domingo, 9 de novembro de 2014

Outono em pleno

 
Agora já é a sério: este fim de semana o Outono instalou-se por inteiro com o Natal no horizonte  a querer sobrepor-se-lhe na exuberância de luzes e enfeites que anunciam a festa por antecipação.
Há qualquer coisa de irremediavelmente poético e aconchegante nos dias  a saber a tangerinas, a nozes e a torradas com requeijão e marmelada, no friozinho cortante que nos atravessa a pele e chega até aos ossos, na mudança das roupas leves para roupas quentes e macias, ou nos dias demasiado curtos, de noites enormes, a reclamar bebidas quentes, corpos tapados e abraços embrulhados em ternura.
E eu, que às vezes corro demais e vivo de cronómetro pendurado ao peito, ou quase, páro de vez em quando para olhar as cores quentes do Outono ou a doce melancolia dos dias chuvosos, e para lhe sentir profundamente todos os cheiros.
Mas é no fundo dos olhos verdes da minha mãe que melhor aprendo o vagar dos dias.
 



sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Retorno


Eu, que sou desde sempre uma apaixonada pelas palavras, pelo que elas significam e pela incomensurável distância a que ficam do que só se sente sem se conseguir dizer, sei bem que há emoções verdadeiramente difíceis de descrever, mas que também não podem calar-se, nem quando as palavras parecem ter fugido todas para muito longe, ou situar-se demasiado aquém da comoção que as antecede. Foi mais ou menos o que me aconteceu ontem.
Quem é professor há muito tempo, como eu, sabe que na escola, tal e qual como na vida, há quem  passe por nós sem deixar marca e quem por alguma razão se relembra sempre com agrado. Que há alunos verdadeiramente detestáveis, outros muitos queridos, e outros ainda com os quais é possível criar laços que perduram.
Ontem, fiz uma coisa que nunca tinha feito. Recebi na minha sala de aula uma dessas antigas alunas com quem nunca se perde o contacto, porque a empatia e a cumplicidade se mantêm, mesmo de outra maneira e passados mais ou menos dezassete anos.
A Ana Filipa Nunes, que hoje é jornalista, aceitou o meu desafio de ir conversar com os meus alunos de agora sobre alguns dos livros que a marcaram e sobre a sua vida profissional.
E o que o se passou naquela sala de aula durante noventa minutos foi para mim uma emoção totalmente inexprimível. A menina que eu conhecera outrora, que na época fizera parte das minhas equipas do jornal e da rádio da escola, estava outra vez na minha aula, mas a explicar aos que têm a idade que ela tinha então que ler é fundamental, o que pode haver de bom e de mau na profissão que escolheu, a importância de se gostar do que se faz e o trabalho que implica chegar onde queremos, a aceitação de maneiras de pensar e de sentir diferentes das nossas, e tantas outras coisas que ela entendeu dever dizer. Com a mesma paixão e entusiamo de antigamente, ampliados e modificados pela(s) experiência(s) que a vida lhe trouxe.
Enfim, esta foi uma tentativa de levar os meus alunos a entender  que ler pode ser bom e tornar-nos mais capazes e mais preparados para a vida. O primeiro round não podia ter corrido melhor. E foi quase  uma espécie de retribuição, que me faz acreditar que apesar de tanto trabalho a ver testes e de tanta hora gasta em muita coisa considerada inútil,  no fundo, se calhar, tudo isto vale a pena e faz sentido. O que vi e ouvi ontem fez-me sorrir de felicidade; e de orgulho também, um bocadinho.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Pensamentos em cadeia

 
Hoje ao ler noutro blog um post de que gostei muito, lembrei-me de Vinícius e do seu magnífico "Soneto da Fidelidade". 
E esta é para mim, justamente, uma das coisas boas da blogosfera: tudo o que nos sugere e faz pensar, as memórias que evoca, o que desperta em nós, a descoberta de muita coisa nova e de outras maneiras de olhar o mundo e a vida.
Tenho amigos que continuam a não compreender muito bem que eu possa achar  isto interessante e que ainda me falam em "excessos de exposição" e nos "perigos do desconhecido," mas começam a desistir quando eu explico que, apesar do lado bom e mau que há em tudo, o que encontro por aqui todos os dias também me enriquece e me ajuda a viver melhor. 
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)
 

