Soneto do amor e da morte
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
Vasco Graça Moura
(Apesar do sol e da linda luz de Primavera, este é para mim um dia muito triste. Não o conhecia pessoalmente, mas fazia de certo modo parte da minha vida. Porque há poucas pessoas por quem eu tenha tão grande admiração intelectual e apreço. Estima, até. Porque este "Príncipe das Letras", como tão justamente lhe chamou Maria Alzira Seixo, ensinou-me a pensar e a viver melhor. E isso é tanta coisa...
Sei que agora já não vou abrir o DN à pressa à procura do que vem na penúltima página, que me vai fazer falta a sua inteligente e sensata opinião, e que as minhas quartas-feiras serão, por isso, um pouco mais tristes.
A língua portuguesa perde o seu mais acérrimo defensor, que lutou com garra e convicção, até ao limite das forças e do tempo, contra o cinismo dos políticos que insistiram numa aberração sem querer saber de consequências, ou sequer ouvir quem sabe; que deu lugar de destaque às línguas e humanidades no CCB, e que nos deu tanta, tanta coisa, para além do seu enorme talento.
A má notícia de hoje não era inesperada, mas não imaginava que fosse já e não queria que fosse nunca. Por isso não pude, não posso, enquanto murmuro esta canção, evitar as lágrimas. Elas são sinal de emoção e não de debilidade, como ouvi a alguém, um dia. E, hoje, morreu-me um amigo, que era o que, de certa maneira, Vasco Graça Moura era para mim.
Ficámos, todos, ainda mais pobres...)