terça-feira, 30 de junho de 2015

Como um cesto roto


Não gosto de pessoas mentirosas. Há aquelas pequenas aldrabices inofensivas que em geral servem para escapar de alguma coisa desagradável, ou incómoda. E isso todos fazemos, uma vez ou outra, pelas mais variadas razões.
Mas depois há os mentirosos compulsivos, que fingem e inventam por tudo e por nada, que mentem a torto e a direito, mesmo sem qualquer necessidade, tropeçando nas suas próprias contradições. E julgam que ninguém se apercebe. Mas estão muito enganados. 
Estas pessoas escondem um si, inevitavelmente,  um "chico esperto", que faz dos outros parvos, sem ter noção de que é sua a figura mais triste. É esta forma de "esperteza saloia" que me parece verdadeiramente  lamentável. E incompreensível.
É que mesmo quando lhes temos estima, a consideração enfraquece sempre um pouco, e o afecto desgasta-se, a cada nova patranha.  

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Os romances no cinema



Em geral não gosto dos filmes que são adaptações de livros; e evito vê-los. Sobretudo se se trata de grandes livros, daqueles que de alguma forma me marcaram. O filme parece-me sempre uma visão redutora e às vezes demasiado simplificada relativamente à complexidade do que as palavras nos contam, e ao vê-lo perde-se até um pouco a magia do que a leitura nos fizera imaginar. Por isso, propositadamente, não vi Os Maias. E muitos outros.
Ora, Madame Bovary fugiu à regra. Apesar de ter sido um livro que gostei muito de ler. E que estudei a fundo. Aliás, um dos trabalhos que mais gostei de fazer na Faculdade de Letras foi precisamente a comparação de Emma Bovary com a Princesse de Clèves. Não sei bem por que motivo decidi ir ver este filme, que nem é a primeira adaptação da obra. É a quarta ou quinta. E não vi nenhuma das outras, que têm a assinatura de nomes de peso: Renoir, MinnelliChabrol. Talvez fosse apenas a ideia de poder ouvir falar francês, como eu tanto gosto, ou porque o nome da realizadora, de quem nunca ouvira falar (Sophie Barthes) me recordava também um apelido muito respeitado desses tempos dos estudos literários.  
Mas, no fundo, levava comigo aquela desconfiança de quem não esperava que o filme fosse "grande coisa". E não é, de facto.  Ainda assim é bem melhor do que eu esperava.
Mesmo se, como tão bem diz a Helena, é  bizarro até ao incómodo ver  Madame Bovary  falado em inglês. Nesse sentido foi, sem dúvida, uma desilusão. Mas se é verdade que falta emoção e densidade psicológica a esta Emma, o filme é relativamente fiel ao livro de que parte, faz uma belíssima reconstituição de época, com imagens magníficas da Normandie e com um acompanhamento musical que muito contribui para que o resultado final não seja desastroso.
Enfim, podendo até "saber a pouco", não deixa de ser  um filme que merece uma ida ao cinema.

domingo, 28 de junho de 2015

Lições


A verdade é que não queria falar sobre isto. Mas não resisto. Encontrei hoje na comunicação social um ou dois artigos de opinião com os quais concordo e que, por isso, transcrevo aqui em parte.
O primeiro é de Alberto Gonçalves, no DN, e tem este sugestivo título:

