

Devo ser uma das raríssimas pessoas que não gosta nem um bocadinho de "O Clube dos Poetas Mortos", tido como um clássico entre os filmes sobre a escola, a profissão de professor e o culto do carpe diem, em geral. E nem sei se é por não apreciar de todo Robin Williams, - que é no filme um professor pouco convincente, cheio de trejeitos de clown - se por não ter a mínima paciência para aquele género do professor, a que eu chamo "professor pops", que é muito cool, que faz verdadeiros milagres ao nível da "motivação", mas tenho mais dúvidas que chegue a ensinar alguma coisa de significativo, e que os alunos definem, actualmente, como "um bacano".
Dos filmes sobre a escola, a referência era para mim entre les murs (em português "a turma"), um filme francês de 2008, baseado num livro com o mesmo nome, escrito por um professor - François Bégaudeau, e interpretado também por ele no papel principal - , sobre a realidade multicultural de uma escola dos subúrbios de Paris, na sua mais crua realidade quotidiana. Não se trata de um documentário, mas filmado com alunos reais de uma escola francesa, o filme traça um retrato muito autêntico do ambiente que se vive hoje neste meio, sem lirismos parvos, nem tintas cor-de-rosa.
Porque, de facto, grande parte do que se passa nas escolas fica "entre quatro paredes" e quem não o conhece por dentro tem sempre uma imagem reduzida e redutora, mais ou menos distorcida e, acima de tudo, pouco verdadeira.
Quando ouvi falar de Les Heritiers (traduzido como "Uma turma difícil"), desconfiei. Fiquei com a ideia de que, basicamente, se tratava de pegar no que tinha corrido bem no filme "A turma", misturando actores profissionais com alunos reais, por exemplo, e dar conta de um daqueles extraordinários "milagres" de conseguir transformar radicalmente um grupo tido como "difícil". Uma mistura de "A Turma" e "Clube dos Poetas Mortos", portanto.
Fui vê-lo, mesmo assim. Mas de pé atrás, confesso. E o filme surpreendeu-me pela positiva. Trata-se de uma história verídica, passada em 2009, no mesmo liceu Léon Blum onde o filme é rodado, em Créteil, nos arredores de Paris. Ahmed Dramé, um dos alunos que viveu essa experiência, escreve depois um argumento sobre ela e mostra-o à realizadora Marie-Castille Mention-Schaar, que o rescreve com ele e o inclui no filme, como actor, no papel de Malik. Ariane Ascaride faz uma professora credível como Madame Gueguen (representando Anne Anglès, a verdadeira professora).
O filme não se limita, no entanto, a falar do insucesso, da indisciplina, de tensão entre grupos étnicos, religiosos e culturais distintos. A ideia de levar aquela turma a participar no concurso sobre a Resistência e a Deportação coloca em primeiro plano as memórias do Holocausto e o seu impacto nas gerações que apenas as conhecem de forma documental, mas que ao envolver-se no assunto de forma mais profunda podem com isso mudar também as suas vidas. O testemunho de Léon Zyguel, sobrevivente de Auschwitz, que morreu em Janeiro deste ano, aos 87 anos, é de resto um dos momentos mais marcantes do filme, que consegue emocionar os alunos para quem fala, e emocionar-nos a todos, também.
Enfim, não será um grande filme, mas é um filme que vale a pena ver, sobretudo para quem conhece pelo lado de dentro o que há de melhor e de pior no desafio de ensinar, que se ganha ou se perde em cada dia; e sabe na pele como isso pode ser física e psicologicamente duro, e desgastante, mas gosta de o fazer; apesar de tudo...