sábado, 8 de junho de 2013

Arrebatamento


Quando estive em Barcelona fui, obviamente, ao Tablao de Carmen. Ontem, nove anos depois, foi o Tablao de Carmen que veio a Lisboa, ao CCB.
Não sei explicar o que há nesta música e nesta dança que mexe tanto comigo. Mas é sempre uma emoção enorme. Indizível. Uma daquelas coisas que só se sentem e não se conseguem dizer. Como todas as paixões.
Se eu acreditasse na reencarnação, e se pudesse escolher, na próxima vida era isto que eu queria:  dançar flamenco assim...

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O que o tempo faz ao amor



Sou suspeita. Já o dissera há três ou quatro meses: esta era, para mim, a estreia cinematográfica mais aguardada do ano. Por isso tive que ir ver o filme logo no primeiro dia. E não me desiludi...
"Antes da meia-noite" (Before Midnight, no original) é a continuação de dois dos meus filmes preferidos. Neles se conta, ao longo do tempo, a história de amor de Jesse e Céline (Ethan Hawke e Julie Delpy). Entre cada um, há nove anos de intervalo. E essa coincidência entre o tempo da história e o tempo da narrativa é talvez um dos motivos que lhes confere maior encanto e originalidade. Na verdade, encontrar Jesse e Céline ao fim de nove anos é como encontrar velhos amigos, notar-lhes no corpo o efeito da passagem dos anos e saber o que foi feito das suas vidas.
O argumento é banal, escrito pelos próprios actores, em co-autoria com o realizador, Richard Linklater. Mas é precisamente o realismo do que nos é contado que o aproxima de nós. No fundo, a sua história é uma ficção e nós sabemo-lo, mas também podia ser a nossa. Porque estas personagens são como nós; e o que elas dizem, sentem e vivem, também já nós alguma vez dissemos, sentimos ou vivemos. Naquele olhar meio malandro de menino bom que tem Etan Hawke, por exemplo, eu consigo (re)ver algumas pessoas que conheço.
No filme de agora encontramos Jesse e Céline dezoito anos depois do primeiro encontro em Viena (Before Sunrise) quando só tinham vinte anos e ainda tinham tudo por viver. E nove anos depois do de Paris (Before Sunset), a paixão amadurecida pelo tempo e reavivada pelo reencontro inesperado, como uma promessa de felicidade próxima da concretização.
Em Before midnight, Jesse e Céline, desta vez na Grécia, são um casal igual a tantos outros, com uma relação minada pela rotina do quotidiano e pelo desgaste do tempo, numa demonstração clara de que mesmo os grandes amores, aqueles da vida toda, sobrevivem mal à passagem dos anos. Que têm uma espécie de prazo de validade. E, tal como nos outros dois, o filme vive mais do diálogo do que da acção. Nós limitamo-nos a acompanhar os passeios e as conversas dos dois, o que não é pouco.
E, no entanto, percebemos que apesar de se conhecerem nos mais pequenos detalhes, com tudo o que isso tem de bom e mau, apesar da cumplicidade e de uma infinidade de coisas que os une e que os separa, o que os liga ainda perdura, em momentos fugazes de prazer, ou de romantismo, dos quais as cenas do pôr-do-sol a que assistem juntos (still there, still there) que é bonita apesar de ser um pouco "lugar-comum", ou a enternecedora cena final, são exemplos paradigmáticos.
E, nem que seja porque o amor é a melhor  e a maior parte da vida, vale a pena ver este filme. Eu adorei!

