segunda-feira, 19 de maio de 2014

Um lugar especial

 
http://www.youtube.com/watch?v=DLKNvh5Fh3I

Sempre que a olho assim, vista de cima,  sinuosa e imensa, magnífica de esplendor, graça e luz, emudeço e emociono-me. E sinto-me abençoada por a saber minha; e por fazer parte dela, também.
Há sítios que têm uma magia ímpar, uma aura qualquer que nos agarra e ampara,  onde podemos alcançar uma doce tranquilidade e o coração se nos pacifica e sossega.
Este é um daqueles lugares feéricos e com alma, a meio caminho entre a terra e o céu, em que tantas vezes procurei refúgio, silêncio e paz, ou me encontrei comigo para pensar e decidir, fazer balanços e projectos, tomar pequenas e grandes resoluções, ponderar, fantasiar, chorar, acalmar. Outras vezes,  muitas outras, quase todas, deixei simplesmente os olhos tomar conta de tudo e  rendi-me, contemplativa, sem pensar em nada.
É que, do alto do meu miradouro, Lisboa é ainda mais bonita...

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Amores...


 
Entrego-me nos seus braços com a mesma confiança com que regresso ao colo de um amor antigo, no encanto apaixonado do que já conheço e me seduz,  enamora, entontece, e na exaltação emocionada do que me falta descobrir.
Porque há amores assim: infindáveis, grandiosos, requintados, românticos, diferentes, irredutíveis às palavras, avessos a definições, que apenas se podem sentir. E que valem a vida inteira. Como Paris. Como tu...


quarta-feira, 14 de maio de 2014

A febre clubística


Não gosto de futebol e, sinceramente, é um assunto que não me interessa nem um bocadinho. Mas é claro que consigo perceber, aceitar e respeitar que possa gostar-se e ser-se adepto de um clube qualquer, seguir os jogos e vibrar com eles, alegrar-se com as vitórias, ou decepcionar-se com as derrotas.
O que já não consigo entender é essa espécie de febre que parece atingir cada vez mais pessoas, e todos os excessos que lhe estão associados e que, para mim, são exagerados e ridículos. Primários, até...
Será, provavelmente, uma incapacidade minha, mas não consigo de todo compreender que quem se queixa da crise - e quem não o faz? - se disponha a pagar até cento e cinquenta euros por um bilhete para assistir a um jogo "se for preciso", como ouvi alguém dizer outro dia, nem as noites passadas à porta de um estádio para comprar bilhetes, os gritos e apitos que enchem o Marquês, ou o patriotismo exacerbado, que apenas se revela nestas ocasiões.
Não encontro sentido para todas as guerrinhas, nem para os negócios, os "chiliques" e, menos ainda, a intolerância, os insultos e as agressões que surgem em nome deste ou daquele clube.
Faz-me confusão o orgulho nacional desproporcionado de ter um Cristiano Ronaldo, que terá sem dúvida o seu valor, mas é também um bom exemplo de arrogância e de um ego gigantesco, hiperbolizado, quando ninguém fala no privilégio de ter um actor português com a genialidade de Diogo Infante, ou um escritor tão brilhante como Camões, por exemplo.
A mim, tanto se me dá quem ganhe. Sendo português, ou não. Lamento, mas o meu patriotismo passa pouco pelo desporto e muito menos pelas taças e títulos conseguidos.
Na verdade, há muitas coisas capazes de me fazerem sentir feliz, mas o futebol não é definitivamente uma delas; e, por isso, não partilho esta "histeria colectiva" que me parece, assim vista de fora, despertar o lado mais irracional, absurdo e disparatado, para não dizer pior, que há nas pessoas.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O milagre da vida e outras perplexidades

 
É uma mania como outra qualquer, mas começo sempre a ler o jornal ao contrário. E hoje, uma pequena notícia na última página, muito simples, emocionou-me quase até às lágrimas. 
A história, real, é esta:

Gémeas nascem de mãos dadas após gravidez de risco 
Os médicos de um hospital de Ohio, nos EUA, emocionaram-se após o nascimento prematuro de gémeas, que chegaram ao mundo de mãos dadas. A mãe, de 32 anos, teve uma gravidez de risco, pois as bebés dividiram o saco amniótico e a placenta, algo que só acontece uma vez em cada dez mil partos

Como saber disto sem nos comovermos? Como não pensar no que há de mais maravilhosamente ternurento e inexplicável na simplicidade da vida? 
E depois, na outra ponta do jornal, a sua antítese: a fotografia arrepiante das 223 meninas nigerianas raptadas e sequestradas, arrancadas às suas casas, à sua vida e à sua infância.
E pensei que o que há nelas de comum é que, provavelmente, em pleno terror do que estão a viver, no desepero pela sobrevivência, muitas delas também se darão as mãos.

Então, nem sei porquê, lembrei-me de repente daquelas palavras de Sophia que tanto marcaram a minha adolescência: "vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar..."
É que, num mundo cada vez mais marcado pelo individualismo, vamos olhando muito pouco à nossa volta, e deixando que quase tudo o que não tem a ver connosco nos seja mais ou menos indiferente.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Lusco-fusco

 
no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

                            Vasco Graça Moura
Os franceses chamam "entre chien et loup" a esses instantes de contornos indistintos, em que o dia se faz noite e tudo parece suspenso na incerteza do que está por vir, e apenas há  pressentimento, desejo, inquietação  e quietude, na doce melancolia do entardecer.
(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

domingo, 11 de maio de 2014

As tuas mãos, as nossas tardes

 
http://www.youtube.com/watch?v=FsG67OOUG8k

As nossas tardes são às vezes a melhor parte dos meus dias, feitas de instantes perfeitos a saber a eternidade, nas horas dos abraços sem pressa, em que deixa de haver mundo porque o mundo todo és tu; e te encostas a mim em abandono, e com beijos lentos te entrego o meu corpo e eu inteira nele, e as tuas mãos grandes me arrepiam a pele, que percorrem devagar, a sufocar o incêndio do que provocam em mim.
Então não somos mais que sensações, e sonhos e esperanças, e carícias e prazer, numa dança louca e linda de quem se conhece de cor e se (re)descobre e encanta na simplicidade do que só se sente, sem palavras nem explicações, sem antes nem depois, sem ontem ou amanhã; do que apenas se vive no silêncio emocionado de um colo grande e bom.

sábado, 10 de maio de 2014

Sonhar com o Rocío


E quando chega Maio é sempre assim: há esta inexplicável magia que só quem já alguma vez viveu a Romería pode conhecer pelo lado de dentro da emoção. Não se consegue evitar. Nestes dias, todos os caminhos e todos os pensamentos nos querem levar até ao Rocío, manifestação de fé e explosão de vida, força e alegria, experiência única que vale a existência inteira e deixa marcas para sempre. O Rocío é um daqueles lugares verdadeiramente especiais que se nos agarram ao peito e à pele, que se fazem nossos para sempre, e onde se quer, a cada ano, voltar.