segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Verão de São Martinho

 

(Some days you hear a voice taking you to another place 
Some days are better than others) 

Nesta altura do ano, neste dia, fala-se sempre do "Verão de S. Martinho", que segundo a lenda, sobejamente conhecida, seria a recompensa de Deus em relação ao gesto do soldado Martinho, o qual, não tendo mais nada consigo, ofereceu a sua capa a um pobre mendigo que o interceptara no caminho.
Não sou grande fã de castanhas e, por isso, os magustos próprios da época não me dizem muito.
Mas gosto destes dois ou três dias com um calor fora de tempo, despedida definitiva do Verão e ponto de viragem para os rigores do Inverno, cada vez mais próximo.
Hoje, se pudesse, era num lugar assim que eu gostava de estar, de cabelo solto no vento, corpo rendido ao sol e olhos perdidos no horizonte, inebriando-me de azul em silencioso arrebatamento...
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

domingo, 10 de novembro de 2013

Às voltas com o tempo


Se exceptuarmos a "Festa do Cinema Francês", que já foi há umas semanas,  tenho andado um pouco afastada do cinema.Voltei ontem. E, desta vez, contrariando a tendência habitual, calhou um filme inglês, About time, de Richard Curtis. O mesmo de "Quatro Casamentos um Funeral" ou "Notting  Hill". 
O filme -  "Dá tempo ao tempo", na versão portuguesa - é também uma comédia romântica, de certo modo. Mas é mais que isso. Em termos genéricos, a questão que coloca é se seríamos mais felizes ou se poderia a nossa vida ser mais perfeita caso pudéssemos viver cada momento uma segunda vez. Para nessa nova oportunidade corrigirmos o que correu menos bem. Por isso tem aquele lado fantasioso, que dá à personagem principal  a capacidade de voltar atrás no tempo. E que a leva a concluir, no final, que a mágoa e a imperfeição fazem parte da vida e que mais importante do que procurar uma plenitude mais ou menos paradisíaca é ver o lado único e bom de cada instante. 
Enfim, não será um grande filme, mas é um filme tranquilo e bem-disposto. Um hino à vida e ao que há nela de mais simples. E depois tem as paisagens lindas da Cornualha, Domhnall Gleeson a fazer-nos rir no seu desajeitado e enternecedor Tim Lake, a personagem principal à volta da qual tudo gira, uma deliciosa Rachel McAdams e o impagável Bill Nighy no papel de um pai  afectuoso apesar de contido e, acima de tudo, muito bem-humorado. Razões de sobra para fazer deste filme uma história que vale a pena ver.
Mas, nem que fosse por esta canção de Nick Cave, que eu adoro, já teria valido a pena.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A arte da fotografia


(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)


(Fotografia de Isabel Santiago Henriques)


(Fotografia de José Manuel Durão)



(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

(Fotografia de mfc)
Impossível dizer o quanto eu gosto de fotografia. E como me deleito e demoro a apreciar as imagens que de algum modo me tocam. Gosto do olhar peculiar sobre a realidade, da forma subjectiva de tentar capturar um instante e segurar o tempo, imobilizando-o, da história que contam, apelando também à nossa imaginação e sentimento. Gosto de imagens com alma.
Talvez por isso, prefiro também os blogues que associam texto e fotografia, em detrimento dos que são apenas uma das coisas. Porque me parece haver nessa complementaridade um acréscimo de significado. Assim, no meu Isto e Aquilo é raro um post sem imagem. E há milhentas na internet, para todos os gostos. Algumas são muito bonitas. Mas confesso que me faz um pouco de impressão publicá-las sem lhes conhecer a autoria e a proveniência.
Gosto muito mais de usar fotografias como estas, de fotógrafos com nome e com rosto, que eu conheço pessoal ou virtualmente, e cujos excelentes trabalhos admiro tanto.
Nunca saberei agradecer-lhes convenientemente a generosidade de me deixarem fazer também um pouco minhas as suas obras de arte. E reinventá-las, na emoção que provocam em mim e que permite transformar o (meu) mundo num lugar mais belo ainda.
É isso que explica que hoje, subitamente, me tenha apetecido homenageá-los. Exprimir a minha gratidão. A todos os fotógrafos cujas fotografias já utilizei, e em especial a vocês, Paulo, Isabel, José Manuel, Cristina e MFC, muito obrigada!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