O dinheiro e os palhaços
Ainda há quem se excite com as negociações entre a Grécia e os credores, ou a troika, ou a Europa. A meio da semana, a teoria dividia-se entre os que achavam o acordo alcançado uma humilhação do Syriza e os que o achavam uma vitória esmagadora desse divertido bando. O único problema é que a semana está no fim e o acordo alcançado destaca-se pela inexistência.
Mesmo que venha a existir, promete não servir de nada, na medida em que uma das partes, imaginem qual, nunca cumprirá coisa nenhuma, ou quase nenhuma. A bazófia do Syriza, colectividade pouco vocacionada para a democracia, não esconde o pavor de sair do euro, divisa pouco vocacionada para nações de excêntricos. A impaciência dos credores colide com algum receio das consequências. Dito de maneira diferente, o Syriza procura inutilmente ganhar tempo e dinheiro, os credores perdem ambos e os espectadores de tamanho aborrecimento têm um em excesso e outro nem tanto. Por mim, só rezo aos deuses (não os do Olimpo, nos quais não deposito confiança e pretendo não depositar um cêntimo) que a brincadeira não me saia cara.
Mas isso sou eu, que não padeço de altruísmo. Felizmente, a acreditar no que se ouve e lê, abundam por aí cidadãos generosos em cujos ombros recai a esperança da crise, da UE e da humanidade em geral. Essa abençoada gente, que em Portugal se confunde com a melhor parte do PS (a parte dos "valores") e a ponderada extrema-esquerda, percebe que, pela suja lógica do capitalismo selvagem, os países que emprestam dinheiro têm o desagradável costume de desejar recebê-lo de volta, nem que seja parcial e espaçadamente, antes de emprestarem mais. E mais. E mais.
O raciocínio dos generosos é simples, tão simples que mete medo: aparentemente ao contrário dos demais membros da UE, a Grécia é um país soberano que optou por um determinado nível de vida. Esse nível de vida não se alcança ou mantém sozinho, pelo que exige patrocínio alheio. Os patrocinadores impõem condições. Do alto da sua soberania, a Grécia não aceita as condições. Está no seu direito. E se um alemão tiver de trabalhar até aos 80 para que um grego se reforme aos 50, azar dele. Os alemães, por puro egoísmo, discordam e começam a cansar-se. Os pobres gregos vêem-se em soberanos apuros e já se descobriu um cantoneiro de Salonica com salário inferior a 1500 euros.
É em momentos de desumanidade assim que convém desviar o debate do materialismo para a moral, subordinado ao sempre fascinante tema "Solidariedade". Se não se pode esperar semelhante virtude do neo-supra-ultraliberalismo vigente, urge que os povos se unam a fim de financiar a Grécia. Acredito que as cúpulas do PS e do Bloco já abriram contas em favor daquele oprimido (e soberano) povo, e que os 17 participantes das recentes vigílias de solidariedade no Porto, Coimbra e Viseu contribuíram com verbas significativas. A filantropia autêntica recorre ao próprio bolso e não à extorsão de insensíveis que, como eu, são avessos ao conceito.
Entretanto, enquanto escrevia a crónica constou que o enésimo acordo iminente se transformou no cancelamento das negociações e num referendo do Syriza à vontade popular. Crentes na sensatez dos seus representantes, os gregos correm a exportar divisas e a assaltar os multibancos. Volta a crescer a ansiedade e a certeza de que, no fundo, toda a gente sabe como é que a paródia acabará: mal. E porcamente para a Grécia. Sem dinheiro, não há palhaços? Há sim, senhor. Duvido é que voltem a vencer eleições. O futuro da esquerda envelheceu depressa.

Também no Observador, hoje, Helena Matos escreve sobre o assunto. Diz isto:
Os credores esperavam que Tsipras negociasse condições. Atenas exigia-lhe que os arrasasse e, milagre da fé, que eles continuassem a cumprir o seu papel de credores financiando a Grécia.Queremos que os contribuintes dos outros países continuem a financiar o nosso modo e nível de vida?” Esta é a pergunta a que os gregos gostavam de responder. Só que em política a mesma pergunta não se faz duas vezes. E já foi a esta pergunta que os gregos responderam quando elegeram o Syriza. Eles deram a maioria a um partido que lhes garantiu que ia mandar no dinheiro dos outros. E isso não é possível. (...) não sei se Tsipras alguma vez quis negociar mas mesmo que quisesse muito francamente não podia. Uma negociação é um processo de cedências mútuas em que a vitória está no resultado (que para cúmulo só se vê daí a algum tempo) e não no fogacho de umas declarações tão imediatas quanto espampanantes.(...)
A fragmentação dos Syriza, Podemos, BE.. não acontece por acaso. São o resultado do excesso de egos e da falta de pensamento político desses agrupamentos que naturalmente ao primeiro choque com a realidade voltam ao seu estado natural: divididos e acusando-se de torpezas e traições. O Syriza, o Podemos ou o BE apregoam todos os dias a sua superioridade por enquanto movimentos serem uma alternativa aos velhos partidos. Nada mais falso. Eles são movimentos porque não conseguem ser partidos. Não têm líderes, não têm pensamento e não têm estratégia para tal.na verdade estes movimentos não passam de grupos, cada um deles a achar-se mais puro e mais revolucionário que os outros e o que nesta crise grega é crucial sempre prontos a acusarem os outros de terem traído, de se terem vendido… É portanto um tremendo erro esperar que movimentos como o Syriza, o Podemos ou o BE se comportem como partidos. (...)
Nesta crise grega houve de facto falta de experiência, de inteligência e de um partido que tivesse à frente um líder capaz de negociar logo ceder em muita coisa para ganhar outras. Não houve e daí o falhanço. (...)
E agora? Agora a vida tem de continuar seja qual for o caminho seguido pela Grécia. Mas que nos fique de emenda: não é possível, não é honesto e não é justo que o governo de um país da UE capture as atenções, o tempo e as energias das instituições europeias desta forma durante meses.
E eu mesma acabo este texto irritada comigo por ter perdido o meu tempo e o espaço desta crónica a escrever sobre uns gaiatos que não sabem o quanto custa ganhar a vida e não sobre aquele polícia espancado e esfaqueado numa “festa multicultural”. Azar o dele ser polícia. Se fosse gato ou doutor-activista de festas multiculturais o país estaria hoje verdadeiramente indignado. Assim não fosse o Correio da Manhã e quase nem se dava pelo assunto.
 
