quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Lisboa Menina e Moça


Goste-se ou não de Carlos do Carmo - e eu confesso que não é de todo um dos "meus" artistas - não pode ignorar-se a sua importância no fado, na música portuguesa e também na música do mundo, que lhe valeu a atribuição de um  grammy, facto em si mesmo assinalável e de certa forma motivo de orgulho, para o próprio, acima de tudo, mas também para todos nós, que acabamos por estar nele implicados.
"Lisboa Menina e Moça" é um dos mais lindos hinos alguma vez escritos sobre esta cidade única e belíssima, que Carlos do Carmo imortalizou com a sua voz, mas que tem o toque especial que só um poeta tão extraordinário como Ary dos Santos lhe poderia ter dado.
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos vêem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida
 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Um blogue "de sucesso"

Escrever, já se sabe, é uma aprendizagem. Mas anterior a ela há também uma boa dose de aptidão, que faz com que algumas pessoas possam fazê-lo muito bem e outras nem tanto. Há algumas técnicas, claro, há melhoramentos que se conseguem pela prática, mas da mesma maneira que todos podemos aprender a dançar, a cantar, ou a pintar, sem que apenas  por isso o façamos com perfeição e mestria, porque faltará sempre qualquer coisa, aquele suplemento de alma que faz a diferença, também não é por aprender uma "receita", e por escrever muito, que todos somos de repente Proust ou Tolstoi, por exemplo.
Hoje toda a gente acha que escreve. Nada contra. Mas esse simples facto em si mesmo não significa que quem o faz seja um grande escritor.
Vem tudo isto a propósito de uma descoberta que fiz recentemente: num tempo cada vez marcado pelos "vendedores de banha da cobra", em que proliferam cursos de tudo e mais alguma coisa, que vão da "escrita criativa" a "como ser famoso", mais ou menos isto, descobri não sem espanto que agora há também cursos que ensinam como construir "um blogue de sucesso".
Não sei exactamente o que quererá isto dizer. O que é na verdade um "blogue de sucesso"? Como se define? Pelo número de "visitas"?
Enfim, não conheço muito do meio, mas do que conheço há os que considero muito interessantes e onde vou todos os dias, às vezes mais que uma vez, e até só para "descansar"; há outros verdadeiramente abomináveis, irritantes ou de mau gosto, por onde já passei mas não voltei. Depois, há também os que não me interessam, simplesmente, que me são indiferentes, com toda a carga de subjectividade que têm estas coisas e que correspondem, para mim, muito mais a afinidades e gosto pessoal do que outra coisa qualquer.
O que sei é que não queria nada ter "um blogue de sucesso". Gosto do meu assim como ele é, hoje já muito colado à minha pele e inteiramente "caseirinho", onde todos são bem-vindos, mas que não me faz querer nada mais que o prazer que isto me dá.

domingo, 16 de novembro de 2014

Em parte incerta


Para mim, um fim de semana típico da época Outono-Inverno inclui uma ida ao cinema. Por motivos vários, há já algum tempo que isso não acontecia, o que explica talvez que estando este filme em cartaz desde o início de Outubro só agora tenha dado por ele. E ainda bem, porque foi, de facto, uma escolha que valeu a pena.
Realizado por David Fincher, o mesmo realizador de Seven e de Benjamim Button, para mencionar apenas dois dos que eu vi em distintas épocas, "Em parte incerta" (Gone Girl, no original) é um fantástico thriller baseado num bestseller de Gillian Flynn, que é também a autora do argumento; mas é muito mais que isso: é um filme sobre a complexidade humana, sobre o mistério do outro, sobre a verdade e a mentira, as ilusões e as aparências, sobre o poder dos media e o seu lado mais ridículo, e mais perverso, também.
O filme dura cerca de duas horas e meia, mas nem se dá pelo tempo a passar, porque nos prende do início ao fim, nos empolga, nos perturba, nos assusta  e nos envolve, no modo como está construído e nos vai surpreendendo a cada momento, no que há de mais obscuro nas personagens, na empatia que nos faz aproximar-nos delas e logo afastar-nos na volta seguinte.
Mesmo não sendo grande fã de Ben Affleck é suficientemente credível  o seu Nick Dunne. Mas o papel de destaque é claramente para Rosemund Pike, sempre brilhante na interpretação da multifacetada Amy, que fará dela com toda a probabilidade uma séria candidata aos Óscares, o que é, aliás, muitíssimo merecido.
Para quem ainda não viu, recomenda-se, claro está!...


sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Praga(s) moderna(s)


Por mera casualidade, encontrei ontem este texto, que me pareceu no mínimo curioso. Diz isto:

Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?
TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.
Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre - que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.
 
O artigo, que parece que já tem dois anos, foi originalmente publicado por Marilyn Wedge na revista "Psychology Today", e esta é, como se pode perceber, uma tradução brasileira.
Ora, não sendo especialista da área, não estou em condições de avaliar a veracidade e o rigor científico do que aqui se diz.
Parece-me, no entanto, pelo que vou observando, que há um número anormalmente crescente e  quase excessivo de crianças e adolescentes diagnosticados com "Défice de Atenção e Hiperactividade" que, por isso, são todos medicados com Ritalina. E então é vê-los nas salas de aula, aos "ritalínicos", quais zombies, num estado de apatia e aparvalhamento quase completos, que chega a ser confrangedor em alguns casos.
Quando os vejo assim, claramente afectados pela medicação, pergunto-me muitas vezes se não terá havido precipitação ou subjectividade na avaliação, e se não haverá outro caminho. Porque a Ritalina, mesmo para mim, que não percebo nada do assunto, não me parece ser de todo a solução.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Ainda as "taxinhas" do Costa


Não queria mencionar o assunto, juro, mas encontrei isto e não pude resistir.
(Indecentemente "roubado" daqui.)

A antecipação do prazer

 
Grande parte de que há de mais excitante no prazer é também o que o antecede e se vive por antecipação, na cabeça, no coração ou no corpo todo, antes mesmo de ele se tornar plenitude absoluta.
E isto vale para todos os prazeres imagináveis - do mais grandioso e avassalador ao mais insignificante -, porque todos são afinal fonte satisfação e de bem-estar.
Lembro-me de coisas muito simples: do prazer de chegar a casa, largar os saltos altos e trocar de roupa; do primeiro contacto com  a água no banho matinal; de estender-se no sofá para entregar-se à preguiça. E de outras, também: de um toque que provoca um arrepio; do afago de uma mão a despertar vontades; de uma meiguice sussurrada ao ouvido; de um beijo que se pressente tanto quanto se deseja.
Há uma singularidade muito própria nos instantes que antecedem estes momentos, quando já se sabe que o que se espera está mesmo a chegar e se começa a supor o gozo do que vem depois, numa antevisão que é já o princípio do prazer. 
E por isso não é raro querer também prolongar esse tempo prévio, anterior ao acontecer, e retardá-lo até um pouco, para ampliar o deleite. 

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Nostalgia



(...) é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar.  
 
(Miguel Esteves Cardoso)