quarta-feira, 29 de setembro de 2021

O poder da música



Foi um fim de semana de sentimentos fortes, que me trouxe a certeza de que ao vivo a emoção é sempre maior e que a música tem essa fantástica força, que é também magia, de aproximar as pessoas, de sarar feridas e de tornar a vida ainda mais bonita.

 Fotografia de Verónica Méndez López

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Virar a página e seguir

 

Foram três meses de dias atarefados e intensos, cheios de emoções e de papéis, de assuntos a tratar e de sentimentos  por gerir,  na surpresa absurda do que fica para lá do fim e na certeza de que o tempo não pára e que a vida segue sempre o seu caminho, inexoravelmente.
E, no entanto, não houve um só dia em que uma imagem, uma palavra, um pensamento ou uma canção não me levassem de volta ao tempo de estarmos juntas, às nossas conversas e risos, a tantas cumplicidades tão nossas. Nem houve nenhum passo ou decisão que tenha tomado sem pensar primeiro no que diria, ou na forma de a fazer sentir-se orgulhosa de mim.
Mas, como diz uma amiga minha "não tenho vocação para o martírio"; e, por isso, talvez, valorizo mais o que vivemos juntas, a alegria de nos podermos ter tido durante tantos anos, que guardo comigo para sempre, do que a inevitável saudade, ou a dor da perda. 
Há, naturalmente, risos, e olhos, e colos que não se esquecem, e é essa a glória  da imortalidade: o que dos nossos sonhos e anseios, de tudo o que fomos e quisemos, perdura nos outros, para além de nós. E há, também, a tranquilidade de saber que fiz sempre tudo o que esteve ao meu alcance, multiplicando cuidados e carinhos para que se sentisse aconchegada, amparada e feliz, sobretudo nos últimos anos e nos momentos de maior fragilidade, em que lhe segurei a mão e lhe devolvi em amor e mimos grande parte do que me deu, a vida toda.
Há quem diga que se sai sempre melhor de uma dor, ou de um desgosto. Pode, talvez, ser verdade. Depois do silêncio, de um tempo em que parece que todas as palavras fogem ou deixam de fazer grande sentido, começa o tempo da aceitação.  Porque aceitar que a morte faz parte da vida é, provavelmente, a mais difícil e dolorosa aprendizagem com que vamos sendo confrontados. 
Dos que partem ficam as recordações, as ideias, as acções, os ensinamentos e tudo o que de bom e mau fomos vivendo ao longo do tempo, fica a marca fortíssima e indelével que deixam em nós. É com ela que vivo. E julgo  que essa será a mais bonita e singela forma de a continuar a ter pertinho de mim, no pensamento e no coração. É bom saber que, entre nós, pode o amor modificar-se, mas será sempre, sempre, infinito. E ir aprendendo a viver com esta nova realidade, que não é melhor nem pior; é só diferente.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

O inconcebível mundo das traduções


Que um filme que se chama no original Antoinette dans les Cévennes apareça no cartaz nacional com o inacreditável título de "O meu burro, o meu amante e eu" pode fazer toda a diferença, já que à partida parece sugerir um daqueles filmes completamente estúpidos a que eu chamo "comédia alarve", do género de "Um sogro do pior", que não me distraem, nem divertem, nem nada.
Não é de todo o caso aqui. Antoinette das les Cévennes é um filme delicioso, terno e divertido, daqueles que sem pretensão alguma nos dispõem bem e nos entretêm durante duas horas. Dizer que é uma "comédia romântica" é também uma classificação de certo modo redutora, pois embora esse seja o ponto de partida, o filme é muito mais que isso. 
Inspirado num livro de Robert-Louis Stevenson "Viagem com um burro pelas Cevenas", de 1879, que relata a travessia feita pelo autor por esta cadeia montanhosa do centro-sul de França, que faz parte do Massif Central, acompanhado por uma jumenta chamada Modestine, o filme retoma esse mesmo percurso, desta vez feita por uma mulher e por um burro chamado Patrick, numa viagem cheia de divertidas peripécias, com Laure Calamy no papel de Antoinette, que é também o retrato de uma mulher independente e sensível, entusiasta e impulsiva, que não se deixa abater pelas contrariedades do caminho nem da vida e que nesse encontro consigo e  com a natureza tendo por companheiro apenas Patrick, o burro, ouvinte silencioso e atento das sua reflexões sobre os amores e a existência, redefine o rumo a seguir com o novo olhar sobre si que a introspecção lhe proporciona.
Pouco importa, pois, que esta seja a segunda longa metragem da realizadora Caroline Vignal (com 20 anos de diferença da primeira), ou que os actores não sejam muito conhecidos. Com muitas situações cómicas, bons diálogos e magníficas imagens das Cévennes, este é um filme leve e despretensioso, mas que vale a pena ver. Eu gostei. Muito.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

