sábado, 28 de fevereiro de 2015

Confiar

 
Lera, já não sabia onde, que a sabedoria suprema está na forma como se vive a vida. Sempre confiara na sua intuição e assumira as suas escolhas, as boas, as más e as que não deixam mossa nem cicatriz; talvez por isso, o número assustadoramente grande dos que via preferir qualquer coisa ao temor de se acharem a sós consigo mesmos continuava a surpreendê-la e a intrigá-la, por mais que tentasse convencer-se que eram infinitas as possibilidades de encontrar o bem-estar e ser feliz.
Sempre gostara de pessoas controversas, enigmáticas, de almas inquietas e corações sobressaltados, e os homens mais misteriosos e complexos haviam-lhe sempre parecido os mais apaixonantes e  sedutores. Logo, os amores fáceis e lineares não a atraíam, não a entusiasmavam e não lhe aconteciam nunca. E por muito que em instantes de fragilidade exacerbada lhe apetecesse ter quem tomasse conta de si, sempre prezara a sua liberdade e, com o tempo, aprendera a encontrar o equilíbrio e a serenidade entre a solidão e a companhia, que a fazia deixar-se ir ao sabor de momentos e vontades, sem pressa, sem medo, sem amarras, entregando-se inteira ao que o amor tem de melhor quando ele surge imponente e grandioso, sobrepondo-se a tudo.
Gostava da sábia mistura de paixão e racionalidade, de mãos grandes e braços fortes, ou então nada disso importava; bastava aquele não sei quê que faz de certos momentos uma urgência de prazer e rendição. E eram sempre os olhos que a faziam perder-se, quando no fundo de outros olhos via a magia, a doçura e a ternura que valem a vida toda e que, na maior simplicidade, tornam os dias de estar juntos dias bons.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Um filme a ver e um post "roubado"


Preparava-me para escrever a minha opinião sobre este filme singular, "Relatos Selvagens", quando percebi que a Helena já se me tinha antecipado. E concordo tanto com ela, que não resisto a copiar-lhe o post na íntegra:

Dirigido por Damian Szifron o filme é dividido em seis episódios. Todos são muito bons. E, do meu ponto de vista, três são mesmo excepcionais.
O filme começa de forma brilhante, com um curto episódio passado num avião, que é uma história rápida, inteligente, envolvente e com um final extraordinário.
No seguinte, deparamo-nos com uma jovem empregada de um restaurante de beira de estrada, que recebe a visita de um homem que acabou com sua família, mas que a não reconhece.
Depois temos um episódio sobre dois sujeitos que se encontram no meio da estrada e se desentendem por causa de uma ultrapassagem.
O outro é sobre um pai rico que tenta livrar o filho de ser preso pelo atropelamento de uma mulher grávida.
O penúltimo relata a "estória" de um homem comum que vê o seu carro injustamente rebocado e é obrigado a pagar uma taxa e uma multa.
O último mergulha numa festa de casamento, que é muito bem filmada e que conta com uma atuação espetacular de Erica Rivas a lembrar-nos as mulheres de Pedro Almodovar.
Dito assim, parece uma manta de retalhos. Não é. Muito longe disso. Trata-se, sim, de sucessivos relatos sobre o que pode um ser humano fazer sob o efeito da raiva, mas contados com um subtilíssimo sentido do humor e cuja pegada social, tão característica deste realizador, está bem evidente.
Um dos principais méritos de Relatos Selvagens está no facto espantoso de não haver qualquer quebra de ritmo entre todos os episódios.
Damián Szifron é considerado por muitos uma espécie de Quentin Tarentino da Argentina. Não só por utilizar a violência, muitas vezes gráfica, em prol do humor, mas também pelo uso preciso da banda sonora na construção do clima.
Uma película para se rir e se divertir. Muitíssimo!  
 
Ao ver este filme é impossível não lembrar um outro filme argentino, El secreto de sus ojos - inesquecível, apesar de ser já de 2009 - que, sendo de outro realizador, tem em comum com este o mesmo protagonista, Ricardo Darín, e o tema da vingança, que é aqui uma espécie de leitmotiv mais ou menos presente em todos os episódios.
Sem quebras de ritmo, ou desnivelamentos na qualidade dos seis episódios (Pasternak; Las Ratas; El más fuerte; Bombita; La propuesta; Hasta que la muerte nos separe), o filme consegue uma surpreendente unidade no tratamento do insólito que pode haver em pequenas circunstâncias do quotidiano e levar assim ao descontrolo das situações, abordando-as no seu dramatismo, tensão, romance ou o que quer que seja sempre com o humor como pano de fundo.
Os críticos do costume ignoraram o filme, ou trataram-no menos bem, apesar de ter recebido o Goya do melhor filme estrangeiro e estar nomeado para o Óscar da mesma categoria.
Mas, na verdade, ele faz-nos passar duas horas muito divertidas, rindo a bom rir. No meio de tanta tristeza e/ou desgraça, já fazia falta...

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Quase...


Le carnaval s’en va, les roses vont éclore ;
Sur les flancs des coteaux déjà court le gazon.
Cependant du plaisir la frileuse saison
Sous ses grelots légers rit et voltige encore,
Tandis que, soulevant les voiles de l’aurore,
Le Printemps inquiet paraît à l’horizon.

