quinta-feira, 28 de maio de 2015

Em roda livre


Vários acontecimentos desta semana deixam-me a pensar em como se tornou delirante o mundo e o modo como vivemos...


 

terça-feira, 26 de maio de 2015

Vozes do Mundo

 
Conheci-a pela primeira vez num programa da RTP2 que nem sei se ainda existe, chamado "Bairro Alto". Gostei do seu modo de ser comunicativo e das coisas que então a ouvi dizer. Estávamos em 2008, julgo eu, e  María Beresarte, de origem basca, acabava de publicar o seu primeiro disco que, curiosamente, era um disco de fado.
Uma espanhola a cantar fado parece uma ideia estranha. Mas se o ouvirmos não é. Pelo contrário: achei que ele era bem a prova que o fado e o flamenco são muito mais próximos do que parecem, que há mesmo o que pode considerar-se uma sonoridade ibérica, com especificidades próprias que têm a ver com as nossas distintas maneiras de ser. E deixei-me encantar por esta voz,  poderosa, enfeitiçante e arrebatadora. Mas acabei por não guardar o disco, "Todas las horas son viejas", considerado pelo crítica como o melhor álbum de fado por uma voz estrangeira, pois ofereci-o  a uns amigos espanhóis que gostam muito da canção de Lisboa.
Anos mais tarde, em 2012, tive a oportunidade de finalmente a ouvir ao vivo num concerto do "Quinteto de Lisboa", um interessante projecto musical que inclui também João Gil, José Peixoto, Hélder Moutinho e João Monge (tudo nomes de peso, pois claro). Foi um espectáculo marcante e inesquecível, pela sua qualidade e carácter inovador. Foi também, para mim, a confirmação de María Beresarte como uma artista extraordinária, que além da excepcional voz que tem é ainda elegante e sensual; e canta com o corpo inteiro.
Desde então tenho acompanhado mais ou menos o seu percurso artístico. Sei, por exemplo, que faz muito sucesso em França, e não só, que se vai tornando "um caso sério", e provando cada vez mais que é, acima de tudo, uma voz do mundo.
María Beresarte acaba de  lançar o seu segundo disco, chamado "Súbita" que, pela amostra, parece valer a pena ouvir com atenção.



domingo, 24 de maio de 2015

Canções da minha vida (XIV)


 
Com a saída da Virgen del Rocío, hoje de madrugada, acaba a Romaria deste ano. O momento exacto, que nunca se sabe a que hora tem lugar, pode ver-se em directo no Canal Sur, numa emissão que começa à meia-noite e um quarto (uma hora antes para nós).
Tudo isto significa muito para mim, já se sabe. Nesta série não podiam por isso faltar algumas canções rocieras.
E, até ao próximo ano, não volto ao assunto; fica prometido!...


sábado, 23 de maio de 2015

A los amigos del alma


Esta noite, e a próxima, o Rocío vive os seus momentos mais significativos.  Mesmo não estando lá, é impossível não pensar  nos amigos e "hermanos rocieros" com quem se vivem momentos de partilha tão especiais. E lembrá-los com a ternura própria das emoções mais fortes.
El Rocío deja huella, pero para eso hay que vivirlo, ouvi dizer por estes dias. É quase um lugar-comum, mas é de facto impossível traduzi-lo em palavras. Porque só quem passa por lá pode sentir no peito e na pele a magia e o encantamento das rodas de amigos que podem ser festa, música, alegria de viver, mas também serenidade e devoção; e que nos aproxima imensamente dos corações que sentem connosco a mesma comoção. E nos une para sempre. E nos fortalece por dentro. E marca a nossa vida.
É por tudo isto que este post leva dedicatória: é para todos os amigos, portugueses e espanhóis, que sempre vivem o Rocío comigo. Para a Rita, a Joana, a Bu e o Miguel Souza, que me acompanham em todas as horas e em muitos caminhos, e também para a Rosa, o Salvador, o Gonzalo, a Maria, o Raúl, a Ana, a Paca, o Rufino, a Paulina, a Inma, a  Marta, a Teresa, o Sílvio, a Rocío, a Patrícia, e tantos outros, cujos nomes podem momentaneamente estar a faltar-me.
Mas, de uma forma ainda mais especial, para um amigo muito querido, que eu conheci no Rocío e a quem me une um afecto profundo, inexplicável, abençoado e genuíno, que o tempo e a distância não podem apagar, com quem já partilhei o mais fundo da minha alma  e tantas outras pequenas e grandes coisas que só nós sabemos, com quem me entendo sem precisar de muitas palavras, com quem estou sempre em sintonia, e de quem tenho às vezes saudades, apesar de o saber sempre perto.  Um dia, tenho a certeza, voltaremos a estar juntos no RocíoMiguel, esto va para ti!...


