quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ventos de mudança



De forma lenta mas inequívoca, o Outono vai-se fazendo anunciar. E é na luz, nas cores e nos cheiros do amanhecer que isso se nota melhor, como o que nasce e cresce em vagaroso silêncio num canto mais ou menos secreto do coração, e às vezes é tanto que explode em festa e  em vontades, e outras não é coisa nenhuma, senão a alegria serena e a paz quieta dos dias a passar.
 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Como na vida...


Mesmo dois anos e quatro meses depois, há ainda uma grande parte deste mundo virtual que me é desconhecido. Mas, no fundo, não me importo...
É relativamente reduzido o leque de blogs que me interessam e que eu leio com atenção e constância. Tal como na vida, a minha intuição, tantas vezes certeira, não é infalível. Já me enganei, pela positiva e pela negativa, que isto, apesar de ser verdade que de certo modo nos revelamos sempre mais ou menos no que escrevemos, também como me disseram há dias "quem lê palavras não vê corações".
 Encontrei de tudo um pouco: os egos demasiado inchados, os pseudo-intelectuais e os escritores frustrados, o mau feitio, o insulto e a falta de educação, os obsessivos e as mentes verdadeiramente perturbadas, os dissimulados e os que se escudam no "anonimato" para dizer o que pensam, o que é para mim incompreensível.
Mas depois há também o lado bom: há os amigos que fiz e as pessoas encantadoras que pude conhecer, afinidades e afectos que se instalam e se fortalecem, e tudo o que nos encoraja e conforta, com a natural subjectividade que têm sempre estas coisas.
Hoje, percebo que tudo isto é afinal bem mais complexo do que me parecia ao início. Mas para mim continua a valer a pena. Estou como sou, não quero nem preciso de provar nada a ninguém. E, apesar de tudo, encontro por aqui, até em opiniões que não partilho, pensamentos, sentimentos, humor e gostos que me fazem rir, enternecer-me, emocionar-me, ou reflectir; muita coisa que não sabia ou em que nunca tinha pensado, pelo menos daquele modo; e novas formas de comunicar e até, de certo maneira, de viver melhor.
Há os blogs por onde passo todos os dias, onde me demoro e para onde vou "descansar" com o mesmo à-vontade com que estou no sofá lá de casa ou a uma mesa entre amigos, porque é onde me sinto bem; há aqueles que apenas "espreito" de vez em quando, que por uma razão qualquer não me prendem nem tocam tanto, e onde só vou quando tenho mais tempo e vontade. Há os que não conheço porque ainda não cheguei lá; e uma infinidade de outros que não me importam. É que, mesmo sendo assumidamente curiosa, ignoro o que não me interessa.
Esta é uma paixão recente, repentina e assolapada, que não sei quanto vai durar. Mas, enquanto durar, faço como de costume: guardo as coisas boas e deito fora o resto.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Um filmezinho simpático



Há alguns actores, acho eu, que fazem qualquer filme valer a pena. Como Helen Mirren, por exemplo. Saber que ela constava do elenco deste The Hundred-Foot Journey ("A Viagem dos Cem Passos", em português) foi, por isso, motivo suficiente para querer ver o filme.
Realizado pelo sueco Lasse Hallstrom - o mesmo de Chocolate - tem também a gastronomia como leitmotiv para uma história banal, de final cor-de-rosa e carregada de lugares-comuns, onde não faltam as diferenças culturais, e passa-se, de igual modo, no ambiente de uma pequena aldeia em França, pois claro, país conhecido pelo requinte gastronómico e as tendências xenófobas mais ou menos acentuadas da sua população. Tudo muito previsível, num registo entre o drama e a comédia romântica...
E, no entanto, mesmo não sendo um grande filme, é um filmezinho leve e despretensioso, que se vê muito bem, que nos faz passar duas horas agradáveis e sair bem-dispostos. Tem o apelo sensorial, nas cores fortes e na evocação dos cheiros, sabores e segredos da cozinha indiana, que lentamente se funde com o raffinement e a elegância francesas; e tem, naturalmente, aquela fantástica Helen Mirren, que enche o écran, majestosa na sua intolerante, inflexível e quase austera Madame Mallory que, ainda que aos poucos se vá tornando mais complacente e mesmo terna, não deixa de evocar o papel que fez em The Queen, de Stephen Frears, e que lhe valeu o Óscar da Melhor Actriz em 2007.

sábado, 16 de agosto de 2014

Contagem decrescente

 
Todos os anos era igual. O meio de Agosto, mais que qualquer outro mês do ano, marcava uma viragem. A partir dali  o Verão começava a despedir-se lento, espreguiçando-se ainda vagarosamente em dias de sol e noites de aragem branda, a cidade voltava a encher-se aos poucos e, de forma subtil, os dias iam também ficando mais curtos. Aqui e ali apareciam sinais de  mudança e recomeço, às vezes demasiado visíveis, outras difusos e longínquos.
Desta vez era o mesmo e, no entanto, era diferente. Vivia entre o sobressalto e a calma, entre a mansidão de quem sabe o que quer e consegue antever o que espera, ansiando novidade, desafio, projectos novos, e a inquietação da incerteza, a nostalgia de um tempo que não volta, e milhentas perguntas que lhe passavam pelo espírito e para as quais não tinha resposta nenhuma.
Mas quando se sentava  calada a olhar a claridade do rio e sentia na cara e no  cabelo a brisa da tarde, ou quando pousava os pés na areia húmida da praia e o corpo estremecia com o contacto da água fria, quando deixava os olhos perder-se naquela imensidão quieta ou no ir e vir das ondas de espuma, que a seduziam e atemorizavam de igual modo,  então o coração sossegava; e entregava-se ao devaneio: deixava que o pensamento fosse só fantasia, tomado pelos mais secretos desejos, que lhe pareciam muito perto de ser realidade, embalados assim, pelo vento e o mar.
Era então que  acreditava realmente que seria grande e bom o caminho  novo que estava quase a começar e  até, quem sabe, melhor ainda que tantas insensatas quimeras com que se punha a sonhar no calor das noites de Verão.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Tudo só sentimento


