Uma língua é o lugar de onde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi a da nossa inquietação.
(Vergílio Ferreira)
"A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxónicos, pela partilha da sua diversidade.
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Pode haver mil acordos pretensamente unificadores, mas os brasileiros continuarão a dizer trem, enquanto nós dizemos comboio, vão de ônibus, enquanto nós vamos de autocarro, eles chamarão geladeiras aos nossos frigoríficos. (...) Não é bom nem é mau: é um facto. Que deve ser assumido com toda a naturalidade. Qualquer idioma, aliás, só tem a ganhar se for plural e multifacetado. É um sinal inequívoco de que está vivo.
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Em sociedades verdadeiramente cultas, as regras ortográficas mantêm-se praticamente sem alteração.
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A etimologia é configuradora de memória e de cultura. Línguas que mantêm na escrita a memória etimológica tornam-se mais aptas à elaboração e construção do pensamento. (...) As palavras, ao ficarem desprovidas de raízes, acabam tristemente desfiguradas. O maior factor de unidade e estabilidade de uma língua é a etimologia.
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O conceito de base do acordortografiquês é adequar a escrita à oralidade. (...) Afirmar que uma língua deve ser escrita "como se lê" é puro disparate: se a escrita antecede a leitura, como é que a norma ortográfica pode estar condicionada por algo que lhe sucede em vez de a preceder?
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Reduzir as palavras à fonética, por imposição de um acto legislativo e não pela natural progressão civilizacional, é inaceitável. Porque faz tábua rasa de séculos de elaboração e evolução linguística.
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A maior originalidade do AOLP (...) é a manutenção de um sem-fim de "facultatividades". (...) O que significa aquele palavrão? Significa a convicção implícita por parte dos membros do AO de que a unificação ortográfica é inalcançável.
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A variedade lexical, vocabular, sintáctica e ortográfica de cada comunidade falante de língua portuguesa (...) é um sinal inequívoco de riqueza cultural. Suprimi-la é um atentado de lesa-cultura.
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O acordortografiquês tem enfrentado inúmeros actos de resistência. Que não é passiva. Pelo contrário, é - e gaba-se de o ser - muito activa. Abrangendo gente de todas as idades, profissões, ideologias e camadas sociais.
A resistência abrange muitos dos mais qualificados utilizadores da língua portuguesa na sua versão escrita.: escritores, cientistas, linguistas, jornalistas, professores, pedagogos, historiadores, (..) cronistas, (...) bloguistas (...)
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Recusar ler na grafia acordística é um acto de cidadania acessível a qualquer de nós. (...) Certas livrarias já têm secções específicas para livros destes, pensando precisamente nos portugueses que recusam o acordo."
Estas são algumas
passagens do livro de Pedro Correia, que acabei agora de ler e de que já falei aqui. Chama-se Vogais e consoantes politicamente incorrectas do acordo ortográfico e recomendo-o vivamente. Numa linguagem simples e directa, explica o absurdo deste acordo, que não chega a ser acordo nenhum, o seu surgimento baseado em critérios políticos e não científicos, e todas as "trapalhadas" que dele advêm. E o caos em que se tornou, hoje, a utilização da língua portuguesa. O melhor exemplo disso é, aliás, o facto de apesar de ser "obrigatório" utilizar o AO nas escolas, os Exames Nacionais admitirem as ortografias pré e pós acordo, que podem, inclusivamente, coexistir na mesma prova, feita pelo mesmo aluno. Ou seja: tudo é permitido.
Hoje, já quase ninguém defende o AO, pelo menos abertamente; as opiniões dividem-se entre os que se lhe opõem de forma veemente e se recusam a segui-lo e a aplicá-lo e um grande número de indiferentes, aqueles para quem quase tudo "tanto faz", que serão talvez os mesmos que têm tendência a votar em branco, que é uma coisa que eu também não consigo compreender. Mas isso é outra história...
A mim, que não sou de meias-tintas, dói-me na alma ver a minha língua ser assim espezinhada, vilipendiada e mais maltratada que nunca.
Sou contra este AO, como sou contra a Nova Terminologia Linguística (de que estranhamente quase ninguém fala) e contra tudo o que contribua para o empobrecimento da língua portuguesa. Quem gosta dela, tem o dever cívico de se insurgir contra este (des)acordo. E de lhe resistir.