quinta-feira, 22 de maio de 2014

Eleições europeias

 
Como acontece com a maioria dos portugueses, esta campanha passou-me ao lado. Talvez por cansaço ou desilusão, talvez por não se centrar no que verdadeiramente está aqui em jogo e se perder pelas intrigas e mediocridades da "pequena política".
E, no entanto, embora respeitando quem toma essa opção, não posso entender nem concordar com a abstenção. Porque ela me parece reveladora da atitude tão tipicamente portuguesa e para mim quase condenável de encolher os ombros e não querer saber; e esperar depois que alguém venha resolver (milagrosamente, de preferência) aquilo que nos diz respeito. E que não deixaremos nunca de criticar.
Não consigo ver a abstenção como um protesto, uma discordância face a todas as propostas apresentadas. Nessa situação entendo ser bem mais lógico o voto branco, ou nulo. Nunca o faria, mas acho que é uma tomada de posição muito mais coerente.
É que eu posso não concordar com tudo (como a posição assumida pelo meu partido quanto ao Acordo Ortográfico, por exemplo, ou tantas outras coisas), mas sei o que não quero e aquilo em que acredito.
A mim também me tem custado na pele e na vida passar por isto que estamos a passar. Não percebo nada de economia e não sei se as soluções encontradas foram as melhores, mas sei que não quero voltar atrás.
E, por isso, apesar das dificuldades, das dúvidas e mesmo da insatisfação perante os anos difíceis que passamos, pelo que a dependência externa nos forçou a fazer, para recuperar um país à beira da bancarrota de que falava Paulo Portas, eu acho que no Domingo tenho mesmo que ir votar. E vou!

terça-feira, 20 de maio de 2014

Equilíbrio e perfeição


Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

O que eu leio por aí...

 
Não o escondo: são poucos, muito poucos, os "meus blogues". Porque nisto, como em tantas outras coisas, prefiro a qualidade. Por isso, muito do que existe no mundo virtual me passa ao lado. E ainda bem. Nada de "pipocas", nem de "cócós", portanto. É que, mesmo correndo o risco de perder coisas muito boas, prefiro limitar-me ao que me interessa e tem para mim significado, aquilo com que me identifico ou deleito, o que me emociona e faz pensar, umas vezes concordando e outras não.
Há os blogues que me encantam e me fazem sentir bem, pelos quais passo todos os dias, e de que me aproprio até, em parte, e guardo comigo, e "trago para casa", replicando-os tantas vezes por aqui: é o caso das fotografias do Paulo e do mfc, na comoção do que despertam em mim, ou dos textos do Pedro, do Adolfo, da Helena, quando conseguem pôr em palavras o que eu sinto e não sei dizer assim. 
Hoje, encontrei no Delito de Opinião mais um texto que me tocou. 
É este: 
Elogio da solidão 

por Rui Herbon, em 18.05.14 
Neste mundo obsessivamente interconectado, onde é mais fácil comunicar com alguém em Tombuctu que falar com o vizinho do lado, o mais difícil de tudo é comunicar consigo mesmo. Schopenhauer colocava-o assim: «A solidão é a sorte de todos os grandes espíritos». Mas, mais que sorte, é uma aprendizagem, uma auto-exigência e, talvez, uma valentia. No fundo não estranho que tenhamos pânico da solidão, como o temos também do silêncio, porque ambos nos resgatam do ruído quotidiano, desmontam os subterfúgios que pacientemente havíamos construído, e devolvem-nos sem piedade ao essencial. Inclusive incitam-nos a fazer perguntas. E nestes tempo onde o surfing da vida triunfa em todos os aspectos — comida rápida, relações rápidas, conversas rápidas —, a ideia de estar só consigo é quase revolucionária. Falo evidentemente da solidão criativa, escolhida e procurada entre o ruído quotidiano. A outra, a daquelas pessoas que ficaram sós, amiúde em idades avançadas, é outra história. Nesse caso não se trata de uma respiração que insufla a alma, mas de viver com a sensação de abandono. O que, estranhamente, é uma consequência mais desta sociedade de tanta gente junta e ligada que contudo está a perder a capacidade de falar. Este tipo de solidão, sem dúvida nenhuma, não tem nada de criativo e tem tudo de doloroso. Mas a outra solidão, a que é capaz de conviver e construir caminhos partilhados, que não está vazia de gente, mas muito cheia, que não foge, mas que busca e encontra, essa solidão devia ser uma reivindicação diária, uma auto-exigência, um prazer concedido. Pouco a pouco vamos perdendo essa capacidade de recolher-nos em nós, seja para ler um livro ou ouvir um disco, ou simplesmente para observar a vida. E perdemo-la porque é mais fácil vivermos rodeados de ruído humano, ainda que tenhamos esquecido a gramática para entender a linguagem. No fundo creio que somos uma sociedade assustada e frágil, e que preferimos colocar-nos apenas as perguntas certas para não vislumbrarmos o abismo interior pelo qual derrapamos. Por isso educar é também ensinar a parar o tempo, despojar-se dos disfarces, ficar só com as próprias interrogações e aprender a gostar de si. Essa solidão conquistada é, no fundo, a conquista de si mesmo

Detenho-me na última frase. E porque hoje começam os exames, e porque ultimamente tenho pensado ainda mais em educação e no que importa fazer para ir mudando tanto que há nela de errado, acho que é primordial insistir no que defendo há muito: menos tecnologias e aquela expressão que eu detesto do "saber fazer" e centrarmo-nos, sobretudo, em ensinar a pensar. Porque quem sabe pensar, saberá fazer. O contrário é que pode não ser verdade. E só assim a escola cumprirá o seu papel essencial: o de ensinar a questionar(se). 

