sexta-feira, 31 de julho de 2015

Supremacia



Entre nós nunca foram precisas muitas palavras, porque sempre foi pelos sentidos que melhor nos entendemos. E, ainda hoje, é nos teus olhos, no som da tua voz e nos momentos mais simples e perfeitos em que te tenho perto que me vem esta certeza de que seja o que for, venha o que vier, nada poderá igualar-te; e que para lá do que não tem qualquer valor ou importância é o essencial que permanece e faz sentido. 
Por isso levo-te comigo para onde for, ligado por um fio invisível e antigo que te ata ao meu peito e não se consegue quebrar, mesmo sabendo que nunca nada está garantido e que a vida pode a cada instante surpreender e modificar(se). 
Mas há na nossa história comum tantas alegrias e tristezas, profundas ou passageiras, tantas birras e amuos, tantas mágoas e risos, e ternura, e uma cumplicidade e afecto tão desmedidos, que foram crescendo pelo tempo fora, entre palavras ditas ou apenas adivinhadas, silêncios sublimes, preguiça e companhia, desafio e descoberta, que são agora aconchego e porto seguro, apego e confiança, que se deixa levar sem saber porquê, e pode até enfraquecer, mas não se desvanece, porque na  lógica serena do tempo que passa continua a ser luz, prazer e  felicidade.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Amores do passado


Tinham passado muitos anos. Nem queria fazer as contas para saber ao certo quantos seriam. Isso não lhe importava. Lembrava-se muito bem de quase tudo. Da amizade enorme, franca e genuína que existira entre eles. E daqueles amores desencontrados, como na Quadrilha de Drummond de Andrade: ela gostava dele, ele gostava de outra, que por sua vez gostava de outro, com quem casou. Eles não tinham casado um com outro, não tinham sequer chegado a ser namorados, mas falavam todos abertamente do que sentiam e de como o viviam. Eram felizes assim. Ela amara-o com loucura e com paixão, na ingenuidade de quem guarda em si todos os sonhos e ainda tem tudo para aprender. Conservara na cabeça, para sempre, o sorriso doce dele, que naquela altura lhe enchia o coração. E recordava os olhos escuros, enormes, o cabelo encaracolado onde tantas vezes quisera afundar as suas mãos, e as longas conversas em horas esquecidas, como se fosse eterno o tempo de estarem juntos e não houvesse mais mundo para além deles.
Lembrava-se sobretudo de umas férias da Páscoa que lhe tinham parecido o céu, passadas numa aldeia pequena do interior, de nome inteiramente em sintonia com a época pascal, e de como quase desfalecera de comoção na noite em que ele a tomou nos braços e encostaram os corpos e se deixaram embalar pela suave cadência da voz de Paul McCartney, que entoava yesterday, sem que ninguém pudesse adivinhar o turbilhão que lhe revolvia o corpo inteiro. E dos dias que passaram despreocupados, em risos e parvoíces, conversas sérias e confidências, silêncios e canções, cantadas em conjunto, ao som da viola, na alegria de estarem juntos e na confusão dos vinte anos. Nunca mais pudera esquecer de como então gostava de o ouvir cantar a noite passada, de como se derretia e deslumbrava quando o ouvia dizer: então tu olhaste / depois sorriste/ abriste a janela e voaste, mesmo sabendo que aquelas palavras não lhe eram dirigidas; e do beijinho de boa-noite que davam antes de dormir, e tantas outras pequenas coisas queridas que fizeram daqueles dias que viveram juntos o paraíso, tudo só pureza, emoção e sentimento, numa aldeia de nome doce, a saber a amêndoa.
Depois, o tempo e as voltas da vida afastaram-nos sem se saber quando nem porquê, como tantas vezes acontece mesmo com quem se quer bem; e até a amizade se perdeu pelo caminho. Vieram outros amores, mais concretos e carnais, apaixonados e intensos, felizes e infelizes, e aquele passado ficou arrumado num canto escuro e secreto do fundo do coração. Pouco soube do que foi feito dele entretanto.
Era estranho, por isso, (re)encontrá-lo agora, mesmo que fosse só virtualmente. De repente voltavam as memórias longínquas, adormecidas dentro de si, embora tudo fosse já muito diferente. Olhava-o na fotografia, grisalho, e apenas o sorriso era o mesmo de outrora. Às vezes pensava que gostaria de lhe falar, mas não saberia exactamente o que dizer, com tantos anos, e histórias, e vidas a separá-los, no eterno paradoxo feito de nostalgia e indiferença, fascínio e desencanto, e tudo o que é e não é, e se quer e não quer.
Agora já não adiantava pensar no que poderia ter sido se tivesse sido de outra maneira. Gostava de pensar que só acontece o que tem mesmo que acontecer. E agora, a vida tinha-lhe ensinado muita coisa. Por isso sabia que o tempo não volta atrás e que só o presente importa;  mas sabia, também, que os grandes amores deixam em nós uma marca que nunca se apaga; e que haveria de ter sempre por ele a mesma ternura um pouco pueril com que vivera aquela paixão aos dezoito anos.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