L'Étranger



Devia ter dezasseis ou dezassete anos quando li l' Étranger pela primeira vez. E esse contacto inicial com um dos grandes autores da literatura francesa foi para mim de uma importância determinante, apesar de, na altura, não ter sequer consciência disso. Mas lembro-me ainda da estranheza que o livro me causou, misto de desconforto, apego e inquietação. A ponto de nunca mais ter conseguido esquecer o seu fortíssimo incipit: Aujoud'hui, maman est morte. Ou peut-être hier, je ne sais pas.
E de querer conhecer mais livros e autores da língua pela qual tenho, ainda hoje, uma tão grande paixão. Só mais tarde viria a perceber que esta obra, publicada em 1942, adapatda ao cinema em 67 por Visconti, traduzida em variadíssimas línguas e muito lida, mesmo na actualidade, é um dos textos incontornáveis da literatura-mundo.
Albert Camus (1913-1960), o seu autor, nasceu há exactamente cem anos. É um escritor que me marcou, um dos que fazem parte da minha vida. Foi o DO que me relembrou a comemoração do centenário. E, uma vez mais, vale a pena ler o que Pedro Correia escreveu sobre ele
E para os que acham que a literatura só interessa às pessoas das Humanidades, aí está a prova de que ela pode ser capaz de modificar-nos e de nos ensinar a procurar um significado para a vida, nem que seja na coexistência com a sua impossibilidade.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

O Programa de Português


Desde ontem, e até dia 2 de Dezembro, estão em consulta e discussão públicas os novos programas de Português para o ensino secundário e as metas curriculares. São sessenta páginas, que ainda não pude ler de fio a pavio. Mas, para já, aquilo que li agradou-me muitíssimo. Porque volta a dar à literatura o papel de relevo que ela deve ter no ensino do Português. Voltam assim a estar no programa textos fundamentais da cultura portuguesa, que é obrigatório conhecer. Falo, por exemplo, da poesia trovadoresca, das crónicas de Fernão Lopes, da Peregrinação, ou do Amor de Perdição. E de tantas outras obras e autores que, de uma maneira inexplicável, haviam desaparecido dos programas.
Como o próprio programa refere na introdução: (...) a complexidade textual apresenta-se como uma das variáveis decisivas na compreensão da leitura e, concomitantemente, na produção textual, em particular escrita. É ela que permite o desenvolvimento de capacidades de compreensão mais elaboradas e robustas, que naturalmente tenderão a reflectir-se nas opções realizadas ao longo da vida, quer dentro da escola, quer fora dela. (...) O presente Programa valoriza o texto literário no ensino do Português, dada a forma diversificada como nele se oferece a complexidade textual. A literatura é um domínio decisivo na aquisição da compreensão do texto complexo e da linguagem conceptual, sendo, além disso, um repositório essencial da memória diversificada de uma comunidade, além de um inestimável património que deve ser conhecido e estudado (...) na sua dialética entre memória e reinvenção. (...) Em suma, defende-se uma perspectiva integradora do ensino do Português, que valoriza as suas dimensões cultural, literária e linguística.
Estranho muito as declarações da Associação de Professores de Português. Ou talvez não, porque já é hábito discordar completamente das suas posições. Quem disse um dia que o texto de um exame de 4º ou 6º ano era muito difícil porque "obrigava os alunos a pensar", vem agora, de novo, e confessando não ter ainda lido o novo programa, defender a ideia de que os alunos das áreas de ciências não têm que aprender literatura.
Como um dia já disse aqui:  Não admira que os alunos do secundário, hoje, gostem cada vez menos de Português. E tenham sérias dificuldades na interpretação de textos e enunciados e na expressão oral e escrita. Porque além de leituras superficiais de textos tão básicos quanto possível, obrigam-nos a saber o que são orações subordinadas adjectivas relativas explicativas, ou os mecanismos de coerência e coesão textual, distinguindo "catáforas" e "anáforas"; e também a classificar os "actos ilocutórios", dizendo que uma determinada frase  ou enunciado é "um acto ilocutório assertivo", por exemplo, ou a aprender figuras de estilo  abstrusas como "zeugma", "quiasmo" e "hipálage", que seis meses depois já não saberão o que significam. Mas, estranhamente, destas barbaridades quase ninguém fala. E muito menos a tal Associação de Professores de Português.
O que os alunos precisam, antes de mais, é de aprender a pensar, de desenvolver o espírito crítico e a capacidade de argumentação. E  de descobrir a importância das palavras; e que a leitura e a escrita  podem ser um enorme prazer. E de conhecer, pelo menos, os autores de língua portuguesa.
É por haver muita gente sempre disposta a defender o facilitismo e o nivelamento por baixo, o utilitário e o explícito, que este país atingiu níveis de ignorância e de iliteracia tão generalizados e gritantes como os que vemos, ouvimos e lemos todos os dias.
E enquanto se entender a escola como o lugar onde impera o que é conhecido e fácil - e por isso se insiste excessivamente nas novas tecnologias e nos "powerpoints"-, e se esquecer que os livros e a literatura nos abrem um mundo inteiramente novo e nos podem ensinar tanto sobre nós e sobre a vida,  não poderemos passar desta mediocridade dominante.
A escola só faz sentido se for a indicação de outro caminho, a abertura de horizontes, uma descoberta face ao que é desconhecido e diferente. Mostrar como isso pode ser bom é a obrigação de todos os professores. E ninguém disse que era fácil. Mas é, sem dúvida, um dos mais aliciante desafios.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Confissão