 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Onde eu devia estar...





Nada a fazer! Hoje, amanhã, depois, e até segunda de manhã, fica-me esta sensação - sempre igual em todos os anos em que não vou -, que não estou onde devia estar.
Eu fico aqui, mas o meu pensamento e o meu coração estão no Rocío...

terça-feira, 19 de maio de 2015

Canções da minha vida (XIII)


Há anos, quando as noites duravam quase até ser dia,  e ainda antes do Xafarix, era no Happening que gostava de estar, entre copos e amigos, deliciada, a ouvir a voz maravilhosa de Luís Represas, através da qual conheci o melhor da música brasileira. Aqui está um bom exemplo...

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Uma sociedade (in)decente


 Soube pela Helena que o Observador faz amanhã um ano. Não fazia ideia. Mas já me habituei a passar por lá; e hoje, uma vez mais, gostei do artigo de José Manuel Fernandes, como muitas vezes acontece. Diz isto:
 
 Há coisas que me cansam. Mesmo
Uma sociedade decente é uma sociedade com regras, onde as crianças e os jovens crescem sabendo que há limites e deveres de civilidade. E onde a polícia não confunde firmeza com brutalidade gratuita.
Há coisas que me cansam. Uma delas são as vagas de indignação que percorrem o espaço público sempre que uma notícia nos choca. A outra é a nossa cíclica incapacidade para nos ficarmos pela indignação e pela proclamação do choque – no dia seguinte já esquecemos tudo e passamos a outra indignação diferente e manifestamo-nos chocados com outro tema qualquer.
A forma como, no nosso país, nas nossas redes sociais, nos nossos espaços públicos de debate, habitualmente se trata qualquer nova indignação ou qualquer novo choque tem, por regra, três características altamente negativas. A primeira é pensar que os problemas que alguns dos eventos chocantes revelam se resolvem através de uma qualquer mudança nas leis, mesmo sabendo nós que as sociedades não se mudam por decreto. A segunda é a tendência para ficar sempre pela superfície quando se discutem os problemas. A terceira é apontarmos preferencialmente o dedo a outrem e nunca nos interrogarmos sobre o que podemos fazer para, digamos assim, nos indignarmos menos vezes – por termos menos motivos para isso.
Vem tudo isto a propósito das sucessivas cenas de violência com que fomos confrontados nos últimos dias. Primeiro foi o vídeo do bullying da Figueira da Foz. A seguir veio o assassinato brutal de um adolescente por um rapaz pouco mais velho. Logo depois a noite de violência em que degenerou a festa do Benfica no Marquês de Pombal. Por fim, verdadeira cereja em cima do bolo, as imagens de polícias a espancarem dois adeptos do Benfica enquanto uma criança, filha de um deles, se urinava de aflição.
É fácil, não tem custos e alivia a bílis ir para as redes sociais tratar todos por energúmenos e selvagens os protagonistas destas violências – e muitos deles, sobretudo os mais responsáveis, são efectivamente energúmenos e selvagens. Quando se pretende ser um bocadinho mais sofisticado, procura-se uma qualquer explicação “social”, o que por estes dias acaba com demasiada frequência na “crise” e na “austeridade”. Raras vezes se assume o que é difícil assumir: primeiro, que a violência faz parte, infelizmente, da natureza humana; depois, que quando colectivamente se perdem as referências morais, não nos devia surpreender que se dilua a fronteira entre o tolerável e o intolerável, entre a simples estupidez e a crueldade, entre o bem e o mal.
Há pouco mais de um ano, aquando de uma outra comoção nacional – a “descoberta” de que muitas das praxes académicas eram claramente excessivas, uma discussão desencadeada depois da morte de seis jovens na Praia do Meco – lembrei que o exercício de humilhação do outro não era um exclusivo dessas praxes, tinha-se até tornado no desporto preferido dos talk-shows televisivos. Não deixa de ser significativo que, desta vez, estes eventos tenham ocorrido pouco depois um desses exercícios de humilhação levados ao limite do tolerável, na circunstância a ridicularização um jovem adolescente pela sua aparência física.
