Contrariamente à maior parte das pessoas, não sou uma entusiasta das paisagens de neve. É bonito o cenário todo branco, sem dúvida, mas vejo nele também qualquer coisa de profundamente triste, que de certo modo me inquieta. E que associo a solidão.
Talvez por isso nunca tive vontade de fazer "férias na neve", o que nos últimos anos se tornou uma moda e até, mais que isso, um sinal de "status". Não faltaram as oportunidades, nem os convites, mas na verdade nunca me atraiu andar durante horas montanha acima, montanha abaixo, nem entendo bem o prazer ou a piada que isso possa ter, ainda que todas as pessoas que já foram sejam verdadeiras fãs e não se cansem de falar nessa maravilha do contacto com a natureza, ou das suas proezas no ski.
Muitas delas não saem do sofá o resto do ano, nunca andam a pé, sequer, e só lhes dá a fúria do exercício físico quando se trata de ir para a neve. Porque, convenhamos, ir para a neve "é bem".
Nada contra, mas a mim não me apetece, obrigada. Como não me apetece fazer surf, nem atirar-me de pára-quedas, por exemplo. Prefiro outras coisas.
Ainda assim, por causa disto, pus-me a pensar nas minhas memórias mais antigas de neve. E estranhamente, - eu que até tenho uma excelente memória - não me lembro do meu primeiro contacto com a neve, nem da primeira vez que vi nevar. Quando procuro bem no fundo da memória, encontro na mais longínqua infância uma canção de Adamo e um poema de Augusto Gil, conhecidíssimo, que aprendi de cor no tempo da primária e ainda hoje sou capaz de repetir de uma ponta à outra sem hesitar. Sendo muito diferentes, naturalmente, há em ambos um tom de melancolia e de desconsolo, que é quase sofrimento.
E fico a pensar se isso explica alguma coisa...
Batem leve, levemente
Como quem chama por mim,
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
E a chuva não bate assim
(...)
E uma infinita tristeza
Uma funda turbação
Entra em mim, fica em mim presa
Cai neve na natureza
E cai no meu coração
(Augusto Gil)