terça-feira, 4 de novembro de 2014

O livro do Camarneiro

 
Até há cerca de duas semanas, conhecia-lhe apenas o nome. Camarneiro, como Mouzinho, é um apelido pouco comum. Sabia que tinha sido o vencedor do Prémio Leya 2012, mas nunca me interessei muito por lê-lo. Na verdade, pode ser preconceito meu, mas não ligo nenhuma a este tipo de galardões, desconfio sempre de ascensões mais ou menos meteóricas e amplamente mediatizadas e irrita-me sobejamente o grupo Leya e a sua visão algo mercantilista da literatura. Admito, enfim, que em tudo isto possa haver um pouco de exagero meu.
Seja como for, por circunstâncias que não vêm ao caso, conheci o Nuno Camarneiro em carne e osso. E foi uma agradável surpresa. Gostei de o ouvir e de lhe conhecer o percurso mais ou menos sinuoso, de perceber que era inteligente, bem humorado e nada convencido. Fiquei cheia de vontade de o ler, para ver até que ponto o que escrevia era tão interessante como o que dizia. Apressei-me a comprar o livro. Tinha dois. Escolhi o que fora premiado.  Comecei há pouco tempo mas, até agora, não me desiludi. Gosto da sua escrita simples e clara, que nos prende às palavras e faz querer ler mais.
Hoje, sem mais nem menos, levei o livro comigo. E no final de um aula peguei nele e contei aos alunos isto tudo. Quem era Nuno Camarneiro, como o tinha conhecido e decidido começar a ler, como estava a gostar, apesar de ser ainda o início. Depois abri o livro e comecei a ler-lhes. Ouviram num imenso silêncio uma parte do capítulo chamado "a voz do narrador", que apresenta os diferentes moradores do mesmo prédio. No fim,  perguntaram-me onde é que eu tinha comprado o livro, quanto custava e saíram a dizer que parecia ser " bué da fixe".
E eu fiquei a pensar que estas coisas de ler e fazer ler são quase sempre muito mais simples do que às vezes imaginamos. Para quê complicar?
 
(...)
O prédio, como outros, tem sons e movimentos próprios de um organismo. Uma janela que bate, vozes que viajam pelos canos, o estalar de madeiras que se adaptam ao tempo, os talheres nos pratos à hora das refeições, os autoclismos, música que atravessa as paredes perdendo sons e ganhando outros, o motor do elevador cansado de carregar gente.
Quando o elevador se põe em movimento, há quem se agite com ele. (...)

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Amor(es) de sempre

Sou de amores resistentes e mais ou menos assolapados. O francês é, das línguas que conheço, a minha língua do coração. Não sei explicar muito bem porquê. Não apenas por ter sido a primeira língua estrangeira com que tive contacto. É por uma razão mais funda. Há nela uma sonoridade que me toca de um modo particular e que me faz considerá-la a mais bonita de todas, ao contrário da maior parte das pessoas que tem tendência a preferir o italiano, para mim demasiado adocicado.
Tenho a sensação de a saber desde sempre, se bem que isso não seja exactamente verdade. Mas aprendi-a ainda antes de a aprender, porque a minha irmã começou antes de mim. E eu gostava tanto de ouvir aquelas palavras estranhas, que me soavam bem mesmo sem lhes conhecer o significado, que me entretinha a decorar textos do livro dela, que começava, ainda me lembro: Pierre est à la porte de la sallle de classe. Il frappe. Il ouvre la porte... ou, mais adiante, de aprender a dizer isto sem fazer  a mínima ideia do que dizia, mas que nunca mais esqueci:
Demain, dès l'aube à l'heure où blanchit la campagne
je partirai. Vois -tu je sais que tu m'attends
j'irai para la forêt, j'irai para la montagne
Je ne puis demeurer loin de toi plus longtemps.
Isto, soube-o muito depois, é Victor Hugo, que eu não fazia a coisa por menos...
Já adolescente, por coincidência, ou talvez não, grande parte dos meus amigos andavam no Charles Lepierre. Nessa altura, convencidos de que haveríamos de mudar o mundo e com a cabeça e o coração cheios de sonhos e de utopias várias, conhecíamos e cantávamos com fervor todas as canções de Moustaki, de Brassens, de Reggiani, Ferré e companhia, que sabíamos de cor,  mas cujas letras eu insistia em escrever na minha letra pequena e redonda nos famosos  "cadernos de canções", forrados de tecido e religiosamente guardados, anos a fio.
Hoje, a língua francesa faz quase parte de mim, trato-a por tu, e vivemos na mais absoluta intimidade. Não é a minha língua, mas diria que sou capaz de pensar, rir, chorar ou emocionar-me em francês, por mais estranho que possa parecer.
Trago comigo outros amores assim, intemporais e da vida toda, alguns mais secretos que outros. E em momentos de excesso de sentimentos, seja tristeza ou alegria, não é raro pensar num poema, ou numa canção. Em francês, pois claro. Hoje, foi isto:
Venise n'est pas en Italie
Venise c'est chez n'importe qui 
C'est où tu vas
C'est où tu veux
C'est l'endroit où tu es heureux
Venise n'est pas là où tu crois
Venise aujourd'hui c'est chez toi
Faites l'amour dans un grenier
Et foutez-vous des gondoliers...
(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

domingo, 2 de novembro de 2014

Verso e reverso


 
Há lugares por onde apenas passamos e outros que ficam connosco para sempre, tal como há amores que marcam e que permanecem, que existem para lá de todas as palavras e de todos os silêncios, no olhar, no toque, na respiração, nas pausas, nas voltas do tempo e do caminho, como uma condenação que é também redentora, prazer e mágoa, desilusão e felicidade, desejo imoderado e incerto, proximidade e distância, princípio e fim.


sábado, 1 de novembro de 2014

À deriva...


Quando  alguém conta um dia ou uma vida está a calar quase tudo, as vidas são imensas e não se podem contar só por palavras. Haveria que inventar artes de encher silêncio e de descobrir nele o peso certo do que somos. O que se é só se pode encontrar no que não é dito (...)
 
Nuno Camarneiro

(Fotografia de Maria Cristina Guerra)