segunda-feira, 18 de maio de 2015

Uma senhora é sempre uma senhora

 
 
 

Fanny Ardant  é uma daquelas raras actrizes que me faz ir ver seja que filme for, e não apenas para ouvir falar francês - que eu adoro!
É que é tão forte e majestosa a sua presença, que enche não só o écran, como o filme todo. Porque há nela, de facto, uma elegância no modo de estar e um porte que a transformam numa "diva", ainda que as marcas visíveis da passagem do tempo lhe tenham roubado muito do garbo  de outrora. Mas tem ainda aquele toque tout à fait français, misto de requinte e de altivez, que faz com que mesmo um filme fraquinho como este Chic, agora em cartaz, não seja extremamente maçador.
E nunca a vejo sem relembrar o filme em que a conheci - La femme d'à côté, - que me marcou muitíssimo. E depois todos os outros, de que Vivement DimancheHuit femmes, são apenas alguns exemplos que me vêm de repente à memória. É sem dúvida um dos grandes nomes do cinema francês. E a prova de que a classe e a distinção se têm ou não se têm, mas não se perdem com os anos. E nem é preciso botox...

sábado, 16 de maio de 2015

Vale a pena tentar


Viver é (...) um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. (...)
Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera. 
 
(Joaquim Pessoa)



 
 
Talvez eu te proponha a coisa certa
No caso a questão é se tentar
Mas sempre que eu deixei a porta aberta
Você veio correndo pra fechar.

(...)

Você me amedronta e me apavora
Não sei porquê
Me deixa ocupar a tua insónia
Me deixa devastar teus pensamentos
Me deixa percorrer teus sentimentos
Até me exaustar

Talvez eu te proponha a coisa incerta
Mas sempre vale a pena se tentar



sexta-feira, 15 de maio de 2015

O preço de uma constipação


O que se passou hoje comigo é um bom exemplo da falta de profissionalismo que vai reinando um pouco por todo o lado; e de como há pequenos pormenores que podem fazer a diferença.
Esta é a história: há cerca de três semanas que trago comigo uma enorme constipação, habitual em quase todas as Primaveras, já que sou uma incorrigível amante do sol e, mal ele aquece um pouco mais, aí estou eu deliciada, arejando qual lagarto. Desta vez, fui tratando dela com as coisas do costume e, dado que não tinha febre, continuei a fazer a vida de todos os dias. Mas a tosse não me largava e a constipação foi melhorando e piorando consoante as idas à praia e ao ginásio e as bruscas alterações climáticas. E chegou a febre. Só por uma noite, mas chegou. Achei então que não seria má ideia ir ao médico, que é sempre o meu último recurso (tenho esta coisa meio infantil de querer  fugir deles quanto posso).
Umas amigas sugeriram-me um médico excelente, que era o delas e das suas famílias, na Cuf Infante Santo (Dr. David Paiva) o qual, além disso, tinha acordo com a ADSE, o que significava que a consulta custaria apenas 3.99€. "Vais adorar!", garantiram-me. "E ficar cliente." Entusiasmada com tanta boa notícia, apressei-me a marcar consulta, agendada com extrema celeridade para daí a menos de quarenta e oito horas, o que também me pareceu óptimo.
Naturalmente que ao telefone, mesmo sendo já utente da Cuf Alvalade, me perguntaram qual o meu subsistema de saúde - e eu disse, - mas não me deram qualquer informação adicional. Também não fiz perguntas sobre acordos, nem preços, uma vez que as minhas amigas já me tinham esclarecido quanto a essas questões.
A consulta foi hoje. Durou quinze minutos, com as perguntas e procedimentos habituais nestas circunstâncias, e saí de lá com uma receita de um antibiótico e mais não sei o quê, bem mais potente que os meus ben-u-rons e afins. O trivial, pronto. Até aqui tudo certo...
Porém, chegado o momento de pagar, pediram-me o cartão "Medicare".  Respondi que não tinha. Só o da ADSE. Disseram-me, só então, que este médico não tinha acordo com a ADSE. E que a "colega" que registou a minha marcação teria registado "Medicare". Por isso, sendo a primeira consulta tinha que pagar 93€ (noventa e três euros!!!). Fiquei de tal modo em estado de choque que nem consegui reagir. Paguei e saí dali o mais depressa que pude, maldizendo a constipação e o mundo, de carteira bastante mais leve e quase à beira de uma ataque de nervos e de sei lá que mais, irritada comigo por não ter ido antes nem que fosse à urgência dos Lusíadas.
Que aqueles quinze minutos e a receita do antibiótico valham noventa e três euros já me parece excessivo e escandaloso, mas nem é isso que eu contesto. Sendo que o médico deixou de ter acordo com a ADSE há dois meses, como vim a saber depois, no telefonema de marcação esse facto tinha que me ter sido comunicado; e caber-me-ia, depois, decidir se queria ainda assim ser consultada por ele. Tanto mais que me perguntaram qual o meu subsistema de saúde.
Também não entendo como, tendo eu dito ADSE, do outro lado da linha se tenha percebido "Medicare", que nem sequer por qualquer semelhança sonora é susceptível de confundir-se. E é este o país que temos...
Mais tarde, com mais calma e já refeita do embate, redigi e enviei por mail uma reclamação dirigida à Cuf Infante Santo, a qual provavelmente não valerá de muito, mas serve pelo menos para "desabafar".
Por  fim, descubro com espanto que afinal a solução até podia ter sido outra, bem mais simples que tudo isto. Ah, se tenho lido este artigo a tempo, nem tinha chegado a ir ao médico...

