quarta-feira, 30 de abril de 2014

O que fica...

 
- Mas nós nunca aceitamos a noite sem remédio
nem a treva por substância do destino:
percorre-nos uma íntima ansiedade
de salvação até ao último momento,
- já sem nada a dizer e sem acreditarmos,
já com tudo contado, pesado, dividido,
é fatal que inda a esperança persista no limite
e por isso vivemos e nos comove a vida.

VGM


(Apenas isto: porque esta é uma quarta-feira atípica, diferente das outras; e porque para além dos homens, o que fica são as palavras dos poetas, que nos enchem a alma, nos comovem e embelezam a vida.)

(Fotografia de mfc, do blogue Pé de Meia)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Ler, ler, ler...

 
Gosto de dias férias assim tranquilos, em que o tempo corre devagar e não há planos, nem horários, nem obrigações, em que nada está previsto ou combinado, e tudo se vai fazendo segundo a vontade de cada instante.
Por esta altura preciso sempre de um tempo de silêncio e de solidão, a sós comigo, com os meus pensamentos e o meu mundo, que me reequilibram e me devolvem a paz interior e a harmonia com o universo. Pode ser em casa, junto ao mar, ou deambulando pelas ruas da cidade, olhando-a com os olhos limpos, como se a visse pela primeira vez.
É então que me sabe melhor entregar-me também longamente à leitura, lenta e preguiçosamente, que é como se deve ler, sem olhar para o relógio, deixando-me apenas levar pela magia das palavras.
Desde que me lembro, sempre houve livros à minha volta. E a leitura sempre me fascinou. Por isso estou sempre a ler alguma coisa. Depois de ter passado pela Faculdade de Letras, então, não consigo ler um livro de cada vez. Há sempre, pelo menos, três livros que me ocupam em cada momento, nas minhas três línguas: português, francês e espanhol.
Os livros fazem uma enorme companhia, ensinam-nos o sonho e a vida, levam-nos para destinos que não imaginávamos que existissem e ajudam-nos a traçar caminhos. Fortalecem-nos. E, não tenho dúvida, de que ao entregarmos-lhes a alma, por um qualquer feitiço ou inexplicável milagre, tornamo-nos melhores pessoas.

domingo, 27 de abril de 2014

Fica o mundo mais triste, empobrecido...


Soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.

                                                  Vasco Graça Moura
(Apesar do sol e da linda luz de Primavera, este é para mim um dia muito triste. Não o conhecia pessoalmente, mas fazia de certo modo parte da minha vida. Porque há poucas pessoas por quem eu tenha tão grande admiração intelectual e apreço. Estima, até. Porque este "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamou Maria Alzira Seixo, ensinou-me a pensar e a viver melhor. E isso é tanta coisa...
Sei que agora já não vou abrir o DN à pressa à procura do que vem na penúltima página, que me vai fazer falta a sua inteligente e sensata opinião, e que as minhas quartas-feiras serão, por isso, um pouco mais tristes.
A língua portuguesa perde o seu mais acérrimo defensor, que lutou com garra e convicção, até ao limite das forças e do tempo, contra o cinismo dos políticos que insistiram numa aberração sem querer saber de consequências, ou sequer ouvir quem sabe; que deu lugar de destaque  às línguas e humanidades no CCB, e que nos deu tanta, tanta coisa, para além do seu enorme talento.
A má notícia de hoje não era inesperada, mas não imaginava que fosse já e não queria que fosse nunca. Por isso não pude, não posso, enquanto murmuro esta canção, evitar as lágrimas. Elas são sinal de emoção e não de debilidade, como ouvi a alguém, um dia. E, hoje, morreu-me um amigo, que era o que,  de certa maneira, Vasco Graça Moura era para mim.
Ficámos, todos, ainda mais pobres...)

