domingo, 31 de dezembro de 2017

Ano Novo


Esta é a altura dos balanços e dos bons propósitos, dos desejos desmedidos e das intenções insensatas, de projectos e resoluções que se sabe que nunca serão cumpridos.
Não sou dada a grandes comemorações no final do ano. O primeiro dia de um novo ano não é para mim mais do que um novo dia, como cada um dos outros dias do ano. Sempre me irritaram um pouco as alegrias obrigatórias, aqueles dias em que todos se sentem mais ou menos forçados a mostrar-se contentes, a rir, saltar, comer, beber e dançar exageradamente, mesmo que a alegria seja de plástico e o brilho da festa sirva para mascarar o que não se quer enfrentar.
Gosto de deixar a minha felicidade e a minha euforia para os dias e momentos em que, por  motivos meus e não de toda a gente, ou até sem razão aparente, ou por qualquer situação repentina, sinta que tenho alguma coisa para celebrar.
Agrada-me, no entanto, a ideia de ter mais 365 dias inteirinhos, com 8760 horas  e mais minutos, com aquela carga de desconhecido que simultaneamente atrai e assusta, como tudo o que desejamos sem ter bem a certeza de  como é. Mas preciso de pouco: ter saúde - que é sempre o principal; e é imenso! - ter junto de mim os que amo e me são essenciais, conseguir ir fazendo de cada dia uma festa como a da passagem do ano, mas vivida pelo lado de dentro. 
E continuar a acreditar que o amor é o que mais importa e o que faz a vida valer a pena, nas suas milhentas formas, facetas e manifestações.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O típico filme da época


Cheio de amor e bons sentimentos, este é o filme típico da época natalícia, a puxar ao sentimento e  à lágrima furtiva, fazendo-nos alternar entre a emoção, o sorriso enternecido e a risada cúmplice. 
Impossível, no entanto, não se deixar tocar pela história de Auggie Pullman, pela sua luta face à discriminação de que é vítima, apenas por ter uma aparência diferente dos demais. Para isso muito contribui a interpretação de Jacob  Tremblay que já em Room (2015) provara que o talento não depende da idade, e também de Julia Roberts, Owen Wilson, e Izabella Vidovic nos papéis do núcleo familiar mais próximo (pais e irmã), e até da aparição pontual de Sónia Braga, no papel de avó materna. Um dos maiores interesses do filme reside no facto de nos ir dando diferentes pontos de vista, colocando a narrativa sob a perspectiva de algumas das principais personagens. Há uma grande sensibilidade na forma de contar uma história que facilmente poderia descambar para a caricatura, o dramatismo excessivo, ou o sentimentalismo piegas.
Wonder, traduzido como "encantador" e "extraordinário" no português de Portugal e do Brasil, respectivamente, acaba por ser um pouco isso mesmo: um filme de afectos, para ver em família, durante as férias de Natal.

domingo, 24 de dezembro de 2017

(in)fidelidade


No creo que haya nada malo en desear a otras personas. Nos han enseñado que si se quiere a alguien no puede apetecerte estar en una cama con nadie más. (...) Como teoria irrefutable nos la inculcan, pero yo aseguro que es falsa.(...)
A mi siempre me han atraído más la mujeres infieles, es la verdad. Mejor dicho, las que se atreven a serlo cuando lo desean. Las que nunca lo han deseado, no se lo han planteado o no lo han imaginado me interesan menos. No digo que sean peores - ni por supuesto mejores, como muchas veces se cree -, simplemente a mi las mujeres que no dudan me provocan cierta indiferencia. Cada uno tiene su moral, pero detesto los dogmas. He visto mujeres fieles que no suportaban a su marido y hombres que humillaban a su mujer sin plantearse marcharse con otras. Hay gente que considera que estar vivo es respirar; yo creo que estar vivo es desear.
                                                             
                       (Juan del Val)

sábado, 23 de dezembro de 2017

Um bom realizador é outra coisa


Eu não gosto de Kate Winslet. Mas até ela, dirigida por Woody Allen, faz boa figura; e convence. Gosto dos filmes de Woody Allen e raramente perco um. Acho uns melhores que outros, como toda a gente, mas nem que seja pela música e pela fotografia penso que vale sempre a pena vê-los. Porque são histórias bem contadas e isso é fundamental. Porque são divertidos e inteligentes sem precisar de muitos "efeitos especiais", ou barulho, ou violência gratuita, ou todas essas coisas de que o cinema está hoje cheio até à exaustão.
"Roda gigante" (Wonder Wheel) tem tudo o que faz de um filme de Woody Allen um filme de autor no sentido mais rigoroso do termo´: há as personagens emocionalmente desequilibradas, as relações caóticas e as famílias disfuncionais e há qualquer coisa de psicanalítico na forma como através delas a história nos é apresentada. E depois, todo este melodrama tem ironicamente como pano de fundo as cores quentes e a luz intensa do parque de diversões de Coney Island nos anos 50; e só a fotografia de Vittorio Storaro já seria razão mais que suficiente para ver o filme.
É talvez a humanidade de grande parte das suas personagens e o facto de ser um bom contador de histórias o que mais me deslumbra neste realizador. O resto não sei explicar: nem é preciso.
Sei que sou um pouco suspeita. Mas gostei...