Não vou misturar todos estes casos – até porque a agressão gratuita protagonizada por um responsável da PSP de Guimarães não tem comparação com os outros – mas recordar aquilo que, de alguma forma, une todos os que foram protagonizados por adolescentes e por jovens.
O meu primeiro ponto é simples, apesar de ser muitas vezes esquecido: os seres humanos não nascem anjos que a sociedade estraga, bem pelo contrário, precisam de ser educados e de aprenderem a socializar para viverem pacificamente. Há mesmo períodos na vida dos jovens em que a facilidade de deslizar para a violência são especialmente grandes, como o tempo da passagem da adolescência à idade adulta (os rituais de iniciação, tão comuns em todo o tipo de sociedades, mais primitivas ou mais evoluídas, não surgiram do nada). O Padre Américo, que tantas crianças pobres e abandonadas tratou, costumava dizer que “não há rapazes maus”, mas para que tivesse razão esses rapazes tinham de ser enquadrados e educados – deixados a si mesmos, acabariam mal. Não vou aqui discutir Hobbes, Rousseau ou Locke, mas julgo que não necessitamos de seguir “A Guerra dos Tronos” (que nos mostra apenas um pouco da violência que era comum na Idade Média) para compreendermos que aquilo que nos permite viver pacificamente é aceitarmos um conjunto de regras e termos um mínimo de boa educação.
O segundo ponto é, de alguma forma, corolário deste primeiro: uma sociedade que aceita a alarvidade, que tolera a obscenidade (quando não faz gala dela), que não castiga mesmo o mais inocente dos vandalismos, antes se ri do atrevimento das crianças, uma sociedade que vê a boa educação como uma coisa antiquada e onde até o cavalheirismo é confundido com marialvismo, não é apenas uma sociedade que perdeu, ou está a perder, as suas referências morais: é uma sociedade onde a violência não deixará de estar sempre mais e mais presente.
O terceiro ponto é que não podemos continuar a viver nesta espécie de jogo do empurra em que um dia se responsabilizam as famílias, que despejam os filhos nas escolas ou os abandonam em frente a um ecrã de televisão, para no dia seguinte se culparem as escolas e, claro, a lei X ou a lei Y que está mal feita e a necessitar de reforma. Quando chegamos ao ponto de algumas famílias, com filhos pequenos, terem optado por já nem sequer terem televisões em casa durante a sua fase de formação, será que não temos nada a dizer sobre a responsabilidade dos operadores? Quando aceitamos que, todas as manhãs, as ruas do Bairro Alto e do Cais do Sodré, em Lisboa, ou da Ribeira, no Porto, sejam lixeiras para onde hordas de adolescentes e jovens atiraram copos de plástico e garrafas vazias, será que podemos ficar surpreendidos que alguns as atirem também aos polícias, como se estivessem à procura de uma batalha campal? Quando aceitamos, em nome da arte dos grafitti, que nenhuma parede está a salvo de um vandalismo muitas vezes totalmente gratuito, não estamos a aceitar que é possível viver numa sociedade sem regras, em nome de uma falsa ideia de “liberdade de expressão” que tantas vezes não é mais do que um carimbo de marcação de território?
Podia continuar por aqui adiante, e devo dizer que nada do que escrevi desculpa ou justifica os comportamentos que nos indignaram – pelo contrário: se nada acontecer, se encolhermos os ombros, se acharmos que, coitados, são apenas rapazes e raparigas desenquadrados, estaremos de novo a enviar a mensagem errada não apenas a quem prevaricou, mas a todos os estarão tentados a imitá-los.
Uma sociedade decente é uma sociedade com regras, uma sociedade onde se ensina às crianças e aos jovens quais os limites e onde moram as virtudes. Isto não é moralismo, é realismo, é humanismo. E se deve começar na casa de cada um, tem de prolongar-se no espaço público e nas instituições do Estado.
Mas às vezes parece que não somos uma sociedade decente.