domingo, 8 de fevereiro de 2015

Alice


Desconfio sempre um bocadinho dos filmes em cuja tradução do título se perde o essencial do que ele contém em si. É o caso de "O meu nome é Alice" para um original que se denomina Still Alice.
Mas em muitos outros aspectos ele fica aquém do que seria expectável.
É um filme duro, porque a sua temática acaba de alguma maneira por nos dizer respeito a todos. E por isso nos emocionamos ao vê-lo. Não é, no entanto, um grande filme. Falta-lhe ritmo e profundidade. Salva-o a interpretação de Julianne Moore, sempre fantástica, e aqui séria candidata ao Óscar para o qual está nomeada; salvam-no, em particular, algumas cenas como o discurso na Associação de Doentes de Alzheimer e todas aquelas em contracena com Kristen Stewart, que são talvez as mais credíveis.
Ao ver este filme não pude deixar de recordar outro, que vi há cerca de dois anos e que é, esse sim, um verdadeiro "murro no estômago". Ao contrário deste, é um grande filme; e por isso é inesquecível. Falo de Amour e das extraordinárias interpretações de  Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva, que nos mostram de uma maneira verosímil e perturbadora o lado mais desconcertante  e desconfortável do que pode ser o fim da vida, quando se perde  a autonomia e a dignidade.  Por comparação, Alec Baldwin (sempre demasiado perto da mediocridade) na sua negação da realidade fica anos luz de  Isabelle Huppert.
Ainda assim, eu diria que vale a pena ir ver a Alice. Julianne Moore merece isso...

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Canções da minha vida (II)


 
Na minha vida, há muita música francesa. Quando "descobri" este disco de Ferrat com poemas de Aragon fiquei imediatamente rendida à voz, à beleza dos textos, e à fantástica junção das duas coisas.
Mesmo se, na altura, ainda nem sabia bem o que era o amor...
Mais tarde, este disco e esta canção, em particular, fizeram-se-me muito mais especiais. Quase como um hino. 
Afinal, há sempre quem nos faça ver o mundo e até nós mesmos de uma outra maneira. Esses são os que nos tocam e, ainda que deixem de fazer parte da nossa vida, marcam-na para sempre.
 
E porque o texto é lindíssimo, ele aqui fica, também:

Que serais-je sans toi qui vins à ma rencontre
Que serais-je sans toi qu'un coeur au bois dormant.
Que cette heure arrêtée au cadran de la montre.
Que serais-je sans toi que ce balbutiement.

J'ai tout appris de toi sur les choses humaines.
Et j'ai vu désormais le monde à ta façon.
J'ai tout appris de toi comme on boit aux fontaines
Comme on lit dans le ciel les étoiles lointaines.
Comme au passant qui chante, on reprend sa chanson.
J'ai tout appris de toi jusqu'au sens du frisson.

J'ai tout appris de toi pour ce qui me concerne.
Qu'il fait jour à midi, qu'un ciel peut être bleu
Que le bonheur n'est pas un quinquet de taverne.
Tu m'as pris par la main, dans cet enfer moderne
Où l'homme ne sait plus ce que c'est qu'être deux.
Tu m'as pris par la main comme un amant heureux.

Qui parle de bonheur a souvent les yeux tristes.
N'est-ce pas un sanglot que la déconvenue
Une corde brisée aux doigts du guitariste
Et pourtant je vous dis que le bonheur existe.
Ailleurs que dans le rêve, ailleurs que dans les nues.
Terre, terre, voici ses rades inconnues.
                                                                               (Louis Aragon)


sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Dependência(s)


