sábado, 18 de outubro de 2014

A meter água...


O assunto já foi amplamente discutido, eu sei, mas não resisto. Porque ontem li no jornal um artigo de Paulo Pereira de Almeida chamado "António Costa: a serena incompetência", que me parece dizer de forma clara o que também para mim é óbvio, embora haja quem prefira não o querer ver.
Diz assim:

As recentes afirmações de altos responsáveis da Câmara Municipal de Lisboa (CML) sobre as inundações em vários pontos centrais da cidade constituem - em si mesmas - uma ameaça à segurança e à garantia de uma ação eficaz da parte da Proteção Civil.
E foi com uma enorme surpresa e incredulidade que pudemos, na passada terça-feira desta semana, assistir a um conjunto de "esclarecimentos" de diferentes dirigentes da CML que apontavam - de um modo certamente concertado - para a "inevitabilidade" da ocorrência de acumulações massivas de água da chuva na capital portuguesa. Foi assim que - de uma maneira que é bem reveladora da sua serena incompetência - o presidente da CML e atual líder do Partido Socialista (PS) António Costa surgiu nos principais meios de comunicação social a admitir que "nada" pôde, poderia, ou poderá, vir a ser feito para evitar a repetição do caos em segurança urbana e proteção civil que Lisboa viveu na passada segunda-feira.
Ora acontece que - para além de serem profundamente preocupantes -, as afirmações de António Costa só podem deixar muito intranquilos todos os que habitam, trabalham, circulam e vivem a cidade. Vejamos - pois - de uma maneira mais concatenada, as razões de preocupação para cada um destes grupos de cidadãos. Em primeiro lugar, e para os que trabalham e comutam todos os dias entre as suas casas (muitas vezes fora de Lisboa) ficámos a saber que - em caso de chuvas fortes e de outras intempéries - não está garantido que consigam aceder ao seu local de trabalho ou regressar a sua casa depois do trabalho; será, a todos os títulos e ironicamente, uma espécie de "greve self-service" sem hora marcada dos potenciais transportes, o que só encontra paralelo em cidades do terceiro mundo. Depois, em segundo lugar, e para os que fazem das ruas de Lisboa o seu local de comércio e que já vivem atualmente sobrecarregados de impostos e numa enorme crise, ficámos a saber que a CML nada lhes garante em termos da segurança e da proteção dos seus bens e dos seus espaços comerciais; ora para o presidente da maior autarquia do País (e agora candidato a primeiro-ministro) só poderá ser contraditório defender os mesmos comerciantes quando se trata de lhes pedir o voto e agora, no momento em que se adivinham outras ambições, deixá-los à sua sorte. Por fim, em terceiro lugar, e para os turistas e todos os que circulam e vivem a cidade de diversas formas e em diferentes condições sociais, ficámos ainda a saber que Lisboa tem um presidente que nada faz (ou, pelos vistos, fará) para garantir a segurança de circulação e a preservação dos espaços públicos. É que - note-se bem - se com uma chuvada intensa mas curta Lisboa fica transformada no caos que se pôde observar na segunda-feira, nem quereremos imaginar o que poderá suceder com uma verdadeira tempestade, ou com um potencial nevão.
António Costa é um político de uma escola que - aparentemente - não olha a meios para atingir os seus fins. Para quem tem memória política, ainda se recordará dos tempos em que Costa era ministro da Administração Interna e prometia que os registos das câmaras de videovigilância nas estradas serviriam como prova para punir as infrações dos condutores; e também se lembrará de quando, já presidente da CML, Costa não hesitou em colocar em causa o trabalho do seu colega de governo do PS Rui Pereira, então ministro da Administração Interna, em nome de uma Lisboa mais segura.
Ironias à parte, merecíamos melhor como candidato a futuro primeiro-ministro.
 
 
Mas, segundo consta, na próxima semana volta o sol e o calor, pelo já ninguém pensa nisto, até porque a segurança, como outras coisas, é assunto que só nos preocupa depois da(s) catástrofe(s).

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Incerteza(s)


Para um amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo de algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra, quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

                                               
                                                                          António Ramos Rosa

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Banalidades dos dias


Virei a mesa de trabalho de frente para a janela, para poder ir olhando a rua quando levanto os olhos do que me ocupa e absorve, que se me concentro a sério posso até esquecer-me que o mundo existe.
O vício, trouxe-o agarrado ao corpo dos últimos quatro anos, dias inteiros a olhar a Praça de Alvalade até lhe conhecer o mais pequeno recanto e todos os cambiantes de luz e de cor na passagem das horas. E de imaginar as vidas de quem apressada ou demoradamente passava lá em baixo, adivinhando percursos e histórias que jamais poderia confirmar nem desmentir e não eram senão puro exercício da imaginação, de imediato esquecidas. Outras vezes nem chegava a fixar o olhar;  deixava-o à solta, a deambular vadio e indolente pela rua e pelo céu fora, fantasioso e disperso, enquanto os ruídos da cidade e dos aviões, em constantes chegadas e partidas, me sossegavam e me levavam para longe, no doce embalo do sonho.
A minha rua de agora já não é como a Praça de Alvalade, e o que vejo da minha janela é muito mais silencioso e quieto. Mas o hábito instalou-se, permanece igual.
E hoje, enquanto olhava distraidamente quem passava lá fora, lembrei-me desta canção de Brassens:

Je veux dédier ce poème
À toutes les femmes qu'on aime
Pendant quelques instants secrets,
À celles qu'on connait à peine
Qu'un destin différent entraîne
Et qu'on ne retrouve jamais.

