segunda-feira, 1 de março de 2021

O bom tempo, a Primavera e tudo


Dias cada vez maiores, sol, bom tempo, vontade de se deixar ficar na rua, de soltar o cabelo ao vento, de aproveitar a brisa da tarde, de passear despreocupadamente. Março é isto tudo. Se lhe associar uma cor, será azul claro como o céu e o mar e amarelo como o sol e as flores dos meus anos. Além desta festa de luz de alegria e de recomeço, Março é também o mês dos meus anos. E por tudo isso gosto tanto dele. Gosto do perfume destes dias, do cheiro das frésias e do sabor dos morangos, das pequenas flores que vão enchendo árvores e jardins, de ouvir cantar os pássaros e dessa promessa de felicidade renovada que este ano, se calhar, faz ainda mais sentido.
Quero acreditar que nesta Primavera vamos poder renascer deveras e voltar a uma vida mais próxima do que consideramos normal. Março começa hoje, como sempre a saber a princípio, a vida e a festa.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

Dia de Carnaval


Sou uma daquelas pessoas que não acha nenhuma graça ao Carnaval, nem a qualquer outro festejo "obrigatório". E sou assim desde sempre. Quando era criança não achava piada às máscaras e sempre me pareceram um pouco ridículas todas as alegrias forçadas.

Mas, sinceramente, quem é que se lembra que hoje é Dia de Carnaval, nestes tempos tão atípicos que vamos vivendo? Quem é que tem vontade do que quer que seja para além da possibilidade de recuperar uma certa normalidade (que esperemos que não demore muito), com tudo incluído, até mesmo, porque não, o Carnaval?

Até lá, só podemos encher-nos de paciência, esperar e, apesar de tudo, agradecer o que temos.


domingo, 7 de fevereiro de 2021

Capitão Von Trapp


Para a minha geração, para muitas outras, decerto, Cristopher Plummer, será para sempre o Capitão Von Trapp. Pode ter, ao que parece, ganhado um Óscar, já tardio, ter tido uma carreira cheia de prémios e sucessos, mas a personagem do filme de Robert Wise, de 1965, colou-se-lhe à pele como uma tatuagem, perseguiu-o a vida toda e será por ela que sempre será lembrado.

Goste-se ou não, para quem tem mais ou menos a minha idade, o filme The sound of music ("Música no Coração", em português) marcou a nossa infância e até um pouco para além dela, nem que fosse porque passava repetidas vezes na televisão, especialmente na tarde do dia de Natal. Lembro-me muito bem de o ter visto pela primeira vez, teria uns cinco ou seis anos, no cinema Tivoli, e de essa ser uma das minhas mais antigas memórias cinematográficas.

Como esquecer, pois, aquele capitão austríaco, tão austero, que se revela depois sensível e apaixonado pelo poder transformador do amor e da música. Como esquecer Julie Andrews e o seu grito The ills are alive with the soud of music, objecto de inúmeras piadas e tantas private jokes que nos acompanham desde sempre. Como esquecer as canções daquele filme mítico que faz parte das nossas vidas?

Cristopher Plumer morreu esta semana. Mas o Capitão Von Trapp permanecerá inesquecível para mim, para nós, e seguirá no nosso imaginário, a cantar de forma doce, quase pueril, Edelweiss:


Edelweiss, Edelweiss
Everymorning you greet me
Small and white, clean and bright
You look happy to meet me

Blossom of snow may you bloom and grow
Blooma and grow forever
Edelweiss, Edelweiss
Bless my homeland  forever

domingo, 31 de janeiro de 2021

Para lá do imediato


E às vezes, o silêncio estremece 
Como se fosse a hora de passar alguém
que só hoje não vem