Sou pouco dada às tecnologias, digo-o e repito vezes sem conta. Reconheço-lhes o lado prático, a rapidez e os seus múltiplos benefícios. Não sou muito entendida no assunto, sei apenas o essencial para aquilo em que preciso delas, com muitos "disparates" pelo meio, alguns quase hilariantes.
E depois, adoro escrever à mão, compro o jornal todos os dias, só leio livros em versão papel. No entanto, quando as tecnologias me "falham" fico num inexplicável desnorteio, como se faltasse alguma coisa fundamental.
Foi o que aconteceu há dois dias, quando o computador novo resolveu "passar-se" e tive de ficar vinte e quatro horas sem ele. Na verdade, nem cheguei a perceber exactamente o que se passou, vírus ou avaria técnica, pouco me importa. Alegro-me de o ter aqui outra vez, como se não se tivesse passado nada.
É o que acontece também quando se me avaria a televisão (o que é raro, graças a Deus!); nesse caso, então, é ainda mais ridículo. É que vejo muita pouca coisa, quase nada. Mas gosto de a ter ali, nem que seja desligada, ou sem som, como acontece na maior parte das vezes...
Na verdade, tenho que reconhecer que sou muito mais dependente desta tralha toda do que gosto de admitir (não seremos todos?) e de vez em quando ocorrem estes episódios, que parecem mesmo "ironia(s) do destino".

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Canções da minha vida (I)


Há quem diga que para cada momento há sempre uma canção. Eu concordo. E há muitas, muitas canções que, pelos mais diversos motivos, fazem parte da minha história. Esta é apenas uma delas.

Bem me parecia...


Não será por acaso que aquela velha máxima do "deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer" sempre me pareceu um tremendo disparate. 
Sempre fui de dormir muito (ainda sou!), mas também de me deitar tarde. Mesmo nos velhos tempos do "recolher obrigatório" lá em casa, em que tínhamos de ir para a cama às nove e meia e nada nem ninguém podia alterar essa regra, eu e a minha irmã conseguíamos encontrar mil e uma maneiras de nos manter acordadas para lá do que nos era permitido e usávamos a nossa imaginação a engendrar os mais criativos planos de fazer da noite uma aventura à medida da nossa ingenuidade infantil.
Hoje, continuo a ir madrugada fora facilmente, e nos dias em que tenho que me levantar cedo - que são quase todos - acabo por dormir um pouco menos do que preciso. E por me "vingar" aos fins de semana, tentando recuperar o sono perdido. E nas férias, também!
Mas, pelos vistos, agora está tudo explicado...

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

O tamanho dos dias


Dizem que os dias têm todos vinte e quatro horas, mas essa é uma verdade em que não é fácil acreditar. Porque quando os vivemos são todos diferentes, e enquanto uns passam depressa demais, há outros que parecem nunca mais acabar.
Mas até no fim dos dias mais compridos, quando o cansaço ou o desânimo vão tomando conta do que sobra de nós, pode sempre haver o que nos resgata e nos devolve a beleza do mundo, através de qualquer um dos nossos sentidos, de todos misturados, ou na mais pura ausência, quando tudo é só silêncio apaziguador.

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

domingo, 1 de fevereiro de 2015

A magia dos afectos


Há um mistério qualquer que nos faz aproximar de algumas pessoas e de outras não, que faz os amigos recentes parecerem amigos de há muito, que transforma cada encontro num momento de festa, que apaga todos os silêncios e distâncias.
O que leva um grupo de pessoas que podem ter  diferentes idades e pertencer a diferentes áreas profissionais a reunir-se numa fria noite de inverno à volta de uma mesa e passar horas a conversar, estreitando os laços que as unem sem sequer se aperceberem, ou sem que isso tenha que ser dito é certamente esse lado inexplicável e incompreensível das amizades, que as torna mais bonitas e especiais, mistura de afecto, conforto, empatia e bem-estar, de cumplicidades crescentes e de sentimentos irredutíveis a palavras. São afinidades e gostos comuns, são muitas semelhanças, diferenças e emoções que nascem não se sabe onde nem como, com o bom humor e a alegria  de estar juntos e, simplesmente, gostar disso. 
É nessa magia e encantamento que se vai consolidando a amizade, que surge por uma casualidade qualquer mas mais parece destino,  e que cresce devagar e em subtileza, entre o que calamos e o  que nos vamos contando, entre  descobertas apenas intuídas e intimidades partilhadas, e nos enche a alma e o coração, porque é a naturalidade genuína de rirmos, conversarmos, pensarmos, emocionarmo-nos, comermos e bebermos, enternecermo-nos, olharmo-nos, abraçarmo-nos,  que torna  tão boa, tão bonita e feliz, e única, também, cada vez que estamos juntos. 
E é das melhores coisas da vida...