sexta-feira, 26 de junho de 2015

Uma rainha


Para o bem e para o mal somos sempre marcados por quem nos dá a vida. São os primeiros braços que nos abraçam e embalam, o colo que nos aconchega, a voz  e o olhar que nos ensinam o mundo e guiam o caminho. Habituamo-nos assim a um amor e apoio incondicionais e a um presença forte e serena, que julgamos poder durar para sempre, sem sequer pensar nisso.
Depois desentendemo-nos e discordamos, porque também há uma idade própria de ser assim.
Mas hoje sei a quem devo a maior parte do que sou, sei da honra e da dignidade a sobrepor-se aos inevitáveis erros a que ninguém escapa, porque somos humanos, falhamos e sofremos; sei da coragem de optar pela generosidade e a alegria, quando teria sido bem mais fácil cruzar os braços e desistir, ou escolher o caminho da amargura e do cansaço. Foi no bom humor, no riso e na limpidez dos seus olhos verdes que aprendi o lado bom de todas as coisas; e herdei essa vontade imensa de aceitar e aproveitar muito bem o que nos chega, como o que fazemos chegar.
Aos noventa anos, mesmo quando se é apenas uma sombra do que se foi um dia, perde-se a pose, o corpo verga-se, provavelmente sobram poucas memórias de um percurso muito longo e muito cheio, mas fica tudo o que se construiu e o reflexo do efeito que se provocou nos outros. 
Perdem-se os gestos e as palavras, mas ficam as emoções e os afectos, que transparecem ainda em olhares cúmplices e silenciosos, em risos fortuitos, em esboços de mimos, em prazeres simples e antigos: nas mãos que se tocam e se apertam, na delícia de saborear uma madalena, e em tudo aquilo que ainda nos mantém junto dos que amamos. E até talvez felizes...
Chegar aos noventa é só mais uma vitória. Por isso,  se pudesse, hoje coroava-a rainha. E concedia-lhe o dom da infinitude.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Contigo

 
Às vezes, no fundo dos olhos, no toque da pele, num riso, numa palavra, num gesto,  encontro ainda o encanto de um tempo que já não existe, ou se deixou modificar pela passagem dos anos.
E vem esta certeza de que seja lá o que for que esteja por vir, é demasiado forte o que nos prende um ao outro, que o teu abraço continua a ser o melhor de todos e que agarrada ao teu corpo poderia ir ao fim do mundo. Porque a vida é feita do que passa e do que fica. Nós ficamos. E eu estou contigo e tu comigo para sempre, na tranquilidade de um afecto tão fundo como uma certeza absoluta e na harmonia secreta de quem  também se entende em silêncio.

 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Porque sim...


Sabrás que no te amo y que te amo
puesto que de dos modos es la vida,
la palabra es una ala de silencio
el fuego tiene una mitad de frío

Yo te amo para comenzar a amarte,
para recomenzar el infinito
y para no dejar de amarte nunca:
por eso te amo todavia

Te amo y no te amo como si tuviera
en mis manos la llave de la dicha
y un incierto destino desdichado.

Mi amor tiene dos vidas para amarte
Por eso te amo cuando no te amo
y por eso te amo cuando te amo.

                                                   Pablo Neruda


(E há também amores assim: duradouros, infindáveis, da vida inteira...)

terça-feira, 23 de junho de 2015

Vida Nova



Esta é agora a minha "casa", espaço lindo, enorme, que eu ainda mal conheço, um mundo quase novo e a vida a recomeçar. 
Foi na maior emoção que atravessei hoje a porta,  ansiosa e inquieta como quem chega à escola pela primeira vez. E senti que este é de facto um momento de viragem, que há um longo capítulo que se encerra finalmente, porque tudo tem um tempo certo de existir, que às vezes é mesmo preciso virar a página, e que tudo o que agora começa será decerto diferente.
Arrepia-me e apetece-me a novidade que aí vem. Para já é um sonho tornado realidade, um novo desafio, um caminho para se ir fazendo devagar, um bocadinho em cada dia. E eu sei que vai ser bom...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Divertida Mente



Sempre gostei de filmes de animação. Mas, nos últimos doze anos, é raro perder um. E acho que não exagero se disser que este Inside Out ("Divertida Mente", em português) é o melhor de todos eles.
É um filme magnífico, não só do ponto de vista técnico e da forma como é construído, mas também pela história que conta e o modo como o faz. Na verdade trata-se acima de tudo de um filme que nos toca, seja qual for a nossa idade, porque nos diz respeito e se refere a emoções que todos vivemos.
A ideia de que parte é simples e complexa em simultâneo: uma viagem ao interior da cabeça de uma menina pré-adolescente, Riley, com as emoções e sentimentos - alegria, tristeza, medo, raiva, e todas as outras  - a assumirem-se como protagonistas e a comandar os seus comportamentos e reacções, nas mais alegres ou  adversas circunstâncias. Mas fá-lo sabiamente, misturando na perfeição  melancolia e humor, sonho e  poesia.
Não me admira que tenha sido muitíssimo aplaudido no Festival de Cannes. É um filme com a qualidade a que a Pixar já nos habituou, mas é muito mais que isso. Não se trata de mais um filme de animação, mas antes de um excelente filme, que tem profundidade, inteligência e sentimento.
Sem dúvida o melhor que vi nos últimos tempos. Já era tempo de ver um bom filme, daqueles que se pode recomendar a toda a gente, e que é, de facto, imperdível.

domingo, 21 de junho de 2015

Chegou o Verão

 

Não é uma das minhas estações preferidas. É um tempo de excessos: de calor a mais, corpos peganhentos de suor e sal, moscas e bicharada, gente na rua, algazarra, confusão.
Mas porque tudo tem também um lado bom, o que eu gosto do Verão é a sua vertente mais langorosa, os dias enormes e o torpor de uma sesta, a quietude das noites que passam devagar, a despreocupação, como se tudo pudesse ficar para depois e aquele fosse apenas um longo intervalo, até que chegue Setembro e a vida comece outra vez.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Reviravolta(s)

 
Antes:
 - El profesor me ha suspendido porque me tiene manía.
 - Ya! Hasta que apruebes, lo único que te voy  dejar es respirar y te voy a tatuar la suela de la zapatilla en el culo por cuparle al professor.

Ahora:
 - El profe me ha suspendido porque me odia.
 - No te derrumbes cariño. Ahora mismo te compro la "play" y después nos vamos al cole con papi a montársela a ese cretino.