segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Memórias de outro tempo


Ainda antes de me perder de amores pelos olhos verdes do Jean-Loup, eu quis ser como a Pipi das Meias Altas, aquela miúda ruiva, sardenta, de tranças muito espetadas, que vivia sozinha com um cavalo e um macaco, que subia às árvores e fazia mil diabruras, numa irreverência que parecia não ter limites, permitindo-se quebrar todas as regras, e sair-se sempre bem.
Era uma personagem a meio caminho entre a realidade e a ficção, que alimentava o nosso imaginário infantil num tempo em que a televisão ainda era só a preto e branco. E lembro-me, vagamente, da desilusão que senti quando a actriz que fazia de Pipi na série passou por Lisboa e, vista assim, sem tranças e sem a habitual caracterização, me pareceu afinal uma rapariga como as outras.
Depois, acompanhei com paixão os Pequenos Vagabundos, a série de culto que na época fazia suspirar todas as meninas acabadinhas de entrar na adolescência, sonhando amores felizes e pueris, misturados com mistério e aventura. E fui também à procura do Tesouro dos Templários e do Chateau sans nom; e quis  estar num campo de férias como o Camp Vert, ser eu a Marion e cantar emocionada o Chant des Adieux, com a mão do Jean-Loup a segurar a minha mão (embora algumas amigas minhas preferissem o Cow-Boy, que isto, graças a Deus, sempre houve gostos para tudo...)
Já passou muito tempo. E nem sei por que razão me  fui lembrar disto agora. Ou talvez saiba: por causa do entusiasmo com que hoje de manhã ouvia  uma menina de treze anos falar(me) do filme dos One Direction e de eu ter pensado, por momentos, que  ainda que os tempos sejam outros e muita coisa seja diferente, há determinadas vivências, típicas da adolescência, que não mudam nunca.

domingo, 21 de setembro de 2014

O fim dos cadeados


Finalmente a Mairie de Paris lá se decidiu a acabar com a moda dos cadeados, que surgiu em 2008 e  rapidamente se tornou uma praga. Pior que isso, estava a transformar uma da mais bonitas e emblemáticas pontes desta cidade,  (Pont des Arts) num lugar perigoso.
Só para se ter uma ideia, em apenas alguns meses foram colocados setecentos mil cadeados em pontes. Nestas, principalmente: des Arts, de l'Archevêché, de Solférino e na Passerelle Simone de Beauvoir.
Quando em Junho estive em Paris pela última vez, uma parte do gradeamento da ponte des Arts havia cedido cerca de duas semanas antes com o peso dos cadeados. Mas, para meu grande espanto,  verifiquei que em vez de retirarem os cadeados em excesso, tinham optado por reforçar as grades, onde já se acumulavam tantos cadeados que não havia um único espacinho livre para colocar mais.
Porém, recentemente, quinze painéis de grades tiveram que ser removidos, porque estava em risco a própria estrutura da ponte. Em cada um de destes painéis havia cerca de 500 kg de cadeados, o que representa mais ou menos quatro vezes mais que o peso limite admitido.
Nessa altura, a Câmara de Paris parece ter por fim entendido a real dimensão do problema, tendo substituído as grades em falta por painéis de madeira, provisórios, ao mesmo tempo que lançava uma campanha apelando a que os cadeados fossem trocados por selfies,  - uma moda mais actual - e partilhadas no site www.lovewithoutlocks.paris.fr.
Por estes dias a Mairie está a experimentar a colocação de painéis em vidro na ponte des Arts, em vez das antigas grades, permitindo resolver a questão da degradação do património e do risco para a segurança dos passantes, mantendo a possibilidade de se poder desfrutar da magnífica paisagem. Se resultar, estender-se-á depois aos outros locais com cadeados.
Oxalá resulte! Na verdade, eu que até me considero uma romântica não tenho grande paciência para estas manifestações de amor estereotipadas e, quanto aos cadeados, vem-me à ideia aquele dito popular que diz que "tudo o que é demais, cheira mal."

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Amor incondicional



(...)
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.