sábado, 26 de abril de 2014

Intensamente belo e perturbador


Dizer que é uma obra-prima poderá talvez ser excessivo. Mas este Jeune et Jolie parece-me um daqueles filmes que não se pode perder. Mesmo descontando o facto de eu ser um pouco suspeita. Não é novidade que gosto muito de cinema e que o cinema francês ocupa um lugar de destaque nas minhas preferências. Posso até acrescentar que François Ozon é sem dúvida um dos "meus" realizadores, no sentido em que o vejo como garantia de qualidade quase certa.
E, ainda assim, surpreendeu-me. Tinha estado para ver este filme no Outono, na Festa do Cinema Francês. Desisti à última da hora, por razões que não importam. Vi-o agora. E valeu bem a pena.
O que nos conta vem um pouco na linha de La Vie d'Adèle, centrando-se na figura de  uma menina-mulher à descoberta de si e do corpo, naquela sede de amor e de absoluto tão arrebatadoramente juvenil.
Tal como Adèle Exachopoulos, aqui é Marine Vatch que ocupa o filme todo pela força da sua enorme beleza e sensualidade, que tornam uma e outra inesquecíveis. Mas a frescura de Adèle é substituída pelo ar algo enigmático de  Isabelle/Léa, sempre um pouco longínqua e misteriosa. Quase parecendo, à primeira vista, desprovida de emoção ou sentimento.
Também o que era excessivo e demorado em La vie d'Adèle, mesmo maçador, é aqui contenção, tempo certo, sugestão mais que revelação, e uma infinidade de perguntas que ficam sem resposta. Nisto reside, quanto a mim, grande parte do encanto do filme. Cada um de nós encontrará a sua verdade, as suas respostas, ou sentir-se-á apenas inquieto, sem saber o que dizer, ou o que pensar.
O modo como o filme nos coloca perante questões como o que leva uma rapariga da classe média alta, que aparentemente tem tudo para um caminho de sucesso (afecto, inteligência, beleza, dinheiro) a sair do caminho traçado e a viver uma vida dupla, como trata os temas do que significa crescer, da procura de sentido para a vida, da aprendizagem do prazer e da dor, das relações familiares, de como nos relacionamos com uma juventude que não tem por que lutar nem o que desejar, da normalidade e da transgressão, sem nunca apresentar soluções, é o que há nele de mais avassalador e tocante.
E há cenas magníficas, das quais destaco duas: a aula no liceu Henri IV em que os alunos recitam Rimbaud: On n'est pas sérieux quand on a 17 ans / et qu'on a des tilleuls verts sur la promenade e a seguir falam sobre o texto (a dar-me umas ideias interessantes para Setembro), ou a cena de amor na praia, logo no início, quando no momento em que perde a virgindade, totalmente despojada de afecto e de ternura, a personagem sai do seu corpo e se observa a si mesma.
E apesar das canções de Françoise Hardy que integram a banda sonora, foi de Moustaki que me lembrei ao ver este filme, e em particular da letra da canção 17 ans, tão apropriada à descoberta da sexualidade e do prazer da sedução. Diz assim: 17 ans une femme, une enfant, qui ne sait rien encore et découvre son corps (...) une faim de loup et une soif de tout (...) comme un fruit éclaté, comme un cri révolté...
Jeune et Jolie é tudo isto e muito mais. É um filme a ver...

sexta-feira, 25 de abril de 2014

40 anos depois



https://www.youtube.com/watch?v=IRqsnI7vpcw 

Tenho memórias difusas e desgarradas do que foi este dia há quarenta anos. Lembro-me que era quinta-feira e estava um dia de Primavera como o de hoje, ventoso e pouco quente. Que não houve aulas, nem saí de casa; e que tudo se passou mais ou menos de ouvido atento às notícias da telefonia (como se dizia na altura) e de olhos postos ora na televisão, ora na janela, de onde em frente se viam soldados armados de metralhadoras, na esquina da Duque d'Ávila e Marquês de Tomar, pela proximidade com Quartel-General da Região Militar de Lisboa, então situado no Palácio de Vilalva, em São Sebastião.
Sem qualquer consciência política, não tinha a noção exacta do que se estava a passar, e o que retenho desse dia, acima de tudo, são os olhares expectantes, feitos de nervosismo e ansiedade, dos adultos que me rodeavam.
Recordo melhor o que veio depois: todos os excessos, em sentido positivo e negativo também, e a crença quase generalizada num mundo melhor. Na verdade vivi a adolescência em plena euforia pós-revolução, com tudo o que isso teve de bom e mau.
E hoje, quando olho para trás, penso que nestes quarenta anos está a substância da minha vida inteira e a maior parte da minha história. Em liberdade, pois!...

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Memórias de infância



Quand au hasard des jours
Je m'en vais faire un tour
À mon ancienne adresse
Je ne reconnais plus,
Ni les murs, ni les rues,
Qui ont vu ma jeunesse...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um filme diferente


Na verdade não me lembro de ter ouvido falar de Wes Andersen. Mas Ralph Fiennes merece sempre uma ida ao cinema. Acho eu... Ainda mais quando acompanhado de um elenco de luxo, que inclui, entre outros, Adrien Brody, Jude Law, Owen Wilson, Bill Murray, Léa Seydoux.
Fui; e não me arrependi. É um filme diferente do que estamos habituados a ver, fantasioso, divertido,  burlesco até, aqui e ali, e construído em ritmo quase alucinante.
Não é uma daquelas comédias de riso alarve e fácil, que eu detesto, mas antes um filme que vale a pena ver, que nos conta uma história peculiar e que nos faz  passar uma agradável hora e meia. E, afinal, não é essa também a função do cinema, a mais óbvia e imediata?