Quiero que me beses
y a media voz decirte que te amo
y háblame bajito
que nadie se entere
lo que nos contamos
quiero que me beses
que nadie se entere
lo que nos amamos

Por ti seré un angelito
Y guardaré tu corazón
y te daré la luz de luna
que tu corazón buscaba


domingo, 3 de novembro de 2013

(In)sinceridade



Comecei a ler o novo livro de HSC. Chama-se Vida e Alma e diz-se Breviário de Sentimentos, designação que me agradou de imediato. Não sei se por isso, ou se por qualquer outra razão inconsciente, não comecei a lê-lo pelo princípio, mas fui-o folheando um pouco ao acaso, como costumo fazer com os livros de poesia. E encontrei isto:
A vida não se ganha com o medo, ganha-se com a coragem de ser quem realmente somos, ou com o esforço de nos transformarmos em quem gostaríamos de ser. Ou isto: Ninguém vive se não esperar por algo bom, que seja bem melhor do que o que já conhece, já possui ou já experimentou.
E pus-me a pensar em muita coisa. Com o tempo, tendemos a aceitar-nos melhor e assumir ser como somos, com tudo o que isso tem de bom e mau. E tornamo-nos também mais imunes às opiniões alheias. Ao melhor estilo Gabriela Cravo e Canela (Eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim... ).
Eu, por exemplo, tenho a mania da sinceridade. Que pode ser uma qualidade ou um defeito, dependendo do ponto de vista. Costumo defender-me, dizendo que é bom ser sincero para as pessoas saberem sempre com o que contam. Mas, muitas vezes, muitas mesmo, o excesso de frontalidade também já se virou contra mim. Porque nem sempre é fácil encontrar o equilíbrio entre o que se deve dizer e o que é preferível calar. E fala-se demais. E diz-se o que não era preciso dizer. E que às vezes até pode magoar os outros. São também famosas algumas das minhas inúmeras "gaffes". Enfim, gostava de conseguir ser  mais comedida.
E, no entanto, posso ficar verdadeiramente triste se percebo que as pessoas não são sinceras comigo. Mesmo sabendo e tentando aceitar que não somos todos iguais, há poucas coisas que podem decepcionar-me mais.
Mas como diz uma canção de Jorge Palma de quem me lembrei agora: Enquanto houver estrada pra andar/ a gente vai continuar. E, na verdade, a vida vai-se aprendendo a cada passo do caminho.


(Fotografia do blogue Pé-de-Meia, de mfc)