sábado, 23 de agosto de 2014

Lembrar, esquecer

 
O coração guarda o que se nos escapa das mãos.
 
                                                                                      (Miguel Esteves Cardoso)
 
E também havia os dias em que tudo era só ausência e desejo, e em que a saudade era pior que uma dor; era uma vagarosa e incómoda moinha, a consumir o coração e a perturbar a habitual tranquilidade, que ia minando tudo, porque não havia distracção, nem alegria, que conseguisse apagar ou fazer esquecer a urgência do abraço apertado, do calor das mãos grandes, do colo bom, que lhe aquecia a alma, lhe acalmava o corpo em sobressalto, e lhe enchia de sol a vida.
 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Tocante e comovedor



Cuerdas é a curta metragem de animação que ganhou um Goya em 2014. Inspirada na história verídica do filho do seu realizador, Pedro Solís, foi por casualidade que hoje a conheci.
Mas, no fundo, acho que nada é por acaso. E fiquei a pensar em como, por mais difícil que possa parecer-nos, a escola tem que ser, também, isto: uma janela rasgada sobre o mundo e a capacidade de olhar para longe, de acreditar, de ser mais feliz.

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Ventos de mudança



De forma lenta mas inequívoca, o Outono vai-se fazendo anunciar. E é na luz, nas cores e nos cheiros do amanhecer que isso se nota melhor, como o que nasce e cresce em vagaroso silêncio num canto mais ou menos secreto do coração, e às vezes é tanto que explode em festa e  em vontades, e outras não é coisa nenhuma, senão a alegria serena e a paz quieta dos dias a passar.
 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Como na vida...


Mesmo dois anos e quatro meses depois, há ainda uma grande parte deste mundo virtual que me é desconhecido. Mas, no fundo, não me importo...
É relativamente reduzido o leque de blogs que me interessam e que eu leio com atenção e constância. Tal como na vida, a minha intuição, tantas vezes certeira, não é infalível. Já me enganei, pela positiva e pela negativa, que isto, apesar de ser verdade que de certo modo nos revelamos sempre mais ou menos no que escrevemos, também como me disseram há dias "quem lê palavras não vê corações".
 Encontrei de tudo um pouco: os egos demasiado inchados, os pseudo-intelectuais e os escritores frustrados, o mau feitio, o insulto e a falta de educação, os obsessivos e as mentes verdadeiramente perturbadas, os dissimulados e os que se escudam no "anonimato" para dizer o que pensam, o que é para mim incompreensível.
Mas depois há também o lado bom: há os amigos que fiz e as pessoas encantadoras que pude conhecer, afinidades e afectos que se instalam e se fortalecem, e tudo o que nos encoraja e conforta, com a natural subjectividade que têm sempre estas coisas.
Hoje, percebo que tudo isto é afinal bem mais complexo do que me parecia ao início. Mas para mim continua a valer a pena. Estou como sou, não quero nem preciso de provar nada a ninguém. E, apesar de tudo, encontro por aqui, até em opiniões que não partilho, pensamentos, sentimentos, humor e gostos que me fazem rir, enternecer-me, emocionar-me, ou reflectir; muita coisa que não sabia ou em que nunca tinha pensado, pelo menos daquele modo; e novas formas de comunicar e até, de certo maneira, de viver melhor.
Há os blogs por onde passo todos os dias, onde me demoro e para onde vou "descansar" com o mesmo à-vontade com que estou no sofá lá de casa ou a uma mesa entre amigos, porque é onde me sinto bem; há aqueles que apenas "espreito" de vez em quando, que por uma razão qualquer não me prendem nem tocam tanto, e onde só vou quando tenho mais tempo e vontade. Há os que não conheço porque ainda não cheguei lá; e uma infinidade de outros que não me importam. É que, mesmo sendo assumidamente curiosa, ignoro o que não me interessa.
Esta é uma paixão recente, repentina e assolapada, que não sei quanto vai durar. Mas, enquanto durar, faço como de costume: guardo as coisas boas e deito fora o resto.

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Um filmezinho simpático



Há alguns actores, acho eu, que fazem qualquer filme valer a pena. Como Helen Mirren, por exemplo. Saber que ela constava do elenco deste The Hundred-Foot Journey ("A Viagem dos Cem Passos", em português) foi, por isso, motivo suficiente para querer ver o filme.
Realizado pelo sueco Lasse Hallstrom - o mesmo de Chocolate - tem também a gastronomia como leitmotiv para uma história banal, de final cor-de-rosa e carregada de lugares-comuns, onde não faltam as diferenças culturais, e passa-se, de igual modo, no ambiente de uma pequena aldeia em França, pois claro, país conhecido pelo requinte gastronómico e as tendências xenófobas mais ou menos acentuadas da sua população. Tudo muito previsível, num registo entre o drama e a comédia romântica...
E, no entanto, mesmo não sendo um grande filme, é um filmezinho leve e despretensioso, que se vê muito bem, que nos faz passar duas horas agradáveis e sair bem-dispostos. Tem o apelo sensorial, nas cores fortes e na evocação dos cheiros, sabores e segredos da cozinha indiana, que lentamente se funde com o raffinement e a elegância francesas; e tem, naturalmente, aquela fantástica Helen Mirren, que enche o écran, majestosa na sua intolerante, inflexível e quase austera Madame Mallory que, ainda que aos poucos se vá tornando mais complacente e mesmo terna, não deixa de evocar o papel que fez em The Queen, de Stephen Frears, e que lhe valeu o Óscar da Melhor Actriz em 2007.

sábado, 16 de agosto de 2014

Contagem decrescente

 
Todos os anos era igual. O meio de Agosto, mais que qualquer outro mês do ano, marcava uma viragem. A partir dali  o Verão começava a despedir-se lento, espreguiçando-se ainda vagarosamente em dias de sol e noites de aragem branda, a cidade voltava a encher-se aos poucos e, de forma subtil, os dias iam também ficando mais curtos. Aqui e ali apareciam sinais de  mudança e recomeço, às vezes demasiado visíveis, outras difusos e longínquos.
Desta vez era o mesmo e, no entanto, era diferente. Vivia entre o sobressalto e a calma, entre a mansidão de quem sabe o que quer e consegue antever o que espera, ansiando novidade, desafio, projectos novos, e a inquietação da incerteza, a nostalgia de um tempo que não volta, e milhentas perguntas que lhe passavam pelo espírito e para as quais não tinha resposta nenhuma.
Mas quando se sentava  calada a olhar a claridade do rio e sentia na cara e no  cabelo a brisa da tarde, ou quando pousava os pés na areia húmida da praia e o corpo estremecia com o contacto da água fria, quando deixava os olhos perder-se naquela imensidão quieta ou no ir e vir das ondas de espuma, que a seduziam e atemorizavam de igual modo,  então o coração sossegava; e entregava-se ao devaneio: deixava que o pensamento fosse só fantasia, tomado pelos mais secretos desejos, que lhe pareciam muito perto de ser realidade, embalados assim, pelo vento e o mar.
Era então que  acreditava realmente que seria grande e bom o caminho  novo que estava quase a começar e  até, quem sabe, melhor ainda que tantas insensatas quimeras com que se punha a sonhar no calor das noites de Verão.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Tudo só sentimento


Hoje, não quero saber. Não me venham falar do Tribunal Constitucional ou do Novo Banco, nem de sustentabilidade ou crescimento, nem de nada do que é banal e costumado. Porque hoje eu sou toda pele, emoção e sentimentos; e quero ficar assim quieta, silenciosa, ensimesmada, que "um dia não são dias"...