
Entre muitas outras coisas que correm menos bem nas nossas escolas, há duas tremendas obsessões. As "grelhas" (de que já, de certo modo, falei
aqui); e também as reuniões.
Reúne-se muito nas escolas. Demais. Reúne-se por tudo e por nada. Mais por nada do que por tudo. E perde-se um tempo infinito a "discutir" pormenores insignificantes, deixando de lado o essencial. É assim quase sempre e por todo o lado.
Não é que eu defenda a ideia do "cada um por si", mas não tenho dúvida que com apenas um terço das reuniões que se fazem actualmente, as escolas não funcionariam pior. Nem o ensino teria menos "qualidade". Quem, como eu, conhece pelo lado de dentro e de fora como as coisas funcionam, sabe que a generalidade das reuniões são ineficazes e improdutivas, que servem quase só para perder tempo e energias, que algumas se fazem apenas para cumprir calendário, ou são meramente informativas e se resolveriam com uma simples comunicação escrita. Há as que facilmente se estendem por três ou quatro horas - o que me parece muito para lá do aceitável - e cujo resultado prático é coisa nenhuma.
Ser professor, já se sabe, não é nada fácil. E ainda assim, mesmo sabendo como eu sei hoje melhor que nunca, porque é com essa realidade que lido todos os dias, que trabalhar numa escola é cada vez mais uma profissão de risco, também tenho a certeza que muito do cansaço e da burocracia de que os professores hoje tanto se queixam são eles próprios que a inventam, complicando o que é simples, ignorando que o trabalho de ensinar e aprender se desenvolve maioritariamente na sala de aula e que é preciso tempo e disponibilidade mental para o preparar com rigor e cuidado, preocupando-se em ensinar o que não interessa - "orações subordinadas substantivas", por exemplo, - focados no imediatismo de "preparar para o exame" (que parece ser o seu objectivo máximo), em vez de levantar a cabeça e olhar para longe e pensar que importa acima de tudo fazer os alunos ler, escrever e pensar; e ver o mundo com outros olhos. Esquecendo que se um aluno estiver preparado para a vida enfrenta qualquer exame e o inverso não é tão verdadeiro, esquecendo-se de ser felizes, afogados em papéis, em grelhas mais ou menos complicadas que eles criam, e em relatórios que ninguém lê; calando-se quando devem falar, encolhendo os ombros a quase tudo, sem se questionarem, sem serem capazes de dizer não.
Não tem por isso razão
Maria Filomena Mónica, que escreveu um livro baseado nos diários de não sei quantas professoras e mais umas alunas e uma encarregada de educação. Não pretende ser um estudo científico. Nem poderia. Não li o livro e, portanto, não quero alongar-me sobre ele. Mas vi um dia a autora a falar na televisão dizendo coisas do género: que hoje os professores não têm tempo para nada porque depois das aulas têm que ir para casa responder a inquéritos e preencher relatórios que o Ministério da Educação manda. Mudei de canal. Não sei quem lhe terá dito isto, mas não corresponde de modo algum à verdade. E é sempre mais fácil deitar culpas para quem está acima, seja o Ministério, ou o Governo, ou o que for.
Têm razão de queixa os professores, naturalmente, que são com frequência e de forma injusta pouco reconhecidos, desconsiderados, maltratados, mal pagos. Mas também são muitas vezes vítimas da sua passiva mediocridade, da sua impreparação e falta de cultura. Há excelentes professores, é claro, que fazem um trabalho notável em péssimas condições. Mas não serão, infelizmente, a maioria.
Sei do que falo porque, nesta profissão a que pertenço, há coisas de que me orgulho e muitas outras que quase me fazem corar de vergonha. Será igual em todas, decerto, mas falo só do que conheço.
Enfim, razoabilidade e bom senso é o que é preciso. E, se houvesse ao menos isso, já seria bom...