terça-feira, 24 de março de 2015

Um questão de (mau) gosto

 

As marquises portuguesas - raras na Europa e bastante terceiro-mundistas - combinam a noção de fraqueza da lei e da sua regulamentação, a falta de sentido cívico e o egoísmo lusitano, a pouquíssima sensação de pertença a uma comunidade e, no final disto tudo, uma enorme estupidez. As varandas foram inventadas não só para tornar mais agradável a experiência de viver num apartamento, e torná-lo mais próximo de uma casa individual, mas também para afastar as humidades, moderar o calor e o frio. Ao fechá-la, o tuga está apenas a criar um microclima que lhe dá cabo do ambiente da casa. Para além, obviamente, de afastar a luz.
 
O texto de Catarina Carvalho que habitualmente abre  a Notícias Magazine ao Domingo, lembrou-me, esta semana, quanto podem ser detestáveis as marquises. Para além de profundamente inestéticas. Não me venham com o argumento ridículo da "necessidade de espaço". Quanto a mim não há nadinha que possa justificar tamanha aberração, a não ser uma gigantesca parolada.
O texto, de que transcrevo apenas um excerto, surge a propósito de uma campanha publicitária do Ikea, cujo slogan "mais varandas, menos marquises" chama a atenção para este "vício" tão português, e tão revelador do que há de pior no nosso (mau) gosto. 

segunda-feira, 23 de março de 2015

Cinema Israelita


Nunca tinha visto um filme israelita.  Realizador(es), actores e até a realidade sócio-cultural retratada eram-me por isso inteiramente desconhecidos. E, no entanto, este "Gett: o processo de Viviane Amsalem" foi uma agradável surpresa. É um filme austero, mas emocionante também. Faz parte, soube-o depois, de uma trilogia sobre o casamento, a separação e o divórcio, que é aqui o assunto central e é o que "gett" significa.
Desenrola-se num único lugar,  - a sala de audiência do tribunal - excessivamente sóbrio e despojado, como o resto, entre quatro paredes brancas, onde têm lugar todas as cenas do processo, que se arrasta ao longo de cinco anos, e contribuindo assim para tornar mais opressiva e asfixiante a condição da mulher a quem são negados os direitos de decidir sobre a sua vida e de vivê-la em total liberdade.
É notável a interpretação de Ronit Elkabetz, que além de protagonista é também a  realizadora, com o seu irmão. O que há nela de mais tocante é, para mim, a forma como o seu olhar e os seus silêncios assumem um papel preponderante, pleno de significado(s) e reveladores da inflexibilidade do marido, da sociedade retrógrada e conservadora, do poder absurdo da religião, e também da força e  fragilidade da personagem principal, condenada a um destino de que o final, algo inesperado, (ou talvez não), é apenas mais uma trágica ironia.
Com as devidas distâncias, não posso deixar de pensar em sentimentos exacerbados de posse que, mesmo numa sociedade livre e aberta como a nossa, se vão vendo um pouco por todo o lado e que, ainda que disfarçados de amor profundo e de ciúme, não têm razão, nem motivo, nem desculpa.
E recomendo o filme, claro está!...

domingo, 22 de março de 2015

O verdadeiro artista


Por ocasião do 61º aniversário de Herman José, que teve lugar na passada quinta-feira, o Observador publicou uma lista de expressões que a ele se devem, que rapidamente entraram na linguagem corrente, e que hoje todos utilizamos já quase sem lembrar como surgiram.
Do "Ó pra mim", a "não havia necessidade", de "a língua portuguesa é muito traiçoeira" a "eu é mais bolos", passando pelas "resmas de gajas" e o inesquecível "eu é que sou o Presidente da Junta", ali estão grande parte das expressões que Herman vulgarizou através das suas personagens e de que nós nos apropriámos depois.
Diga-se o que se disser, Herman revolucionou o humor em Portugal e é de certo modo genial, na  maneira diferente de fazer humor. Mesmo se depois se acomodou e vulgarizou um pouco. Mesmo se é indubitavelmente melhor humorista e entretainer que entrevistador ou cantor, por exemplo.
E, de resto, a prova da sua enorme grandeza e singularidade é o facto de não ter havido, pelo menos até agora, ninguém que estivesse sequer perto de o igualar. Não há no panorama do humor português nem Gatos Fedorentos e ainda menos Brunos Nogueiras, Niltons e outros que tais, que se lhe possam comparar.

sábado, 21 de março de 2015

Esta Lisboa que eu amo


Alguém diz com lentidão:
«Lisboa, sabes...»
Eu sei. É uma rapariga
descalça e leve, um vento súbito e claro
nos cabelos, algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta nos lábios e nos dedos,
descendo degraus e degraus
e degraus até ao rio.