O que aí vem não faço ideia e, provavelmente, poucos farão. Temo que não seja nada de bom. Nem para os gregos, nem para ninguém. Mas que ao menos os que por cá defendem soluções facilitistas, percebam que o caminho é capaz de não ser bem esse...

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Uma rainha


Para o bem e para o mal somos sempre marcados por quem nos dá a vida. São os primeiros braços que nos abraçam e embalam, o colo que nos aconchega, a voz  e o olhar que nos ensinam o mundo e guiam o caminho. Habituamo-nos assim a um amor e apoio incondicionais e a um presença forte e serena, que julgamos poder durar para sempre, sem sequer pensar nisso.
Depois desentendemo-nos e discordamos, porque também há uma idade própria de ser assim.
Mas hoje sei a quem devo a maior parte do que sou, sei da honra e da dignidade a sobrepor-se aos inevitáveis erros a que ninguém escapa, porque somos humanos, falhamos e sofremos; sei da coragem de optar pela generosidade e a alegria, quando teria sido bem mais fácil cruzar os braços e desistir, ou escolher o caminho da amargura e do cansaço. Foi no bom humor, no riso e na limpidez dos seus olhos verdes que aprendi o lado bom de todas as coisas; e herdei essa vontade imensa de aceitar e aproveitar muito bem o que nos chega, como o que fazemos chegar.
Aos noventa anos, mesmo quando se é apenas uma sombra do que se foi um dia, perde-se a pose, o corpo verga-se, provavelmente sobram poucas memórias de um percurso muito longo e muito cheio, mas fica tudo o que se construiu e o reflexo do efeito que se provocou nos outros. 
Perdem-se os gestos e as palavras, mas ficam as emoções e os afectos, que transparecem ainda em olhares cúmplices e silenciosos, em risos fortuitos, em esboços de mimos, em prazeres simples e antigos: nas mãos que se tocam e se apertam, na delícia de saborear uma madalena, e em tudo aquilo que ainda nos mantém junto dos que amamos. E até talvez felizes...
Chegar aos noventa é só mais uma vitória. Por isso,  se pudesse, hoje coroava-a rainha. E concedia-lhe o dom da infinitude.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Contigo

 
Às vezes, no fundo dos olhos, no toque da pele, num riso, numa palavra, num gesto,  encontro ainda o encanto de um tempo que já não existe, ou se deixou modificar pela passagem dos anos.
E vem esta certeza de que seja lá o que for que esteja por vir, é demasiado forte o que nos prende um ao outro, que o teu abraço continua a ser o melhor de todos e que agarrada ao teu corpo poderia ir ao fim do mundo. Porque a vida é feita do que passa e do que fica. Nós ficamos. E eu estou contigo e tu comigo para sempre, na tranquilidade de um afecto tão fundo como uma certeza absoluta e na harmonia secreta de quem  também se entende em silêncio.

 

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Porque sim...


Sabrás que no te amo y que te amo
puesto que de dos modos es la vida,
la palabra es una ala de silencio
el fuego tiene una mitad de frío

Yo te amo para comenzar a amarte,
para recomenzar el infinito
y para no dejar de amarte nunca:
por eso te amo todavia

Te amo y no te amo como si tuviera
en mis manos la llave de la dicha
y un incierto destino desdichado.

Mi amor tiene dos vidas para amarte
Por eso te amo cuando no te amo
y por eso te amo cuando te amo.

                                                   Pablo Neruda


(E há também amores assim: duradouros, infindáveis, da vida inteira...)

terça-feira, 23 de junho de 2015

Vida Nova



Esta é agora a minha "casa", espaço lindo, enorme, que eu ainda mal conheço, um mundo quase novo e a vida a recomeçar. 
Foi na maior emoção que atravessei hoje a porta,  ansiosa e inquieta como quem chega à escola pela primeira vez. E senti que este é de facto um momento de viragem, que há um longo capítulo que se encerra finalmente, porque tudo tem um tempo certo de existir, que às vezes é mesmo preciso virar a página, e que tudo o que agora começa será decerto diferente.
Arrepia-me e apetece-me a novidade que aí vem. Para já é um sonho tornado realidade, um novo desafio, um caminho para se ir fazendo devagar, um bocadinho em cada dia. E eu sei que vai ser bom...