À celle qu'on voit apparaître
Une seconde à sa fenêtre
Et qui, preste, s'évanouit,
Mais dont la svelte silhouette
Est si gracieuse et fluette
Qu'on en demeure épanoui.

A la compagne de voyage
Dont les yeux, charmant paysage
Font paraître court le chemin
Qu'on est seul, peut-être, à comprendre
Et qu'on laisse pourtant descendre
Sans avoir effleuré la main

(...)

Chères images aperçues
Espérances d'un jour déçues
Vous serez dans l'oubli demain
Pour peu que le bonheur survienne
Il est rare qu'on se souvienne
Des épisodes du chemin

(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

O último Resnais


É um filme que vale a pena ver. Não apenas por ser o último filme de Alain Resnais, estreado poucas semanas depois da sua morte, em Março deste ano. Nem por Resnais ser um realizador incontornável, obrigatório para quem, como eu, gosta de cinema e muito especialmente de cinema francês.
Aimer, boire et chanter é um filme que adapta uma peça de teatro (Life of Riley) de Alan Ayckbourn, como já acontecera com Smoking/No Smoking, por exemplo, situando-se por isso entre o teatro e o cinema num processo de mise en abyme, e jogando sempre com a dualidade entre a ficção e a realidade, o passado e o futuro, a vida e a morte.
Tem excelentes diálogos interpretados com humor e subtileza, mas também com uma intencional ausência de naturalidade pelo leque de actores habituais nos seus filmes, como Sabine Azéma, André Dussolier, Caroline Sihol, Hyppolyte Girardot e outros.
Mas tem muito mais: a peculiaridade de a personagem principal, à volta da qual gira toda a história, nunca chegar a ser vista. E as habituais inquietações artísticas de Resnais, como a questão do tempo, que está sempre presente e se manifesta  no filme de várias maneiras.  (É genial a questão das pausas, enunciada pelas personagens de Kathryn e Colin, por exemplo...)
Eu gostei muito. E, como diria um amigo meu: ide ver, pois -  e dizei-me se tenho ou não razão.... 

sábado, 11 de outubro de 2014

A alegria das pequenas coisas


Ir ao cinema é um dos meus grandes prazeres. E tenho uma predilecção especial pelo cinema francês.


sexta-feira, 10 de outubro de 2014

O Prémio Nobel


Nunca liguei muito ao Prémio Nobel, que sempre me pareceu muito mais baseado em critérios políticos do que outra coisa qualquer. E não é apenas por o único nome da literatura portuguesa que até agora foi distinguido com esse galardão ser um escritor que eu considero menor, ou pelo menos muitíssimo inferior a outros nomes que, quanto a mim, o mereceriam muito mais, para dizer o mínimo.
Desta vez, confesso a minha total ignorância. Nunca li Patrick Modiano, apesar de conhecer  razoavelmente a literatura francesa. Pior: nunca ouvira falar dele.
Mas afinal, verifico que há quem pense mais ou menos como eu. Maria Alzira Seixo, a cuja opinião dou sempre muito valor, disse isto:
JEAN ÉCHENOZ é o maior romancista francês vivo - lamento, estimados colegas do Comité Nobel... Além disso, e para só dar um exemplo, a literatura portuguesa actual é muito mais rica que a francesa. E não é bem uma opinião: uma vez que trabalho de perto com ambas, considero que é um facto.
Também no DO, encontrei hoje um texto de Rui Herbon, com o qual concordo. Aqui fica uma passagem: 
Talvez isto dos prémios não seja assim tão importante (...) quem se recorda hoje os senhores Mommsen, Mitral, Spitteler, Rolland e Sillanpää? Quem me sabe dizer se o prémio foi concedido a Galsworthy ou Gawsworth e qual a especialidade do dito premiado? E o que dizer da lista dos não premiados, que inclui nomes como Proust, Conrad, Joyce, Musil ou Borges? Na realidade a academia sueca parece cometer erros iguais ou semelhantes aos de qualquer júri de província, e não receber esse prémio, para um grande escritor, talvez seja uma honra muito maior.
E é isto!...

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Inevitabilidade(s)

 
(...)
Et la vie sépare ceux qui s'aiment
Tout doucement sans faire de bruit ...
(...)
                                                     
                                                         (Jacques Prévert)


 
(Fotografia de mfc, do blog Pé de Meia)