quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sedução


Pour ce rien, cet impondérable
Qui fait qu'on croit à l'incroyable
Au premier regard échangé
Pour cet instant de trouble étrange
Où l'on entend rire les anges
Avant même de se toucher...

Quanto no amor e no afecto é destino ou mero acaso, que  força inexplicável, aliciante e incompreensível nos empolga e impele para certas pessoas que nos atraem e fascinam mais que outras?
Há um encanto especial no inesperado e incerto que chega à nossa vida sem se anunciar, como uma inevitabilidade que atrai e assusta com o que encerra em si de ímpeto, de expectativa e de vontade, que é pressa e é vagar, na volúpia de tudo ainda por acontecer, na emoção enternecida dos olhos presos noutros olhos em arrebatado langor, e a cabeça a mil à hora imaginando o que se quer fazer, as distâncias mais curtas na antevisão de uma intimidade há muito ansiada ou de súbito desejada,  pronta a desatar-se.
Não há quem não tenha, posso jurar, pelo menos um daqueles encontros que nunca chegaram a ser o que poderiam ter sido e nos fazem perguntar-nos, em certos dias, a certas horas, quando qualquer coisa no-lo relembra: e se os astros se tivessem alinhado todos e o universo se tivesse sintonizado com aquele nosso querer?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Birdman, um filme polémico

Começo pelo fim: eu gostei deste filme, intenso e controverso em simultâneo. Mas conheço quem não tenha gostado nada. E o facto de dividir opiniões de uma maneira tão antagónica também me parece que pode ser significativo.
Fui mais ou menos "em branco", isto é sem me informar grandemente sobre ele, o que é pouco comum acontecer-(me). Sabia apenas que estava nomeado para os Óscares e que tinha Michael Keaton no papel principal. 
E o que vi surpreendeu-me. Pode ser banal a questão do actor em busca de uma glória perdida, mas o que é nele mais interessante é a permanente interpenetração da ficção e da realidade, da personagem e do homem, do fingimento e da autenticidade, da representação e da vida. Depois, há qualquer coisa de  inquietante e de perturbador, até,  na complexidade das personagens, na sua violenta fragilidade, que pode às vezes ser cinismo e amargura, assombradas por um passado marcante, na dolorosa procura de si e da superação dos seus fantasmas, em busca de dignidade e de realização pessoal.
Pareceu-me um pouco excessivo o lado mais fantasioso e simbólico, e todavia há nessa inverosimilhança algo de peculiar, diferente, que remete para a carapaça de simulação em que se tornou cada vez mais o mundo actual; ainda assim, e mesmo sem ter visto (ainda) os restantes nomeados, não me chocaria nada que o galardão do melhor actor fosse para Michael Keaton,  de resto aqui muito bem acompanhado por outros bons desempenhos, com especial destaque para Emma Stone, absolutamente expressiva naqueles olhos enormes e eloquentes, que enchem o écran e dizem muito mais do que as palavras que possa proferir.
Enfim, se nunca nos conhecemos inteiramente, porque há sempre partes de nós que nos podem a todo o momento ser reveladas, se grande parte da nossa vida é o resultado das escolhas que fazemos e dos encontros que nos vão acontecendo (ou que fazemos acontecer...), também alguns filmes que vemos modificam a nossa maneira de ver o cinema e de gostar dele.
Este filme pode ser isto tudo, ou outra coisa completamente diferente. E é também essa ambiguidade que lhe dá valor.

domingo, 15 de fevereiro de 2015

A antecipação do prazer

 
 
Y yo sé
Que Sevilla tiene algo
Que será ese "no sé qué"
Que si de Sevilla salgo
Tan solo pienso en volver 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Canções da minha vida (IV)


