Depois de muitos anos de ginástica rítmica e outros tipos de exercício que eram quase mais dever do que prazer eu, que nunca fora grande amante de discotecas, descobri os encantos da dança.
Experimentei várias: das latinas às orientais, da salsa ao sapateado; até me apaixonar pelo flamenco. Não sei explicar. Há naquele som ritmado de pés a bater no chão, no voltear das saias e na garra dos movimentos um singular arrebatamento que me comove e arrepia, e se me entranha no corpo e na alma.
As sevilhanas, primeiro, e o flamenco, depois, foram como uma revelação cuja descoberta me modificou e modificou a minha vida, também. Porque conheci um lado de mim que não me fora até então revelado, porque encontrei um equilíbrio e uma serenidade que deram um vigor novo aos meus dias, que trouxe à flor da pele o meu lado mais emocional, que me permitiu conhecer-me melhor e assumir-me como sou, sem vergonha de nada, aprendendo devagar a soltar-me e a ser mais "eu".
Mas foi ainda mais que isso: por causa do flamenco descobri uma cultura, um país e um povo com o qual me identifico na sua contagiante alegria de viver, fiz muitos amigos novos e conheci pessoas extraordinárias, umas portuguesas, outras espanholas.
Não interessa que tenha começado tarde, pois nunca tive nenhum tipo de preocupação ou pretensão artística. Por isso pouco me importa se não tenho a postura mais adequada, a técnica perfeita, ou um desempenho brilhante.
O que sei é que o flamenco mudou a minha vida; e hoje, mesmo sem ter aulas, faz ainda parte dela; e continuo a emocionar-me todas as vezes que vejo ou ouço a guitarra, as palmas e os pés a compasso, e a voz e o corpo a explodir repentina, torrencial e incontidamente, em desmedida entrega.
(Esta canção e todas as de Rafael del Estad trazem-me boas memórias das primeiras aulas de sevilhanas, quando achava que nunca na vida haveria de ser capaz de as aprender, mas ainda assim me divertia loucamente).
Leitora diária do DN e amante de cinema, sigo com curiosidade e interesse a(s) crítica(s) de João Lopes, embora possa ou não concordar com ela(s). Merece(m)-me, no entanto, a consideração que sempre costumo ter por quem acho que sabe do que fala.
Hoje, o texto era sobre a estreia mais noticiada dos últimos tempos. E dizia isto, que gostei de ler:
Na próxima semana vai estrear um filme admirável de Paul Thomas Anderson, Vício Intrínseco, que numa cena de cinco austeros minutos consegue retratar um acto sexual de perturbante e intensa crueza que as duas longas horas de As Cinquenta Sombras de Grey não sabem sequer imitar. Em todo o caso, na arena mediática não acontecerá nada que se possa parecer com a agitação pueril que agora atravessamos. Isto significa apenas que o marketing passou a normalizar os nossos espaços de discussão e pensamento. E não se trata de demonizar As Cinquenta Sombras de Grey; apenas de lembrar que, cinematograficamente, o sexo é uma velha desculpa para a falta de ideias. Não tenho qualquer intenção de ver este filme, da mesma maneira que não tive paciência nem vontade de ler o livro que lhe dá origem. Porque há muitíssimos outros com muito mais qualidade e, mesmo de entre esses, não consigo ver e/ou ler tantos como gostaria.
E não é apenas por "ser do contra", ou para não ir na onda algo voyeurista que me parece explicar os mais de sessenta mil bilhetes vendidos para um filme que se sabe à partida estar mais perto da mediocridade que de outra coisa qualquer.
Já quando foi a moda de Dan Brown também não li o Código Da Vinci, nem vi o filme.
É que tenho coisas mais interessantes para ver e fazer; e não gosto de perder tempo com "porcarias".
Se tivesse que escolher uma canção que me definisse, talvez fosse esta.
E, apesar da agitação que têm sido os últimos dias, encontrei hoje no blogue da Helena um texto que ma fez lembrar. Diz isto:
Quantas vezes não tenho assistido à tolerância com que se encaram as atitudes dos que são tomados por frágeis e à manifesta intolerância que é usada nos julgamentos daqueles que são considerados como sendo fortes? (...) Fui sempre considerada uma mulher forte, vá lá saber-se porquê. Calculo que o epíteto se terá ficado a dever à circunstância de eu não ser pessoa de grandes queixumes e de tentar, quase sempre, dar a volta ao que me corre menos bem.