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Resistir



Uma língua é o lugar de onde se vê o Mundo e em que se traçam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Da minha língua ouve-se o seu rumor, como da de outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso  a voz do mar foi a da nossa inquietação.
(Vergílio Ferreira)
 
 
"A unidade da língua não se faz por imposição de acordos ortográficos; faz-se, como muito bem perceberam os hispânicos e os anglo-saxónicos, pela partilha da sua diversidade. 
(...)
Pode haver mil acordos pretensamente unificadores, mas os brasileiros continuarão a dizer trem, enquanto nós dizemos comboio, vão de ônibus, enquanto nós vamos de autocarro, eles chamarão geladeiras aos nossos frigoríficos. (...) Não é bom nem é mau: é um facto. Que deve ser assumido com toda a naturalidade. Qualquer idioma, aliás, só tem a ganhar se for plural e multifacetado. É um sinal inequívoco de que está vivo.
(...)
Em sociedades verdadeiramente cultas, as regras ortográficas mantêm-se praticamente sem alteração.
(...)
A etimologia é configuradora de memória e de cultura. Línguas que mantêm na escrita a memória etimológica tornam-se mais aptas à elaboração e construção do pensamento. (...) As palavras, ao ficarem desprovidas de raízes, acabam tristemente desfiguradas. O maior factor de unidade e estabilidade de uma língua é a etimologia.
(...)
O conceito de base do acordortografiquês é adequar a escrita à oralidade. (...) Afirmar que uma língua deve ser escrita "como se lê" é puro disparate: se a escrita antecede a leitura, como é que a norma ortográfica pode estar condicionada por algo que lhe sucede em vez de a preceder?
(...)
Reduzir as palavras à fonética, por imposição de um acto legislativo e não pela natural progressão civilizacional, é inaceitável. Porque faz tábua rasa de séculos de elaboração e evolução linguística.
(...)
A maior originalidade  do AOLP (...) é a manutenção de um sem-fim de "facultatividades". (...) O que significa aquele palavrão? Significa a convicção implícita por parte dos membros do AO de que a unificação ortográfica é inalcançável.
(...)
A variedade lexical, vocabular, sintáctica e ortográfica de cada comunidade falante de língua portuguesa (...) é um sinal inequívoco de riqueza cultural. Suprimi-la é um atentado de lesa-cultura.
(...)
O acordortografiquês tem enfrentado inúmeros actos de resistência. Que não é passiva. Pelo contrário, é - e gaba-se de o ser - muito activa. Abrangendo gente de todas as idades, profissões, ideologias e camadas sociais.
A resistência abrange muitos dos mais qualificados utilizadores da língua portuguesa na sua versão escrita.: escritores, cientistas, linguistas, jornalistas, professores, pedagogos, historiadores, (..) cronistas, (...) bloguistas (...)
(...)
Recusar ler na grafia acordística é um acto de cidadania acessível a qualquer de nós. (...) Certas livrarias já têm secções específicas para livros destes, pensando precisamente nos portugueses que recusam o acordo."
 
Estas são algumas passagens do livro de Pedro Correia, que acabei agora de ler e de que já falei aqui. Chama-se Vogais e consoantes politicamente incorrectas do acordo ortográfico e recomendo-o vivamente. Numa linguagem simples e directa, explica o absurdo deste acordo, que não chega a ser acordo nenhum, o seu surgimento baseado em critérios políticos e não científicos, e todas as "trapalhadas" que dele advêm. E o caos em que se tornou, hoje, a utilização da língua portuguesa. O melhor exemplo disso é, aliás, o facto de apesar de ser "obrigatório" utilizar o AO nas escolas, os Exames Nacionais admitirem as ortografias pré e pós acordo, que podem, inclusivamente,  coexistir na mesma prova, feita pelo mesmo aluno. Ou seja: tudo é permitido.
Hoje, já quase ninguém defende o AO, pelo menos abertamente;  as opiniões dividem-se entre os que se lhe opõem  de forma veemente e se recusam a segui-lo e a aplicá-lo e um grande número de indiferentes, aqueles para quem quase tudo "tanto faz", que serão talvez os mesmos que têm tendência a votar em branco, que é uma coisa que eu também não consigo compreender. Mas isso é outra história...
A mim, que não sou de meias-tintas, dói-me na alma ver a minha língua ser assim espezinhada, vilipendiada  e mais maltratada que nunca.
Sou contra este AO, como sou contra a Nova Terminologia Linguística (de que estranhamente quase ninguém fala) e contra tudo o que contribua para o empobrecimento da língua portuguesa. Quem gosta dela,  tem o dever cívico de se insurgir contra este (des)acordo. E de lhe resistir.