Depois de muitos anos de ginástica rítmica e outros tipos de exercício que eram quase mais dever do que prazer eu, que nunca fora grande amante de discotecas, descobri os encantos da dança.
Experimentei várias: das latinas às orientais, da salsa ao sapateado; até me apaixonar pelo flamenco. Não sei explicar. Há naquele som ritmado de pés a bater no chão, no voltear das saias e na garra dos movimentos um singular arrebatamento que me comove e arrepia, e se me entranha no corpo e na alma.
As sevilhanas, primeiro, e o flamenco, depois, foram como uma revelação cuja descoberta me modificou e modificou a minha vida, também. Porque conheci um lado de mim que não me fora até então revelado, porque encontrei um equilíbrio e uma serenidade que deram um vigor novo aos meus dias, que trouxe à flor da pele o meu lado mais emocional, que me permitiu conhecer-me melhor e assumir-me como sou, sem vergonha de nada, aprendendo devagar a soltar-me e a ser mais "eu".
Mas foi ainda mais que isso: por causa do flamenco descobri  uma cultura, um país e um povo com o qual me identifico na sua contagiante alegria de viver, fiz muitos amigos novos e conheci pessoas extraordinárias, umas portuguesas, outras espanholas.
Não interessa que tenha começado tarde, pois nunca tive nenhum tipo de preocupação ou pretensão artística. Por isso pouco me importa se não tenho a postura mais adequada, a técnica perfeita, ou um desempenho brilhante.
O que sei é que o flamenco mudou a minha vida; e hoje, mesmo sem ter aulas, faz ainda parte dela; e continuo a emocionar-me todas as vezes que vejo ou ouço a guitarra, as palmas e os pés a compasso, e a voz e o corpo a explodir repentina, torrencial e incontidamente, em desmedida entrega.

(Esta canção e todas as de Rafael del Estad trazem-me boas memórias das primeiras aulas de sevilhanas, quando achava que nunca na vida haveria de ser capaz de as aprender, mas ainda assim me divertia loucamente).

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

O filme de que se fala

 
Leitora diária do DN e amante de cinema, sigo com curiosidade e interesse a(s) crítica(s) de João Lopes, embora possa ou não concordar com ela(s). Merece(m)-me, no entanto, a consideração que sempre costumo ter por quem acho que sabe do que fala.
Hoje, o texto era sobre a estreia mais noticiada dos últimos tempos. E dizia isto, que gostei de ler: 
 
Na próxima semana vai estrear um filme admirável de Paul Thomas Anderson, Vício Intrínseco, que numa cena de cinco austeros minutos consegue retratar um acto sexual de perturbante e intensa crueza que as duas longas horas de As Cinquenta Sombras de Grey não sabem sequer imitar. Em todo o caso, na arena mediática não acontecerá nada que se possa parecer com a agitação pueril que agora atravessamos. Isto significa apenas que o marketing passou a normalizar os nossos espaços de discussão e pensamento. E não se trata de demonizar As Cinquenta Sombras de Grey; apenas de lembrar que, cinematograficamente, o sexo é uma velha desculpa para a falta de ideias.

Não tenho qualquer intenção de ver este filme, da mesma maneira que não tive paciência nem vontade de ler o livro que lhe dá origem. Porque há muitíssimos outros com muito mais qualidade e, mesmo de entre esses, não consigo ver e/ou ler tantos como gostaria.
E não é apenas por "ser do contra", ou para não ir na onda algo voyeurista que me parece explicar os mais de sessenta mil bilhetes vendidos para um filme que se sabe à partida estar mais perto da mediocridade que de outra coisa qualquer.
Já quando foi a moda de Dan Brown também não li o Código Da Vinci, nem vi o filme.
É que tenho coisas mais interessantes para ver e fazer; e não gosto de perder tempo com "porcarias".

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Canções da minha vida (III)


Se tivesse que escolher uma canção que me definisse, talvez fosse esta.
E, apesar da agitação que têm sido os últimos dias, encontrei hoje no blogue da Helena um texto que ma fez lembrar. Diz isto:
 
Quantas vezes não tenho assistido à tolerância com que se encaram as atitudes dos que são tomados por frágeis e à manifesta intolerância que é usada nos julgamentos daqueles que são considerados como sendo fortes? (...)
Fui sempre considerada uma mulher forte, vá lá saber-se porquê. Calculo que o epíteto se terá ficado a dever à circunstância de eu não ser pessoa de grandes queixumes e de tentar, quase sempre, dar a volta ao que me corre menos bem.
(...) não terão também os fortes direito aos seus momentos de fraqueza e à benevolência que se tem para com os mais fracos?

No fundo, as pessoas consideradas fortes têm as mesmas fraquezas das outras e no canto mais secreto de si conhecem-nas com detalhe e com rigor. Mas tentam minimizá-las e sobrepor-lhes o que pode ser o lado melhor de todas as circunstâncias, adoptando a expressão "fazer das fraquezas força" como lema implícita ou explicitamente assumido. Mais ou menos isto, digo eu...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Amor do Mar

 
(Fotografia de Miguel Cordeiro de Sousa)

Homme libre, toujours tu chériras la mer !
La mer est ton miroir ; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image ;
Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.
(...)



(É uma das minhas maiores paixões, misto de atracção e voragem, tumulto e calma, caos e harmonia, e tudo o que só se consegue sentir, antes e depois das palavras, no silêncio reconfortante do olhar.)