Não se deixar vencer pela melancolia. Esse era o mote. Sempre estivera  na sua natureza encontrar o lado bom de todas as coisas e não se permitir estar triste por muito tempo. Aprendera a calar a dor, a vivê-la para dentro ou a relativizá-la, como se alimentá-la ou exibi-la fosse um sinal de ingratidão diante de tanto  que a vida lhe dava.
Por isso, agora também tinha que ser assim. Para lá dos dias que passavam demasiado lentos e cinzentos, acreditar. Por aqueles dias, em Espanha, mais precisamente em El Rocio, viver-se-ia mais uma festa da Candelária. Se tudo fosse normal, por esta altura estaria também a planear passeios e viagens para o ano inteiro, visitas a cidades novas e às antigas, que trazia sempre no coração, ou a inventar comemorações em grande para mais um aniversário a pouco mais de um mês de distância.
E se lhe parecia às vezes que tudo era só inquietação e desamparo, se prevalecia a nostalgia, a tristeza e o desencanto incerto dos dias e horas por viver, se muitas saudades lhe doíam no peito, não podia deixar de pensar no privilégio de uma vida ainda assim segura e tranquila, quando tantos sofriam e se afligiam muito mais e por tantas razões de peso; e logo procurava mil afazeres e ocupações na esperança de ignorar ou esquecer as perguntas e  preocupações que lhe atravessavam a alma durante as horas tão imensamente vagarosas daqueles dias.
Outras vezes, pensava que, mesmo de forma passageira, mesmo sem motivos demasiado fortes, podia a espaços entregar-se ao desgosto, desatar as lágrimas só porque sim e, em silêncio e solidão, desalmadamente, chorar. Então, virava-se para dentro, encolhida e calada, deixando a tristeza e a música embalar-lhe aquele buraco enorme que a deixava mais desprotegida e indefesa, sem serem precisas muitas lágrimas, nem dramas, nos momentos em que muita coisa íntima se desatava de repente, entre o deslumbramento ante a ideia romântica de se ser dono da sua vida e os momentos em que só se deseja um colo onde repousar a cabeça, ou o calor reconfortante de uns braços que acolham uma fragilidade repentina.
E logo refeita, sorria, na alegria serena de imaginar que entre o que fomos e o que está por vir, enquanto o coração bate no peito, há muita vida pela frente. E que, acima de tudo, é preciso ter calma. Sempre... 
Olhava pela janela e procurava a paz no azul do céu (sempre fora essa a sua cor) para se sentir em harmonia com a vida. No fundo sabia que era normal tudo ser assim, um percurso lento, feito de altos e baixos, de avanços e retrocessos, de esperança e de desânimo. Mas que haveria uma luz ao fundo do túnel e que, de tudo aquilo, se sairia decerto renovado e engrandecido. E redescobriria, assim, de forma mais clara, a  importância do amor verdadeiro e da companhia, o valor de abraçar quem se gosta com força, na felicidade de instantes vividos na serenidade de quem se quer bem e de vontades em sintonia.

(Fotografia de Luísa Correia, do Blogue "À Esquina da Tecla")

domingo, 24 de janeiro de 2021

Entrincheirados


Olhava pela janela e na rua não havia quase ninguém. Casas, muitas casas, prédios mais altos ou mais baixos, amarelos, brancos, azuis, cor de rosa e verdes, todos de telhados vermelhos, o típico daquela cidade cheia de sol e de luz, de onde parecia que a vida se arredara de repente. 
Para lá das paredes, portas e janelas de todos os edifícios maiores ou menores, estavam todos fechados, perdidos, virados para dentro, à espera de poder escapar de um pesadelo que parecia durar  há já demasiado tempo e não se sabia quando poderia enfim terminar. Parecia que tudo tinha voltado ao início e que desta vez era ainda pior. As notícias eram assustadoras, os números cresciam sem parar, a cada dia, a cada hora, e por todo o lado soavam palavras pesadas como catástrofe, aflição, calamidade, doença, morte, sofrimento, dor.
Havia dias em que só o medo, a solidão ou a incerteza pareciam tomar conta de tudo, por mais que se procurasse relativizar e pensar no privilégio de estar ainda assim em segurança, no conforto quente da casa, transformada em fortaleza e porto seguro, onde na verdade não faltava nada que fosse essencial, quando tantos outros se debatiam na angústia de um limiar qualquer, fosse ele entre a vida e a morte, a difícil escolha de condenar ou salvar, a exaustão extrema e o sentido do dever, o desânimo e a coragem.
No fundo, mesmo quando sentia uma saudade apertar-lhe o peito, quando lhe faltava o toque e a voz de quem lhe era mais  querido, quando o silêncio lhe enchia a casa e a vida, acreditava que a Primavera haveria de voltar esplendorosa, como sempre,  e que a vida haveria de conseguir sobrepor-se e vencer.

sábado, 16 de janeiro de 2021

Abstenção?