(...) não terão também os fortes direito aos seus momentos de fraqueza e à benevolência que se tem para com os mais fracos?
No fundo, as pessoas consideradas fortes têm as mesmas fraquezas das outras e no canto mais secreto de si conhecem-nas com detalhe e com rigor. Mas tentam minimizá-las e sobrepor-lhes o que pode ser o lado melhor de todas as circunstâncias, adoptando a expressão "fazer das fraquezas força" como lema implícita ou explicitamente assumido. Mais ou menos isto, digo eu...
Homme libre, toujours tu chériras la mer ! La mer est ton miroir ; tu contemples ton âme Dans le déroulement infini de sa lame, Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer.
Tu te plais à plonger au sein de ton image ; Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur Se distrait quelquefois de sa propre rumeur Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage. (...)
(É uma das minhas maiores paixões, misto de atracção e voragem, tumulto e calma, caos e harmonia, e tudo o que só se consegue sentir, antes e depois das palavras, no silêncio reconfortante do olhar.)
Desconfio sempre um bocadinho dos filmes em cuja tradução do título se perde o essencial do que ele contém em si. É o caso de "O meu nome é Alice" para um original que se denomina Still Alice.
Mas em muitos outros aspectos ele fica aquém do que seria expectável.
É um filme duro, porque a sua temática acaba de alguma maneira por nos dizer respeito a todos. E por isso nos emocionamos ao vê-lo. Não é, no entanto, um grande filme. Falta-lhe ritmo e profundidade. Salva-o a interpretação de Julianne Moore, sempre fantástica, e aqui séria candidata ao Óscar para o qual está nomeada; salvam-no, em particular, algumas cenas como o discurso na Associação de Doentes de Alzheimer e todas aquelas em contracena com Kristen Stewart, que são talvez as mais credíveis.
Ao ver este filme não pude deixar de recordar outro, que vi há cerca de dois anos e que é, esse sim, um verdadeiro "murro no estômago". Ao contrário deste, é um grande filme; e por isso é inesquecível. Falo de Amour e das extraordinárias interpretações de Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, que nos mostram de uma maneira verosímil e perturbadora o lado mais desconcertante e desconfortável do que pode ser o fim da vida, quando se perde a autonomia e a dignidade. Por comparação, Alec Baldwin (sempre demasiado perto da mediocridade)na sua negação da realidade fica anos luz de Isabelle Huppert.
Ainda assim, eu diria que vale a pena ir ver a Alice. Julianne Moore merece isso...
Na minha vida, há muita música francesa. Quando "descobri" este disco de Ferrat com poemas de Aragon fiquei imediatamente rendida à voz, à beleza dos textos, e à fantástica junção das duas coisas.
Mesmo se, na altura, ainda nem sabia bem o que era o amor...
Mais tarde, este disco e esta canção, em particular, fizeram-se-me muito mais especiais. Quase como um hino.
Afinal, há sempre quem nos faça ver o mundo e até nós mesmos de uma outra maneira. Esses são os que nos tocam e, ainda que deixem de fazer parte da nossa vida, marcam-na para sempre.
E porque o texto é lindíssimo, ele aqui fica, também:
Que serais-je sans toi qui vins à ma rencontre Que serais-je sans toi qu'un coeur au bois dormant. Que cette heure arrêtée au cadran de la montre. Que serais-je sans toi que ce balbutiement.
J'ai tout appris de toi sur les choses humaines. Et j'ai vu désormais le monde à ta façon. J'ai tout appris de toi comme on boit aux fontaines Comme on lit dans le ciel les étoiles lointaines. Comme au passant qui chante, on reprend sa chanson. J'ai tout appris de toi jusqu'au sens du frisson.
J'ai tout appris de toi pour ce qui me concerne. Qu'il fait jour à midi, qu'un ciel peut être bleu Que le bonheur n'est pas un quinquet de taverne. Tu m'as pris par la main, dans cet enfer moderne Où l'homme ne sait plus ce que c'est qu'être deux. Tu m'as pris par la main comme un amant heureux.
Qui parle de bonheur a souvent les yeux tristes. N'est-ce pas un sanglot que la déconvenue Une corde brisée aux doigts du guitariste Et pourtant je vous dis que le bonheur existe. Ailleurs que dans le rêve, ailleurs que dans les nues. Terre, terre, voici ses rades inconnues.