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Dia da espiga

 
Encontro um encanto especial nas tradições populares associadas à Primavera. Hoje celebra-se o "Dia da Espiga" coincidindo com a Quinta-feira da Ascensão e, por isso, mesmo nas cidades, vêem-se um pouco por todo o lado os raminhos campestres e coloridos, com a sua simbologia muito específica e algo poética, a encher de luz, de cor e de alegria a nossa vida.

terça-feira, 12 de maio de 2015

Provocação


 
 
Não me venha falar
Na malícia de toda mulher
Cada um sabe a dor
E a delícia de ser o que é
Não me olhe como se a polícia
Andasse atrás de mim
Cale a boca
E não cale na boca
Notícia ruim
Você sabe explicar
Você sabe entender
Tudo bem
Você está
Você é
Você faz
Você quer
Você tem
Você diz a verdade
E a verdade é o seu dom de iludir
Como pode querer que a mulher
Vá viver sem mentir

segunda-feira, 11 de maio de 2015

O efeito do sol em mim


Primeiro há o prazer voluptuoso de me estender na suave maciez do areal e  deixar o sol invadir o corpo devagar, ao de leve, no início, e logo mais forte, quase abrasador. Depois fechar os olhos, ouvir o clamor das ondas e adivinhar-lhes o tamanho apenas pelo som. E esquecer-me de mim. Demorar-me em silêncio e em sossego, sem pensar em nada, sentir a raridade de instantes assim, de harmonia perfeita com a natureza, prazer e privilégio, como uma terapia essencial ao bem-estar e à consonância, que volta a colocar tudo no seu lugar.  E então regressar, revigorada e feliz, a pele quente a saber a sal, com uma alma nova, o coração mais leve, e o olhar outra vez limpo para a beleza do mundo.

domingo, 10 de maio de 2015

Os filmes sobre a escola



Devo ser uma das raríssimas pessoas que não gosta nem um bocadinho de "O Clube dos Poetas Mortos", tido como um clássico entre os filmes sobre a escola, a profissão de professor e o culto do carpe diem, em geral. E nem sei se é por não apreciar de todo Robin Williams, - que é no filme um professor pouco convincente, cheio de trejeitos de clown - se por não ter a mínima paciência para aquele género do professor, a que eu chamo "professor pops", que é muito cool, que faz verdadeiros milagres ao nível da "motivação", mas tenho mais dúvidas que chegue a ensinar alguma coisa de significativo, e  que os alunos definem, actualmente, como "um bacano".
Dos filmes sobre a escola, a referência era para mim entre les murs (em português "a turma"), um filme francês de 2008, baseado num livro com o mesmo nome, escrito por um professor - François Bégaudeau, e interpretado também por ele no papel principal - , sobre a realidade multicultural de uma escola dos subúrbios de Paris, na sua mais crua realidade quotidiana. Não se trata de um documentário, mas filmado com alunos reais de uma escola francesa, o filme traça um retrato muito autêntico do ambiente que se vive hoje neste meio, sem lirismos parvos, nem tintas cor-de-rosa.
Porque, de facto, grande parte do que se passa nas escolas fica "entre quatro paredes" e quem não o conhece por dentro tem sempre uma imagem reduzida e redutora, mais ou menos distorcida e, acima de tudo, pouco verdadeira.
Quando ouvi falar de Les Heritiers (traduzido como "Uma turma difícil"), desconfiei. Fiquei com a ideia de que, basicamente, se tratava de pegar no que tinha corrido bem no filme "A turma", misturando actores profissionais com alunos reais, por exemplo, e dar conta de um daqueles extraordinários "milagres" de conseguir transformar radicalmente um grupo tido como "difícil". Uma mistura de "A Turma" e "Clube dos Poetas Mortos", portanto.
Fui vê-lo, mesmo assim. Mas de pé atrás, confesso. E o filme surpreendeu-me pela positiva. Trata-se de uma história verídica, passada em 2009, no mesmo liceu Léon Blum onde o filme é rodado, em Créteil, nos arredores de Paris. Ahmed Dramé, um dos alunos que viveu essa experiência, escreve depois um argumento sobre ela e mostra-o à realizadora Marie-Castille Mention-Schaar, que o rescreve com ele e o inclui no filme, como actor, no papel de  Malik. Ariane Ascaride faz uma professora credível como Madame Gueguen (representando Anne Anglès, a verdadeira professora).
O filme não se limita, no entanto, a falar do insucesso, da indisciplina, de tensão entre grupos étnicos, religiosos e culturais distintos. A ideia de levar aquela turma a participar no concurso sobre a Resistência e a Deportação coloca em primeiro plano as memórias do Holocausto e o seu impacto nas gerações que apenas as conhecem de forma documental, mas que ao envolver-se no assunto de forma mais profunda podem com isso mudar também as suas vidas. O testemunho de Léon Zyguel, sobrevivente de Auschwitz, que morreu em Janeiro deste ano, aos 87 anos, é de resto um dos momentos mais marcantes do filme, que consegue emocionar os alunos para quem fala, e emocionar-nos a todos, também.
Enfim, não será um grande filme, mas é um filme que vale a pena ver, sobretudo para quem conhece pelo lado de dentro o que há de melhor e de pior no desafio de ensinar, que se ganha ou se perde em cada dia; e sabe na pele como isso pode ser física e psicologicamente duro, e desgastante, mas gosta de o fazer; apesar de tudo...