                                              Eugénio de Andrade

(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

A mais recente descoberta


Foi, uma vez mais, através da minha querida Helena que lá cheguei. É o último blogue que descobri, e acho que vale a pena  conhecê-lo. Porque é esteticamente irrepreensível, o que constitui à partida um factor que me faz decidir ficar, ou apenas parar, sem vontade de me deter.
Tem um forte pendor filosófico, que também me agrada, e embora goste mais de uns e menos de outros, como sempre acontece, encontro nele textos muito bem escritos, daqueles que me deixam a pensar, ou me colocam questões que nunca vira assim.
Como isto, por exemplo:
Constata-se uma crescente dificuldade ao nível da atenção e concentração, uma incapacidade de atender ao que é social e culturalmente profundo, ficando-se pelo superficial e imediato. Dificuldades cada vez mais associadas a uma comunicação permanente, sempre on line, sem tempo de espera, sem silêncios, sempre com o som de uma sms, do messenger, onde quase se tweeta como se respira, onde há sempre uma televisão ou um computador ligado. Um estado mental onde só existe o presente como tempo absoluto. Um estado mental que não deixa ler mas apenas passar os olhos por cima. Um estado mental que não deixa pensar mas apenas passar a cabeça por fora.
Estes quatro quadros de Vermeer têm um objecto em comum: uma carta. Cartas onde, ao contrário do estado mental atrás descrito, há um silêncio. Um tempo de espera. De suspensão. Um congelamento da acção, talvez inversamente proporcional ao fervor interior das emoções. Um tempo do desejo. Um tempo de desejo que cresce no interior de um tempo de espera. Um mundo de expectativas. Uma experiência interior. (...) No silêncio da alma. No bater do coração. Que hoje, claro, continua a bater e sempre baterá. Mas que já não se ouve bater pois só no tempo do silêncio, do desejo, da espera, é possível ouvir bater.
Ora eu, que adoro escrever cartas,  - à antiga, pois claro, - que persisto em escrever à mão e a tinta permanente, e que seja lá por que motivo for, vou também dando cada vez mais importância ao silêncio,  não posso deixar de me sentir tocada por um texto como este.
Mas ainda há mais: há textos que misturam com mestria humor e raffinement. Que se lêem esboçando um sorriso e no fim apetece dizer: é isto!
Chama-se ponteiros parados e posso garantir que merece uma visita. Ou muitas, até...

sexta-feira, 20 de março de 2015

Acontecimentos do dia



Leio, no blogue de um amigo, entendido nestas coisas, o mais interessante texto sobre o assunto do dia. Diz assim:
Hoje, dia de eclipse solar total dentro do Círculo Polar Ártico (paralelo da latitude 66º33'44''N) e parcial em Portugal, uma jornalista da TSF perguntava ao seu correspondente, pousado no norte da Noruega, se o Sol já estava completamente tapado pela Lua e, desta forma, voltava a ser noite. O colega, a tiritar de frio (estavam 24º negativos), disse que ainda não, que o Sol ainda não tinha desaparecido, porquanto ainda não ficara noite. 
Meus caros, ainda não ficara, nem nunca irá ficar noite. Acaso quando o sol está completamente coberto por nuvens escuras fica noite? Não só não fica como posso assegurar que a visibilidade é menor do que num eclipse total do Sol. Quando este ocorre são visíveis duas porções: a umbra e a penumbra. A umbra é a parte do Sol completamente sombreada pela Lua; a penumbra, ou fímbria, é aquela luz em forma de auréola que denuncia a presença do Sol atrás da Lua. Esta luz faz mais claridade que qualquer dia intensamente nublado.
Estes mitos, muito enfatizados pela comunicação social, fazem-me lembrar aquela parte de "As minas do Rei Salomão", traduzido por Eça de Queiroz, em que o herói é salvo por um eclipse que diz ao chefe da tribo dos indígenas ter profetizado, fazendo dele uma espécie de deus. Aqui, os indígenas e papalvos somos nós.
Eclipses à parte, também é hoje, às não sei quantas da noite, segundo dizem, que chega oficialmente a Primavera. E eu gosto tanto disso!...

quinta-feira, 19 de março de 2015

O homem de quem se fala


Não sou grande fã de Júlio Isidro, mas não há dúvida que é um nome incontornável da televisão em Portugal, embora talvez isso nem sempre tenha sido devidamente reconhecido.
E, no entanto, nos últimos dois dias tem sido muito falado. Nada mais justo! A história, que leio no Observador e um pouco por todo o lado, é mais ou menos esta: uma hora antes do início do programa da manhã da RTP, e dada a súbita ausência dos habituais apresentadores, telefonaram a Júlio Isidro para "salvar a situação".
Que tenha aceitado de imediato fazer o programa sem qualquer preparação prévia e que o tenha feito com o à-vontade e o "savoir-faire" que o caracterizam não deixa de ser notável, sobretudo numa época em que o profissionalismo, com demasiada frequência, vai rareando.
Para comprová-lo, vale a pena espreitar como começou, aqui.