Memória(s) de infância



Descubro pela comunicação social que Bugs Bunny, o meu desenho animado favorito, que marcou a minha infância a ponto de escolher não comer coelho - lá em casa podíamos escolher não comer apenas um prato de que não gostávamos - e que é provavelmente responsável pela predilecção por coelhos que mantenho até hoje, fez setenta e cinco anos há dois dias. 
Não  posso, por isso, deixar de assinalar a data. Aqui fica, em jeito de homenagem a uma companhia de outros tempos...

terça-feira, 28 de julho de 2015

Canções da minha vida (XVII)


É-me difícil hierarquizar os gostos, mas posso dizer, sem exagero, que Caetano e Chico são nomes maiores da música brasileira, com lugar de destaque na história da minha vida. 
Com eles aprendi a gostar mais de música e de poesia; e a ver o mundo com outros olhos. É muita coisa, pois.
De Caetano poderia escolher quase todas as canções, que em algum momento, por isto ou por aquilo, me foram fundamentais. Hoje, escolho esta...

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Destempero


A professora que era uma cadela

Era uma vez uma professora que era uma cadela. Era um encanto vê-la com o filhote, apetecia fazer fotos, partilhá-las no Facebook e pôr likes. Cadela, a professora arranhou uns garotos e o tribunal decidiu matá-la. O Twitter, claro, reagiu e recolheu milhões de indignações: "Salvem a Teacher!"... Mas, na verdade, a professora não era uma cadela. Enganei-vos para chamar a atenção. Ela é só uma dessas professoras de duas pernas e por isso não teve nenhuma campanha no Twitter. Como ela era do tipo Homo sapiens, o nome deve ter-se-vos varrido. Ela chama-se Inês, 42 anos, e teve um ano tramado, 2012-2013: o marido foi embora, o pai morreu. Isso não serve de desculpa, mas de alguma explicação: ao contrário de todos os seus anos de currículo exemplar, naquele ano ela foi uma professora como não devia ser. Ela bateu nos seus alunos de 6 anos. Defino bater: bofetadas, carolos, coisas assim. E insultou: "Almôndega!" E praguejou: "Fónix." Errado para uma professora, como é (dando exemplo que as redes sociais entendem) errado que uma cadela arranhe. Mas daí a que a Inês apanhe seis anos de prisão efetiva é... é..., escolho a palavra certa: indizível. O bom senso não se explica. Seis anos de prisão. Efetiva. E o Twitter está calado. Há dois anos, o Twitter empolgava-se pela salvação do Zico, o pitbull que matou um bebé. Eu sei que ela é só uma mulher, mas não é possível ver na Inês um são -bernardo que se extraviou e fazer uma pequena campanha?

O artigo é de Ferreira Fernandeshoje, no DN, e aborda  um assunto que me parece de extrema importância, ou talvez ele me toque mais por se referir a uma realidade que conheço demasiado bem.
Que há professores que se excedem, a vários níveis,é um facto. Que tais atitudes devem ser denunciadas, corrigidas e sancionadas, se for caso disso, parece óbvio, de igual modo. E mesmo se quem está por dentro do que se passa hoje nas escolas (e não só nas públicas) tem a noção de como esta profissão vai sendo cada vez mais difícil, e desgastante, um professor não deve, ainda assim, bater nem insultar os alunos em nenhuma circunstância. Mas o inverso também não pode acontecer.
O que eu não entendo, e me espanta, é o alarde que a comunicação social fez à volta desta história e o branqueamento de tantas situações em que o o que se passa é exactamente o contrário, relativas aos vários tipos de violência contra os professores, muito mais recorrentes, e cujas  consequências têm uma gravidade igual ou até maior que esta. Seis anos de prisão efectiva é uma pena descabida e desproporcionada em si, e também face a tantas outros casos em que, com todo o tipo de desculpas e atenuantes, as agressões ficam  total ou parcialmente impunes.

domingo, 26 de julho de 2015

Boas surpresas


Tinha ouvido falar vagamente no filme, de cujo realizador, Victor Levin, não sabia nada. Imaginei-o  uma comédia romântica com todos os ingredientes típicos do género, o que para a tranquilidade de um noite de Verão pode servir. E depois havia Lambert Wilson no elenco, que não deixa de ser um bálsamo para os olhos. Corri o risco. E surpreendi-me. Afinal, até Glenn Close participa.
É um filme agradável, romântico naturalmente, mas que  ainda assim foge ao estereótipo; que aborda, embora ao de leve, outras questões: o pragmatismo da vida quotidiana e as relações de conveniência, o modo como o que vivemos se reflecte sempre de algum modo no que escrevemos, a nostalgia que fica diante do que não se repete, e por aí fora; que conta uma história de amor, simples (tanto quanto o amor pode sê-lo) e o faz de uma maneira convincente, interessante e bem humorada, que nos enternece  e põe bem-dispostos. Não será um filme marcante, mas há nele um certo charme que nos permite passar duas horas de forma absolutamente descontraída. E isso também é bom...

sábado, 25 de julho de 2015

Férias de Verão




O Verão é isto mesmo: uma bebida fresca na brisa do fim da tarde, o mundo todo em tons de  azul, mar e sol imoderadamente, e o tempo que passa mais devagar, sem pressas e sem horas marcadas, na quietude serena da vida que abranda e, preguiçosa, se deixa embalar.