domingo, 17 de dezembro de 2017

A Casa Torta


Havendo um filme de Woody Allen em cartaz, essa seria a minha escolha mais imediata. Mas, enfim, às vezes também é preciso ceder à vontade de quem nos acompanha e, por isso, calhou-me em sorte desta vez um ambiente totalmente inglês, num adaptação de Agatha Christie, The Crooked House ("A Casa Torta", em português), que sendo um policial, tinha, naturalmente, todos os ingredientes do género, com vários suspeitos possíveis e um final mais ou menos surpreendente. E tinha, também, Glenn Close, que continua a fazer qualquer filme valer a pena. Não é um mau filme, mas também não é empolgante, nem deixa marca.
E o Woody Allen não me escapa...

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Parece mentira


Trouxe de Sevilha, como sempre faço quando vou a Espanha ou a França, um livro que estou a gostar muito de ler. Não conhecia o autor, mas tinha visto uma entrevista com ele na televisão e ficara curiosa em relação ao livro.
Juan de Val é um jornalista, guionista, apresentador e produtor. Parece Mentira é uma história mais banal do que extraordinária, escrita em linguagem simples e despretensiosa, sem nunca cair na vulgaridade. E Cláudio, sobretudo, o protagonista, consegue "engancharnos" com o seu relato, contado na primeira pessoa, que poderia ser a vida de qualquer pessoa comum, cheia de episódios curiosos, divertidos, emocionantes, picantes, dramáticos, até. Cláudio tem defeitos e qualidades, fragilidades e medos, arrojo e valentia. Por isso se nos torna tão encantador, ainda que à vezes também nos irrite, ou possa parecer egoísta e quase cruel. Como todos nós...
Aqui fica um pequeno excerto:

(...) me gustan los defectos. La carne suelta, la piel sin una tersura total, los culos no demasiado duros. Debe de ser que me voy haciendo mayor y es una suerte que los gustos vayan evolucionando según las posibilidades. No es que ya no pueda estar con mujeres de cuerpos espléndidos, mucho más jóvenes que yo, que a veces algunas todavía se muestran dispuestas, sino que mi forma de mirar ya no es la misma. Hay mujeres que se cuidan para gustarse y mujeres que quieren estar buenas para competir con otras mujeres. Siempre huyo de estas últimas. Las mujeres más libres son las que se aceptan desnudas frente al espejo.

domingo, 10 de dezembro de 2017

Passar ao lado do espírito natalício


Por mais estranho que possa parecer, o Natal e tudo o que a ele está associado, toca-me cada vez menos. Talvez porque o que na sua essência era apenas uma lição de amor, de paz e de alegria, simples, poética e misteriosa como são as coisas mais importantes da vida se foi cada vez mais transformando num ritual absurdo e cansativo, de presentes, obrigações sociais e felicidades postiças.
É talvez por isso que nesta altura me apetecia fugir daqui para um sítio onde não houvesse Natal e voltar depois de ter passado tudo.
Cansa-me o caos do trânsito e as lojas a abarrotar de gente e de embrulhos, os brilhos e as luzes, as músicas e os votos de circunstância, a solidariedade apressada que se esquece no resto do ano, e o falso sentido de família, que na maior parte dos casos não faz sentido algum.
Lembro-me do tempo em que as Boas Festas não eram uma mensagem tipo, enviada igual para toda a gente (os "contactos"), sem qualquer selecção ou critério, na rapidez de um clic, mas personalizadas em belos postais escritos à mão. Do tempo em que o centro da festa era a magia da celebração de um Menino que nascia para nos salvar, e o presépio tinha musgo verdadeiro e se alongava por todo o móvel da sala de jantar. Hoje, mudou tudo, a família reduziu-se e os festejos adaptaram-se aos novos tempos.
Eu não preciso de festejos de calendário para querer bem às pessoas que me são especiais, para lhes telefonar, escrever, ou mandar mensagens, para as apertar nos braços e dizer como gosto delas e como são importantes para mim.
Neste tempo de tristezas e alegrias várias (lembro, por exemplo, a partida prematura do Pedro Rolo Duarte, que me marcou tanto, e a felicidade de saber que está tudo a correr bem com o novo coração do Salvador Sobral), de preocupação e liberdade (a minha mãe sempre no centro dos meus cuidados e o desejo de parar e descansar por uns dias, sem horários nem obrigações nenhumas) eu só quero que o Natal passe depressa e que os dias voltem a ser "normais" outra vez.