                           
                                                          (Alfred de Musset)

Mal se anuncia a chegada da Primavera e já se me enche o coração de alegria, como se com o seu colorido berrante, os cheiros intensos e a luz brilhante viesse também a possibilidade de tudo poder (re)começar.
Daqui a uma semana, ou até menos, voltam os melros a cantar na minha janela ao alvorecer e regressa o tempo da felicidade, sempre diferente, renovada...

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Canções da minha vida (V)

 
Goste-se ou não, para quem tem mais ou menos a minha idade as canções do filme The sound of music ("Música no Coração, em português e - pior ainda - Lágrimas y Sonrisas, em espanhol) marcaram a nossa infância e até um pouco para além dela, nem que fosse porque passava repetidas vezes na televisão, especialmente na tarde do dia de Natal.
Lançado a 2 de Março de 1965, o filme celebra este ano, e em particular por estes dias, as "bodas ouro" prevendo-se todo o tipo de comemorações, nas quais não faltarão as canções que todos conhecemos de cor.
Ouvi-las ontem cantadas por Lady Gaga foi uma inesperada e agradável surpresa, naquele que terá sido, provavelmente, um dos momentos altos da cerimónia dos Óscares deste ano.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Vou ali e já venho...


Há ruas, praças e jardins que são do mundo e são a nossa casa, onde precisamos às vezes de nos perder, para nos voltar a encontrar.
No fundo é tudo muito simples: basta pousar os olhos na serenidade de um rio, deixar-se envolver na harmonia circundante, encher o peito de ar e o coração de paz,  reconciliar-se com o mundo e com a vida. E há cidades que parecem estar sempre à nossa espera...
A minha, de agora, cheira a flor de laranjeira, é alegre, fresca, rumorosa e verdejante, tem a graça e a elegância dos cavalos a desfilar, uma luz penetrante e um encanto peculiar; e seduz-me; e faz-me feliz...



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sedução


Pour ce rien, cet impondérable
Qui fait qu'on croit à l'incroyable
Au premier regard échangé
Pour cet instant de trouble étrange
Où l'on entend rire les anges
Avant même de se toucher...

Quanto no amor e no afecto é destino ou mero acaso, que  força inexplicável, aliciante e incompreensível nos empolga e impele para certas pessoas que nos atraem e fascinam mais que outras?
Há um encanto especial no inesperado e incerto que chega à nossa vida sem se anunciar, como uma inevitabilidade que atrai e assusta com o que encerra em si de ímpeto, de expectativa e de vontade, que é pressa e é vagar, na volúpia de tudo ainda por acontecer, na emoção enternecida dos olhos presos noutros olhos em arrebatado langor, e a cabeça a mil à hora imaginando o que se quer fazer, as distâncias mais curtas na antevisão de uma intimidade há muito ansiada ou de súbito desejada,  pronta a desatar-se.
Não há quem não tenha, posso jurar, pelo menos um daqueles encontros que nunca chegaram a ser o que poderiam ter sido e nos fazem perguntar-nos, em certos dias, a certas horas, quando qualquer coisa no-lo relembra: e se os astros se tivessem alinhado todos e o universo se tivesse sintonizado com aquele nosso querer?

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Birdman, um filme polémico

Começo pelo fim: eu gostei deste filme, intenso e controverso em simultâneo. Mas conheço quem não tenha gostado nada. E o facto de dividir opiniões de uma maneira tão antagónica também me parece que pode ser significativo.
Fui mais ou menos "em branco", isto é sem me informar grandemente sobre ele, o que é pouco comum acontecer-(me). Sabia apenas que estava nomeado para os Óscares e que tinha Michael Keaton no papel principal. 
E o que vi surpreendeu-me. Pode ser banal a questão do actor em busca de uma glória perdida, mas o que é nele mais interessante é a permanente interpenetração da ficção e da realidade, da personagem e do homem, do fingimento e da autenticidade, da representação e da vida. Depois, há qualquer coisa de  inquietante e de perturbador, até,  na complexidade das personagens, na sua violenta fragilidade, que pode às vezes ser cinismo e amargura, assombradas por um passado marcante, na dolorosa procura de si e da superação dos seus fantasmas, em busca de dignidade e de realização pessoal.
Pareceu-me um pouco excessivo o lado mais fantasioso e simbólico, e todavia há nessa inverosimilhança algo de peculiar, diferente, que remete para a carapaça de simulação em que se tornou cada vez mais o mundo actual; ainda assim, e mesmo sem ter visto (ainda) os restantes nomeados, não me chocaria nada que o galardão do melhor actor fosse para Michael Keaton,  de resto aqui muito bem acompanhado por outros bons desempenhos, com especial destaque para Emma Stone, absolutamente expressiva naqueles olhos enormes e eloquentes, que enchem o écran e dizem muito mais do que as palavras que possa proferir.
Enfim, se nunca nos conhecemos inteiramente, porque há sempre partes de nós que nos podem a todo o momento ser reveladas, se grande parte da nossa vida é o resultado das escolhas que fazemos e dos encontros que nos vão acontecendo (ou que fazemos acontecer...), também alguns filmes que vemos modificam a nossa maneira de ver o cinema e de gostar dele.
Este filme pode ser isto tudo, ou outra coisa completamente diferente. E é também essa ambiguidade que lhe dá valor.