(Re)centrar-se

 
Há  acontecimentos da nossa vida que marcam para sempre, que nos fazem repensar(nos) , começar de novo, alterar focos e preocupações, objectivos ou anseios.
Os momentos de dor podem, pois, ser também de certo modo redentores, já que implicam rever todas as prioridades e sermos capazes  de seguir caminho,  com tudo o que aprendemos e nos fez amadurecer.
Enfim, para lá de todas as tristezas, mágoas ou pesares, há que continuar a acreditar que apesar dos dias e horas de solidão e desamparo, sai-se de um desgosto uma pessoa diferente, mas não necessariamente pior, que as as feridas e vulnerabilidades não são um sinal fraqueza, que as cicatrizes podem até tornar-nos mais fortes, e que são  os que amamos e também gostam de nós, onde quer que estejam e façamos o que fizermos, que estão sempre connosco a fazer do nosso caminho um tempo e espaço para ser feliz e acreditar que nada acontece por acaso e que tudo vale a pena: o bom e o mau, o alegre e o triste,  o fácil e o difícil que vai aparecendo ao longo do percurso e que temos que saber aceitar e agradecer como nos chega, porque a vida não é só risos, alegria e felicidade e porque é provavelmente nessa variação entre claro e escuro, dia e noite, sombra e luz, que ela se nos revela ainda mais bonita e valiosa.

terça-feira, 6 de julho de 2021

Uma cidade ao pé do mar



Às vezes parece que todas as palavras fogem para um lugar escuro, fundo e distante onde as emoções se vivem apenas em silêncio e solidão. 
Estou nessa fase meio melancólica, virada para dentro, entre lembranças e tranquilidade, sozinha comigo e com os meus pensamentos, vontades, desejos, sensações, pousando os olhos por momentos na maravilhosa vista da minha janela, ou na calma quietude do mar de Verão.
É, por agora, o que serena o meu coração inquieto, que ora se acelera, ora está em paz, bendizendo a graça de poder viver assim; e ser feliz; porque a saudade também pode ter um lado bom, e porque por maiores que sejam as nossas feridas e mágoas são as cicatrizes que nos fazem crescer e sentir que, no fundo, tudo vale a pena.

sábado, 26 de junho de 2021

Uma Rainha (republicação)




Para o bem e para o mal somos sempre marcados por quem nos dá a vida. São os primeiros braços que nos abraçam e embalam, o colo que nos aconchega, a voz  e o olhar que nos ensinam o mundo e guiam o caminho. Habituamo-nos assim a um amor e apoio incondicionais e a um presença forte e serena, que julgamos poder durar para sempre, sem sequer pensar nisso.
Depois desentendemo-nos e discordamos, porque também há uma idade própria de ser assim.
Mas hoje sei a quem devo a maior parte do que sou, sei da honra e da dignidade a sobrepor-se aos inevitáveis erros a que ninguém escapa, porque somos humanos, falhamos e sofremos; sei da coragem de optar pela generosidade e a alegria, quando teria sido bem mais fácil cruzar os braços e desistir, ou escolher o caminho da amargura e do cansaço. Foi no bom humor, no riso e na limpidez dos seus olhos verdes que aprendi o lado bom de todas as coisas; e herdei essa vontade imensa de aceitar e aproveitar muito bem o que nos chega, como o que fazemos chegar.
Aos noventa anos, mesmo quando se é apenas uma sombra do que se foi um dia, perde-se a pose, o corpo verga-se, provavelmente sobram poucas memórias de um percurso muito longo e muito cheio, mas fica tudo o que se construiu e o reflexo do efeito que se provocou nos outros. 
Perdem-se os gestos e as palavras, mas ficam as emoções e os afectos, que transparecem ainda em olhares cúmplices e silenciosos, em risos fortuitos, em esboços de mimos, em prazeres simples e antigos: nas mãos que se tocam e se apertam, na delícia de saborear uma madalena, e em tudo aquilo que ainda nos mantém junto dos que amamos. E até talvez felizes...
Chegar aos noventa é só mais uma vitória. Por isso,  se pudesse, hoje, coroava-a rainha. E concedia-lhe o dom da infinitude.

(Este texto foi escrito há exactamente seis anos. E hoje, quando por quinze dias já não chegou aos 96, decido republicá-lo, porque continua a ser inteiramente verdade e porque, mesmo se já não podemos abraçar-nos e rir-nos juntas, no meu coração o nosso amor será sempre infinito).

segunda-feira, 17 de maio de 2021

De volta ao cinema


Se a Netflix vai sendo útil em tempos de confinamento, poder ir ao cinema é, de longe, outra coisa. Para mim, nada como magia do écran gigante, da sala escura e dessas duas horas em que nos deixamos transportar por histórias e vidas que, não sendo nossas, tantas vezes nos removem por dentro e nos fazem pensar.
Que bom, pois, poder voltar a um dos minhas paixões, com a benesse de agora nem sequer se poder comer ou beber nas salas, o que é claramente uma vantagem.
Optei pelo filme dos Óscares. Nomadland é, como seria de esperar, um filme triste. Mas poético, ainda assim. É um filme simples e complexo, bonito e áspero, com todas as contradições que marcam a existência, que trata de liberdade e de solidão, de precariedade e de incerteza, de morte e de vida, misturando ficção e realidade: Fern, a personagem principal, é fictícia, mas convive com nómadas reais que se interpretam a si mesmos, como Linda May, ou o mentor Bob Wells. Trata-se, no fundo de uma viagem por uma América um pouco diferente da que costumamos ver, ou que temos como representação mental, ao lado dos que escolhem a liberdade de ser e de fazer diferente, ou não têm outra possibilidade que não seja a de viver assim. Frances McDormand é excelente no seu papel de protagonista e também de fio condutor da narrativa, elo de ligação perfeito entre as várias histórias/vidas com que se cruza "down the road". 
O filme vale bem uma ida ao cinema, mas não sei se é assim tão excepcional para ser designado como "o melhor". Se calhar, a concorrência é que não era grande coisa. Mas, quanto a isso, não sou, por enquanto, capaz de ajuizar.