                                                                                  
                                                                                    (José Carlos Ary dos Santos)

quinta-feira, 18 de setembro de 2014

Mãos


Uma grande parte do amor  é pele, toque, sensualidade pura.
Há muitas mãos nas nossas vidas, algumas verdadeiramente marcantes e inesquecíveis: há as que nos arrepiam e fazem estremecer de prazer, as que conhecem de cor cada recanto do nosso corpo, as que nos exaltam e aceleram o coração; há as que nos amparam e confortam em momentos de tristeza, e tantas, tantas outras.
Mas, antes e depois de todas elas, capazes de dizer mais que todas, mesmo no maior silêncio, estão as que primeiro pegaram em mim, me ensinaram o mundo e, ainda hoje, quando me afagam a cabeça ou me acariciam, me enchem de uma doce tranquilidade; e me dão a certeza que os afectos são o maior e o melhor que eu tenho e o que, mais que qualquer outra coisa, dá sentido aos meus dias.
Por isso, tantas vezes, um abraço apertado ou uma mão que segura a minha mão já bastam para me fazer imensamente feliz.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

De volta ao palco


Campaínha, algazarra, risos e vozes misturadas, livros, cadernos e canetas voltam a fazer parte do meu quotidiano. E por mais agitado e difícil que seja, às vezes excessivamente cansativo, tenho que admitir que gosto disto.
Nem tudo é perfeito (nunca é), mas voltar é bom. Melhor ainda quando é assim, depois de uma pausa mais ou menos demorada e por vontade própria. É como começar outra vez, já não com a inocência e a ilusão dos vinte anos, mas com a experiência do que ficou para trás e se foi construindo no tempo.
Vejo todos aqueles olhos na minha frente, expectantes e curiosos, a tentar perceber o que digo e entender, para lá das palavras, a pessoa que sou. Sinto-me observada até ao mais ínfimo detalhe, tal e qual como se estivesse no palco. Tudo importa e significa.
E sei que o que me espera é um desafio e uma responsabilidade sem tamanho e que muita coisa depende também de mim, num caminho que hoje começou e que temos que fazer juntos. Vamos a isso!

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Inquietude


 
Às vezes as palavras não chegam, outras vezes não são precisas. Ou as duas coisas...

domingo, 14 de setembro de 2014

Os nossos vizinhos

 
Completamente por acaso, descobri no ABC de hoje um interessante artigo de opinião sobre um assunto que me apaixona: as diferenças entre portugueses e espanhóis. Quem me conhece sabe como me identifico com a alma espanhola, na sua colorida exuberância e tremenda alegria de viver.
E, tal como a autora do texto, a correspondente do jornal em Lisboa, também eu acho que, apesar das nossas diferenças, há afinal imensa coisa que nos une e que, acima de tudo, temos muito a aprender uns com os outros.
Aqui fica um excerto. Para ler tudo, é aqui.

Hermanos, primos, amigos, vecinos, compañeros, socios, cómplices o aliados. Son muchas las formas de relacionar a españoles y portugueses, dos pueblos ibéricos que comparten un territorio y muchos años de historia. Evidentemente hay similitudes entre ambos, por tratarse de dos países fronterizos dentro de Europa, pero a veces se comete el error de pensar que somos en todo iguales o muy parecidos, porque tenemos nuestras diferencias. Existe siempre el riesgo de generalizar demasiado y no se debe olvidar que no hay ni dos españoles ni dos portugueses iguales, por lo que no se puede hacer de una generalidad una regla. Y al hablar de estos temas nos basamos también en nuestras propias vivencias y experiencias por lo que cada uno puede tener una visión distinta. Además de ser diferentes, unos y otros nos enfrentamos a mitos y estereotipos que se han ido creando a nuestro alrededor. Y no siempre es fácil acabar con esas ideas que pueden perjudicar nuestras relaciones.
Empezando por la forma de ser de cada uno, se tiende a definir al español como una persona alegre y al portugués como una persona triste. Pero ni todo es fiesta en España ni todo es fado en Portugal. Sin embargo, sí que hay rasgos muy diferentes al definirnos. Los españoles somos más extrovertidos, charlatanes, gritones, expresivos, informales y besucones. Expresamos más abiertamente nuestros sentimientos. Los portugueses por su parte, son más reservados, hablan mucho menos y más bajito, muy educados y formales. En esto de las formalidades nos ganan, sigue siendo el país de doctores e ingenieros, donde el título tiene mucha importancia, demasiada. Los españoles prefieren el tuteo y hasta nos ofendemos si nos tratan de usted.
(...)
Como forma de resumen, se puede decir que los españoles confiamos mucho en nosotros mismos, nos consideramos en muchas cosas los mejores. Somos, en pocas palabras, muy echados para adelante. El portugués suele ver la botella medio vacía, se lamenta de sus problemas, es bastante envidioso y se fija demasiado en lo que hacen los otros sin darse cuenta de las muchas virtudes que tiene. Y juntos podemos vernos como una mezcla interesante porque lo que en uno exagera el otro se queda corto. Logramos un buen equilibrio aunque normalmente no nos damos cuenta. Tenemos mucho que dar y recibir y sobre todo que aprender de los que están tan cerca de nosotros.