com antecipação e aguardados na ânsia do que vai ser, é preciso encontrar o justo equilíbrio que permite vivê-los com a serenidade possível, aproveitar o lado bom de cada instante e esquecer o resto, entregando-se com confiança e de alma leve, e acreditando, fundamentalmente, que tudo pode sempre ser melhor.
Enfim, hoje, que não deixa de ser um dia singular na minha vida, diferente de todos os outros,  faço meu lema esta frase, que li já não sei onde: je crois en moi et en mon succès et je porte en moi le triomphe.
E sorrio, com alegria.