terça-feira, 31 de março de 2015

Estranha(s) forma(s) de ser


Tendemos a apreciações e avaliações precipitadas e com frequência entendemos mal, e até estranhamos, que possa haver quem tenha reacções diferentes das que teríamos em idênticas circunstâncias.
Porque apesar dos nossos bons princípios, de nos acharmos compreensivos, flexíveis e adequadamente condescendentes, quase todos lidamos mal com a dissemelhança e a diversidade, que nos apressamos a rotular como esquisita, pouco normal, bizarra e outras coisas no género. Idealizamos e buscamos a alteridade, mas ela incomoda-nos e assusta-nos, numa mistura de atracção e temor, às vezes difícil de assimilar e de gerir.
E, por isso, gostar das pessoas como elas são em vez de como gostaríamos que fossem, resistindo a querer modificá-las, é uma lenta e penosa aprendizagem, e não deixa de ser, também, uma belíssima prova de amor.
 

segunda-feira, 30 de março de 2015

Os cães e os seus donos


O problema dos cães não são eles em si mesmos, mas antes os donos que têm, os quais tirando raríssimas excepções acham que podem tudo, incluindo, até, o direito de incomodar os outros.
É assim que, antes do início da época balnear, sobretudo, o sossego da praia meio despovoada pode ser fortemente perturbado por uma razoável quantidade de grunhos, sozinhos ou em grupo(s),  acompanhados dos seus amiguinhos de quatro patas, que logo soltam das trelas mal chegam e deixam depois correr livremente, sem se importar que eles ladrem, cheirem, lambam, passem por cima das pessoas, façam chichis e cocós em tudo quanto é sítio. Sem respeito, nem consideração alguma pelos demais. Como se a praia fosse toda deles.
E ai de quem diz alguma coisa! A primeira reacção é o inevitável "ele não morde; só quer brincar". Nem lhes passa pela cabeça que possa haver quem não queira "brincar". Os mais polidos ainda balbuciam um "desculpe lá", pouco convicto e meio a soar a falso. E depois há os outros: os do "quem não está bem,  muda-se", os que nos olham de alto a baixo como se fossemos nós que tivéssemos um qualquer problema ou fossemos "enjoadinhos", os que se riem, os que insultam, enfim...; pode esperar-se todo o tipo de respostas.
No fundo, este é apenas um pequeno exemplo demonstrativo da falta das mais elementares regras de educação e convivialidade, que fazem com que estejamos ainda muito longe de ser o país civilizado e decente que às vezes julgamos ser mas que, provavelmente, nunca seremos.

domingo, 29 de março de 2015

A praia na Primavera

 
  

É nos dias e nas horas em que olho demoradamente a minha cidade, ou em que em silêncio estendo o corpo ao sol, e fecho os olhos, e ouço o mar, que dou mais valor a tudo o que tenho.
Morro de amores pela praia na Primavera, quando ela é quase só minha e me deixa serenar, revigorar-me e renascer em força e vontades novas.
Depois, quando o tempo aquece demasiado e ela se enche de vozes, de gente e de confusão evito-a um pouco mais, e visito-a mais espaçadamente, até que em Setembro se esvazia de novo e então volta a ser mais  minha e, de novo em sossego, me despeço.
É que, como diz Mia Couto, também a mim, o mar leva os meus sonhos a passear, e inspira-me, e faz-me sentir em paz, numa doce harmonia com o universo.


sábado, 28 de março de 2015

Da amizade


 
 
Hoje sei como se mede a verdadeira idade:
vamos ficando velhos quando não fazemos novos amigos.
                                                                                                            Mia Couto

 
As melhores amizades são as que nascem sem se saber como, as que crescem devagar e existem só porque sim, na terna doçura do que o tempo vai consolidando sem pressa nem amarras, e depois se impõe como uma certeza absoluta, e se adivinha ter vindo para ficar;   o que há nelas de mais bonito é a magia que nos faz gostar de certas pessoas sem que saibamos explicar porquê, e descobrir nelas coisas de que não gostamos, e gostarmos delas na mesma;  são as que são genuínas e verdadeiras porque não podem ser de outra maneira; as que enchem de conforto e de alegria os nossos dias, e se fazem de cumplicidade, de confiança, de afecto e de sentimentos bons, sem que isso precise sequer de ser dito. 
  
(Fotografias de Paulo Abreu e Lima, porque, hoje, o dia é dele. Parabéns, Paulo!)

sexta-feira, 27 de março de 2015

Gota d'água


Não é desgosto, nem mágoa, nem decepção. Talvez não seja nem saudade, sequer. É apenas a distância que cresce devagar, uma voz que se vai silenciando, e a certeza de que o tempo não pode, nunca, voltar para trás.
 

quinta-feira, 26 de março de 2015

Canções da minha vida (X)


 
Não marcou a minha vida, nem a ouvi vezes sem fim. No entanto, esta é talvez a minha memória mais antiga da música espanhola, situada numa  época que já não sei dizer com rigor a que anos corresponde, e muito antes de me apaixonar pelo flamenco, ou de me encantar pelo país vizinho.
Na altura não entenderia bem todas as palavras nem o seu significado explícito e implícito, muito menos sabia quem eram os Agua Viva, ou Lorca, ou Rafael Alberti.
Havia, ainda assim, uma força nestes Poetas Andaluces capaz de me impressionar a ponto de parar para a escutar.
E hoje, não sei porquê, voltei a lembrar-me dela.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Elogio da Madrasta


O livro é de 1988, mas ainda não o tinha lido. Aqui há tempos, a propósito do inexplicável furor daquela mediocridade chamada As cinquenta sombras de Grey, que me recuso a ler e a ver porque não estou para perder tempo com "porcaria", um amigo relembrou-mo.
É, juntamente com mais dois ou três - nunca consigo ler um livro de cada vez - minha leitura de férias. Ainda vou a meio, mas estou a gostar muito, apesar de estar a lê-lo traduzido, o que quase nunca me acontece. Prefiro sempre o original das línguas que domino, mas desta vez havia a possibilidade de mo emprestarem e eu aproveitei-a.
Não me interessa tanto se é ou não um "romance erótico", porque essas classificações me parecem sempre um pouco redutoras, mas é pelo menos o prazer de ler um livro muito bem escrito, daqueles que "prendem" e nos modificam e acrescentam alguma coisa; e a confirmação de Vargas Llosa como um escritor magnífico (se dúvidas houvesse...)
Aqui fica um bocadinho:
 
O nosso conhecimento recíproco é total. Tu és eu e tu, e tu sou eu e tu. Algo tão perfeito e simples como uma andorinha ou a lei da gravidade. A perversidade viciosa - para dizer com palavras em que não cremos e que ambos desprezamos - está representada por esses três observadores exibicionistas do ângulo superior esquerdo. São os nossos olhos, a contemplação que praticamos com tanto afã - como tu agora -, o desnudamento essencial que cada qual exige do outro na festa do amor e essa fusão que só pode expressar-se adequadamente traumatizando a sintaxe: eu te me entrego, me te masturbas, chupa-te-me-mo-nos.
Agora, deixa de olhar. Agora, fecha os olhos. Agora, sem os abrir, olha para mim e olha-te tal como nos representaram nesse quadro que tantos olham e tão poucos vêem. Agora já sabes que, ainda antes de nos termos conhecido, de nos termos amado e de nos termos casado, alguém, pincel na mão, antecipou em que horrenda glória nos converteria, cada dia e cada noite de amanhã, a felicidade que soubemos inventar.