Hoje, não quero saber. Não me venham falar do Tribunal Constitucional ou do Novo Banco, nem de sustentabilidade ou crescimento, nem de nada do que é banal e costumado. Porque hoje eu sou toda pele, emoção e sentimentos; e quero ficar assim quieta, silenciosa, ensimesmada, que "um dia não são dias"...



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Ela sim, uma diva...



Uma vez mais, é de Pedro Correia o melhor texto que li hoje sobre Lauren Bacall. Está no "Delito de Opinião", mas eu transcrevo-o aqui, inteirinho, porque acho que vale realmente a pena lê-lo.
E numa altura em que há por aí tanta pseudodiva, dando-se ares disto e daquilo sem ter de quê, aí está a prova mais que evidente de que não é "diva" quem quer, mas só o é quem pode. Sem precisar de mais nada...

Bacall 'in excelsis'
por Pedro Correia,

Tinha um jeito único de olhar. Que lhe vinha de uma timidez profunda: poucos suspeitavam dela, chegando a confundi-la com sobranceria ou arrogância.
Baixava a cabeça e mirava-nos daquela forma, com os olhos em ângulo ascendente. E foi assim fotografada uma e outra vez, milhares de vezes, pelas câmaras que procuravam a sua prodigiosa fotogenia.

Era um olhar inconfundível: não houve outro como este no cinema.

Lauren Bacall era a última de uma estirpe rara. Vinha de um tempo em que a fama estava longe da banalização hoje tão corrente e transportava ecos dessa época tão distinta da nossa, em que havia um toque de mistério e majestade associado a quem imperava no mundo do espectáculo.
Era uma deusa do celulóide, como Ava Gardner, Rita Hemingway, Gene Tierney, Grace Kelly, Elizabeth Taylor e a eterna Marilyn Monroe. Cada vez que iluminava um pedaço de celulóide produzia em nós, mortais espectadores de osso e carne, o efeito de uma aparição.
Certas pessoas são assim: impõem-se pela sua presença. O cinema, quando não receia ombrear com qualquer outra forma de expressão artística, potencia e amplifica esta aura. Com a vantagem acrescida de ser um repositório excepcional de momentos inapagáveis.
Por este motivo teremos sempre Lauren Bacall entre nós. Atirando a Humphrey Bogart -- paixão na tela e na vida -- uma das mais fantásticas deixas de que há memória na Sétima Arte. Foi em To Have and Have Not -- o primeiro filme dela, o primeiro filme deles, rodado em 1944. Chamava-se Slim nessa fita, nome adequado para designar a figura esbelta que nunca deixou de ter.
Slim olhava Bogart, que ali se chamava Steve, daquele jeito único. Confessou muitos anos depois, num livro de memórias, que estava aterrorizada no momento em que rodaram a cena, filmada por Howard Hawks com base num roteiro de William Faulkner inspirado numa novela de Ernest Hemingway.
Tinha apenas 19 anos e mal ocultava o pânico de estar num plateau cinematográfico, rodeada de celebridades. O que contribuiu para lhe baixar o tom de voz, já grave por natureza. E acentuar a intensidade daquela mirada tão singular e tão expressiva.
Ao vê-la, ninguém a suporia sequer nervosa. Isto ajuda a perceber o fascínio da arte de representar, ao alcance apenas de alguns eleitos.

«Sabes assobiar, não sabes, Steve? Basta juntar os lábios... e soprar», disse-lhe Slim/Bacall.
Steve/Bogart ficou preso para sempre àquela voz, àquele olhar só gélido na aparência.
Juntaram os lábios, os corpos, as almas e viveram felizes como nos filmes. Até a morte dele os ter separado.
Hoje bem cedo, tantos anos depois, alguns cinéfilos escutaram um assobio vindo de muito longe.
Sinal inequívoco: eles voltaram a encontrar-se.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

História(s) de amor



Contrariamente à maior parte das pessoas, não tenho de todo o "apelo de África". E, no entanto, este é sem dúvida um dos filmes da minha vida. Talvez porque não resisto a uma bela história de amor...
Talvez porque, além da história, há a música e as imagens, e  Meryl Streep com Robert Redford, e tudo parece conjugar-se na perfeição para nos fazer acreditar e sonhar.
Ou apenas porque o amor é um pouco de tudo isto: fortaleza e fragilidade, novidade, confiança e entrega.
Não sei por que razão fui lembrá-lo agora. Será porque, segundo dizem, - embora eu acredite pouco nestas coisas -, as mulheres de "Peixes" são umas incorrigíveis românticas; ou simplesmente porque, hoje, também eu me deixaria levar assim, pelo céu ou pela terra fora, ao sabor do vento e da vontade.