Nota: O sublinhado do texto é da minha inteira responsabilidade. 

(Fotografia de mfc, do blogue Pé-de-Meia)

Um lugar especial

 
http://www.youtube.com/watch?v=DLKNvh5Fh3I

Sempre que a olho assim, vista de cima,  sinuosa e imensa, magnífica de esplendor, graça e luz, emudeço e emociono-me. E sinto-me abençoada por a saber minha; e por fazer parte dela, também.
Há sítios que têm uma magia ímpar, uma aura qualquer que nos agarra e ampara,  onde podemos alcançar uma doce tranquilidade e o coração se nos pacifica e sossega.
Este é um daqueles lugares feéricos e com alma, a meio caminho entre a terra e o céu, em que tantas vezes procurei refúgio, silêncio e paz, ou me encontrei comigo para pensar e decidir, fazer balanços e projectos, tomar pequenas e grandes resoluções, ponderar, fantasiar, chorar, acalmar. Outras vezes,  muitas outras, quase todas, deixei simplesmente os olhos tomar conta de tudo e  rendi-me, contemplativa, sem pensar em nada.
É que, do alto do meu miradouro, Lisboa é ainda mais bonita...

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Amores...


 
Entrego-me nos seus braços com a mesma confiança com que regresso ao colo de um amor antigo, no encanto apaixonado do que já conheço e me seduz,  enamora, entontece, e na exaltação emocionada do que me falta descobrir.
Porque há amores assim: infindáveis, grandiosos, requintados, românticos, diferentes, irredutíveis às palavras, avessos a definições, que apenas se podem sentir. E que valem a vida inteira. Como Paris. Como tu...


quarta-feira, 14 de maio de 2014

A febre clubística


Não gosto de futebol e, sinceramente, é um assunto que não me interessa nem um bocadinho. Mas é claro que consigo perceber, aceitar e respeitar que possa gostar-se e ser-se adepto de um clube qualquer, seguir os jogos e vibrar com eles, alegrar-se com as vitórias, ou decepcionar-se com as derrotas.
O que já não consigo entender é essa espécie de febre que parece atingir cada vez mais pessoas, e todos os excessos que lhe estão associados e que, para mim, são exagerados e ridículos. Primários, até...
Será, provavelmente, uma incapacidade minha, mas não consigo de todo compreender que quem se queixa da crise - e quem não o faz? - se disponha a pagar até cento e cinquenta euros por um bilhete para assistir a um jogo "se for preciso", como ouvi alguém dizer outro dia, nem as noites passadas à porta de um estádio para comprar bilhetes, os gritos e apitos que enchem o Marquês, ou o patriotismo exacerbado, que apenas se revela nestas ocasiões.
Não encontro sentido para todas as guerrinhas, nem para os negócios, os "chiliques" e, menos ainda, a intolerância, os insultos e as agressões que surgem em nome deste ou daquele clube.
Faz-me confusão o orgulho nacional desproporcionado de ter um Cristiano Ronaldo, que terá sem dúvida o seu valor, mas é também um bom exemplo de arrogância e de um ego gigantesco, hiperbolizado, quando ninguém fala no privilégio de ter um actor português com a genialidade de Diogo Infante, ou um escritor tão brilhante como Camões, por exemplo.
A mim, tanto se me dá quem ganhe. Sendo português, ou não. Lamento, mas o meu patriotismo passa pouco pelo desporto e muito menos pelas taças e títulos conseguidos.
Na verdade, há muitas coisas capazes de me fazerem sentir feliz, mas o futebol não é definitivamente uma delas; e, por isso, não partilho esta "histeria colectiva" que me parece, assim vista de fora, despertar o lado mais irracional, absurdo e disparatado, para não dizer pior, que há nas pessoas.

terça-feira, 13 de maio de 2014

O milagre da vida e outras perplexidades

 
É uma mania como outra qualquer, mas começo sempre a ler o jornal ao contrário. E hoje, uma pequena notícia na última página, muito simples, emocionou-me quase até às lágrimas. 
A história, real, é esta:

Gémeas nascem de mãos dadas após gravidez de risco 
Os médicos de um hospital de Ohio, nos EUA, emocionaram-se após o nascimento prematuro de gémeas, que chegaram ao mundo de mãos dadas. A mãe, de 32 anos, teve uma gravidez de risco, pois as bebés dividiram o saco amniótico e a placenta, algo que só acontece uma vez em cada dez mil partos

Como saber disto sem nos comovermos? Como não pensar no que há de mais maravilhosamente ternurento e inexplicável na simplicidade da vida? 
E depois, na outra ponta do jornal, a sua antítese: a fotografia arrepiante das 223 meninas nigerianas raptadas e sequestradas, arrancadas às suas casas, à sua vida e à sua infância.
E pensei que o que há nelas de comum é que, provavelmente, em pleno terror do que estão a viver, no desepero pela sobrevivência, muitas delas também se darão as mãos.

Então, nem sei porquê, lembrei-me de repente daquelas palavras de Sophia que tanto marcaram a minha adolescência: "vemos, ouvimos e lemos / não podemos ignorar..."
É que, num mundo cada vez mais marcado pelo individualismo, vamos olhando muito pouco à nossa volta, e deixando que quase tudo o que não tem a ver connosco nos seja mais ou menos indiferente.