quinta-feira, 26 de junho de 2014

Os estragos do tempo...



Agora, muitas vezes, quando a olho e vejo nela uma sombra do que já foi, penso em quantas histórias encerram estes 89 anos, dos quais conheço tão bem as fortalezas e as fragilidades. E lembro-me, inevitavelmente, de Jacques Brel e das palavras tão certeiras de Les Vieux, sobre os estragos do tempo e um mundo que, com o passar dos anos, se vai tornando cada vez mais curto e limitado.
(...)
Les vieux ne bougent plus,
leurs gestes ont trop de rides
leur monde est trop petit
du lit à la fenêtre,
puis du lit au fauteuil
et puis du lit au lit...
ou
Les vieux ne parlent plus
ou alors seulement
parfois du bout des yeux...
ou ainda
On vit tous en province
quand on vit trop longtemps...

Há momentos em que a sua inconfundível gargalhada, a transparência verde do seu olhar, ou a alegria genuína que sempre a caracterizou, me trazem de volta pequenos pedaços de um passado que já não existe. Mas é no toque da pele, quando aperto a sua mão na minha, que sinto, na verdade, que só o nosso amor não muda.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Acasos


 
Destino ou casualidade, há quem chegue à nossa vida de forma imprevista, e a modifique, e se vá deixando ficar a ocupar um espaço grande no coração, que é amizade, é amor, é afecto desmedido, e se leva pela vida fora no claro escuro dos dias e das noites, bom e mau, tudo e nada, sem querer saber do que é, do como vai ser, ou do que vem depois...

terça-feira, 24 de junho de 2014

Não se aguenta!...

 
Tenho cada vez menos paciência para me sentar a ver televisão. Houve um tempo, há muitos anos, em que gostava de ver novelas brasileiras; mas agora já não. Também não vejo séries, nem concursos - os de cantorias, por exemplo, não se aguentam e são todos iguais - e filmes só mesmo no cinema.
Depois, não há na televisão portuguesa verdadeiros debates de ideias e de opiniões. Há apenas os "comentadores de serviço", que opinam sobre política ou futebol, aqueles a que Pinto da Costa um dia sarcasticamente se referiu como "paineleiros", sempre os mesmos, desinteressantes e cansativos. E os infindáveis programas, debates, comentários, desportivos. Horas a fio. Em todos os canais ao mesmo tempo, em certos dias.
Sobra a informação. Mas nem isso vale a pena. Os telejornais começam invariavelmente com as lesões de Cristiano Ronaldo, ou outra notícia assim "importante", passam pela crise e arrastam-se penosamente por mais de uma hora, com os mais impensáveis fait-divers e muitas ligações em directo, por tudo e por nada, para tratar de coisa nenhuma.
A este respeito, encontrei uma vez mais no Delito de Opinião um texto de Pedro Correia, claríssimo e muito bem escrito, com o qual concordo em absoluto.
Diz assim:
Hoje, com a febre dos "directos", qualquer irrelevância se torna manchete. Um dos problemas do nosso tempo é a falta de hierarquia nas notícias. Tudo vale, desde que preencha tempo de antena ou provoque reacções em cadeia nas redes sociais - com prazo de validade cada vez mais curto. A morte de mil pessoas num atentado surge nos telediários imediatamente antes ou imediatamente após uma peripécia da treta protagonizada por qualquer futebolista ou vedeta de telenovela. Há quem faça vénias ao fenómeno, em nome da suposta "democratização" da informação. Mas informação não é isto. E não existe democracia digna desse nome sem informação séria, credível, editada e hierarquizada. Tudo quanto a moda dos "directos" não é.
Enfim, o que tudo isto tem de bom é que me vai sobrando mais tempo para dedicar à leitura. Menos mal...

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Arrebatamento...



 




 

 



 
 
 
 

...como eu não sei rezar,
só queria mostrar
meu olhar, meu olhar, meu olhar...

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Paris, je reviens...

 
Gosto de cidades. Gosto de conhecer cidades novas, mas gosto mais ainda de voltar, vezes sem conta, às "minhas" cidades.
Paris é o meu amor maior, de hoje e de sempre, uma daquelas paixões idealizada primeiro e concretizada depois, sempre aconchegante e surpreendente, a minha cidade do coração, que ocupa um lugar enorme na minha vida. 
É sempre o primeiro destino onde me apetece voltar,  e  suspiro de saudades quando estou muito tempo longe. Um ano basta. Mais que isso parece-me uma eternidade.
Porque sinto a falta da luz do entardecer no Luxembourg, da vista de Montmartre, dos passeios no Quartier Latin, de me sentar na Place des Vosges; e dos telhados e do rio, dos cafés e das praças, do ritmo próprio da cidade, que mistura, com requinte e sabedoria, arte e cultura, boémia e sossego, raffinement e charme. E da língua, essa a língua que é para mim a mais bonita do mundo, que não me canso de ouvir, que adoro falar.
Paris tem em si uma inexplicável aura de magia e de encanto, que faz dela um sítio verdadeiramente especial, que convida ao amor, ao bem-estar e ao sonho. Por agora, é tempo de voltar a perder-me nos seus braços. Tempo de felicidade...

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Eu é mais bolos!...




Durante não sei quantos dias, querendo ou não, vamos ter de aguentar uma overdose futebolística. E não são só os jogos, na televisão ou em écran gigante, um pouco por todo o lado. São os intermináveis comentários que antecedem e sucedem cada desafio, as tácticas e estratégias discutidas até à exaustão por verdadeiros "treinadores de sofá"; e ainda todas as notícias sobre as lesões, os treinos, o que comeram, vestiram, disseram, ou onde dormiram os jogadores; as bandeirinhas e os cachecóis; e um súbito furor patriótico, que inunda tudo. Um cansaço!...
Tudo isto me passa ao lado, tanto quanto é possível, no meio desta espécie de terramoto, que parece querer fazer esquecer que há vida para além do futebol.
Hoje, por exemplo, neste que é dia de Lisboa, nasceu em 1888, por uma feliz coincidência, um dos seus poetas maiores.  E isso também vale a pena ser lembrado...
Aqui fica:
Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
                        (Fernando Pessoa)