Por princípio sou contra a abstenção. Porque acho que votar é um direito, mas é também um dever, ao qual, a não ser por circunstâncias excepcionais, não temos nunca que nos escusar. Talvez isso tenha a ver com uma característica minha que, num certo sentido, pode mesmo ser considerada defeito: sou muito opinativa e gosto até, às vezes, de dizer o que penso mesmo sem me perguntarem.
Quando se trata de eleições (seja elas quais forem), participar parece-me antes de tudo uma espécie de "obrigação". E, por isso, não concordo nada com os que dizem que "abster-se" também pode significar que nenhum candidato é suficientemente bom, ou qualquer coisa deste género. Quando acho isso (o que é de resto bastante frequente, hélas), tendo a optar pelo voto útil, escolhendo o "menos mau". Não fazer nada, não participar, parece-me sempre uma espécie de desistência, como se o que está em causa não nos dissesse respeito.
Não me lembro de alguma vez na vida ter sido chamada a participar numa decisão e ter optado por não o fazer. Só por não me apetecer. Só porque sim. Mas desta vez é diferente. Porque a conjuntura em que as eleições acontecem é absolutamente fora do comum e me parece absurdo, num contexto de confinamento quase total (pelo menos na versão oficial), abrir-se um parênteses de um dia e podermos juntar-nos todos de novo para uma eleição que está decidida à partida.
Enfim, vou ter que pensar melhor no assunto; e tenho uma semana para o fazer...

quarta-feira, 6 de janeiro de 2021

Fim das Festas

Tenho pena que em Portugal não se celebre o Dia de Reis como acontece em Espanha e em França, por exemplo, e que este dia, que é afinal o que assinala o fim das festas seja, entre nós, um dia como outro qualquer. 

Em Espanha, a ideia de fazer coincidir a troca de presentes com o Dia de Reis confere a este dia uma magia e encantamento que, para mim,  se aproxima muito mais do que se celebra nestas festas. E mesmo se, por causa da pandemia, não há este ano a "Cabalgata de Reyes", a que costumo sempre assistir pela televisão, este é um dia que permite viver a emoção de regressar ao  mundo de ilusão da infância e de, por momentos, voltar a acreditar num mundo melhor. 

A comemoração do Dia de Reis, de tradição cristã, baseia-se numa passagem do evangelho de S. Mateus, (capítulo 2, versículos 1 a 12), a qual terá dado origem à criação da lenda dos três reis magos e, impôs, posteriormente,  o costume dos presentes no Natal. Pouco importa a veracidade da história, tantas vezes posta em causa, por não haver, em Mateus, nenhuma informação que permita concluir  sobre a realeza das personagens; e o mesmo quanto ao seu número e aos nomes de Belchior, Gaspar e Baltazar, com que nos habituámos a designá-los, desde aquele longínquo momento da infância em que a ouvimos contar pela primeira vez. 

De acordo com a tradição católica, 6 de Janeiro é o dia da Epifania, uma das celebrações litúrgicas mais antigas, que se refere à revelação do Menino Jesus ao mundo pagão, representado pelos Reis Magos. E há qualquer coisa de verdadeiramente poético na ideia daquela viagem solitária e demorada, em camelo, através do deserto, apenas guiados por uma estrela, que os iluminava e lhes indicava o caminho. 

Amanhã, já se sabe, é dia de arrumar os presépios e todas as decorações natalícias e de deixar o ano retomar o seu curso habitual, esperando que os dias que aí vêm decorram sem sobressaltos e sejam bons de verdade.