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Para sempre


Há amores assim, inabaláveis e resistentes ao tempo, imunes às mais dolorosas nódoas negras e às cicatrizes mais fundas, que se desgastam, que se alteram, mas que não morrem nunca. E que valem a vida.
E depois, há também certos dias em que, na urgência de ti, sobram as palavras e me ocupas o espaço todo de existir e os teus olhos me bastam...

terça-feira, 4 de junho de 2013

Em modo zen


Provavelmente, não vou poder voltar a ter férias no mês de Junho. Daqui em diante, o mais certo é voltar à pausa entediante e obrigatória do mês de Agosto. E, apesar de nunca me preocupar excessivamente com o que virá depois, essa quase certeza faz-me querer agarrar com força este momento e vivê-lo o mais intensamente possível, aproveitando-o em cada bocadinho.
Agora, é tempo de parar as correrias e acalmar as ansiedades, longe dos deveres a cumprir e de todos os minutos contados. De viver no prazer de fazer tudo muito devagar. De me virar para dentro de mim e ficar em silêncio, a sós comigo, no mundo dos meus pensamentos e sensações.
Às vezes preciso destes parêntesis para me concentrar no que está cá mais no fundo, para evoluir e escolher o que quero fazer, num universo de possibilidades infinitas. É o tempo de balanços, de projectos e de prioridades, de traçar novos rumos e de tomar decisões, mas também de coisas  práticas e banais: de me deixar ficar no conforto e no aconchego da casa, de me dedicar a ela com  afinco, de limpá-la, arrumá-la e redecorá-la com o rigor e a minúcia de um grande "bate, escova, aspira" anual, dando uma atenção excessiva a cada pormenor; ou, simplesmente, de me deixar levar pela vontade mais imediata, de gozar a tranquilidade e a paz de vaguear ao sol pela cidade, de olhar o rio ou as estrelas, de ouvir o mar, de sentir o calor do sol no corpo molhado, de ter tempo para estar com quem eu gosto, dos abraços sem pressa, de me entregar a tudo com a emoção e o pasmo exaltado de quem se entrega a um novo amor. E afinal, há tantas coisas boas à minha volta...
Nos próximos vinte e sete dias é esta calma que me guia, no luxo imenso de ser dona do meu tempo. Depois, são mais dois meses  e, então, começa um novo ano e uma nova vida.

(Fotografia do blog Pé de Meia, de mfc)

domingo, 2 de junho de 2013

Le temps des cerises


http://www.youtube.com/watch?v=ncs4WlWfIZo

Quand nous chanterons le temps des cerises
Et gai rossignol et merle moqueur
Seront tous en fête
Les belles auront la folie en tête
Et les amoureux du soleil au coeur
Quand nous chanterons le temps des cerises
Sifflera bien mieux le merle moqueur

Mais il est bien court le temps des cerises
Où l'on s'en va deux cueillir en rêvant
Des pendants d'oreilles
Cerises d'amour aux robes pareilles
Tombant sous la feuille en gouttes de sang
Mais il est bien court le temps des cerises
Pendants de corail qu'on cueille en rêvant

Quand vous en serez au temps des cerises
Si vous avez peur des chagrins d'amour
Evitez les belles
Moi qui ne crains pas les peines cruelles
Je ne vivrai pas sans souffrir un jour
Quand vous en serez au temps des cerises
Vous aurez aussi des peines d'amour

J'aimerai toujours le temps des cerises
C'est de ce temps-là que je garde au coeur
Une plaie ouverte
Et Dame Fortune, en m'étant offerte
Ne saura jamais calmer ma douleur
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au coeur

sábado, 1 de junho de 2013

Lisboa em festa (I)


Junho é o mês de Lisboa. Março é meu. São os meses de que mais gosto. Entre um e outro, fica a Primavera toda...