sexta-feira, 22 de novembro de 2013

À lareira



Depois de um fim de semana de sol e de mar segue-se-lhe outro totalmente diferente, de frio e chuva, a pedir recato e intimidade. Mas são estas vicissitudes que dão, também, encanto à vida.
Hoje, quando regressava num fim de tarde de um dia especialmente cinzento, húmido e agreste, enquanto apressava o passo para me defender do frio cortante que se me entranhava por todos os poros e sonhava com o calor da casa, antevendo as horas de calma, de preguiça, de aconchego e de bem-estar, lembrei-me de uma canção do tempo da minha adolescência, ou até de antes dela. Coisa mais antiga...



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Um amor assim



Não, não quero falar de futebol. Não quero saber do Ronaldo nem do mundial; e toda esta gigantesca euforia nacional me passa ao lado. Parece-me absurda e desproporcionada. É-me absolutamente indiferente. Não me vanglorio com as vitórias, nem me humilham as derrotas. Vou sabendo o que passa, porque não há outro assunto. Hoje, o país é só futebol. Amanhã volta a crise. E depois de novo o futebol, em rigorosa  alternância. Triste país este, que apenas no orgulho futebolístico se assume patriota.
Mas, para mim, hoje, és tu o meu país e até o mundo. Porque quando me olhas nos olhos, ainda vejo às vezes tudo a andar à roda; e o coração começa a bater mais apressado; e há vontades a crescer-me nas mãos, e na pele, e no corpo todo, na inevitabilidade do desejo, na urgência do  abraço apertado e  na vontade imensa de te querer ter, ansiando e antecipando a vertigem do prazer.
Nem preciso que me ames para sempre. Basta-me o aqui e o agora  de todas as vezes que se foram somando e eternizando, de tantos momentos de cumplicidade e risos confundidos,  de tudo o que ainda me fazes pensar e sentir, e mesmo do sabor amargo de tantos  dias e noites de saudade sem tamanho, de distâncias e esperas, de dor e lágrimas silenciosas, de mágoas e de desalentos, que também foram fazendo a nossa história, tão simples e tão bonita, por mais estranha e inexplicável que ela possa parecer a quem não a conhece pelo lado de dentro. É que, quando o amor é enorme, cabe numa vida inteira.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Fazer das fraquezas força



Há sempre um "fazedor de histórias" escondido no fundo de cada um de nós. São as nossas histórias que nos recriam quando estamos despedaçados, moribundos, ou mesmo destruídos. É o narrador, o fazedor de sonhos, o construtor de mitos, que é a nossa fénix, aquilo que somos no melhor de nós mesmos, da nossa criatividade.

Estas são palavras de Doris Lessing, que morreu há dois dias com 94 anos, no discurso a propósito do Prémio Nobel. E com elas encontro hoje, de novo, no Fio de Prumo de HSC, qualquer coisa que se ajusta ao meu dia.
Mesmo quando se tenta aceitar tudo com a naturalidade da inevitável passagem do tempo, há dias de desânimo e de perda, em que sobra a saudade de um colo antigo, que se sabe não voltar.

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Fascínio(s)



Homme libre, toujours tu chériras la mer! 
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme 
Dans le déroulement infini de sa lame 
Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer 

Tu te plais à plonger au sein de ton image; 
Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur 
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage. 

Charles Baudelaire

Quem nasce e vive sempre à beira-mar, cria nessa proximidade um inexplicável apego, que mistura  temor, enlevo e assombro, que é conforto e encorajamento, ou simples sentimento de harmonia com o universo. É como se a imensidão das águas tivesse em si, além da esmagadora beleza que lhe é inerente, uma transcendência que exalta e apazigua, que é príncípio e fim, símbolo do porvir, desejo de infinito.

(Fotografia de Isabel Santiago Henriques)

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Viajar no Inverno



http://www.youtube.com/watch?v=9mGjh-oaGY4

Sou visceralmente citadina. Quem me conhece sabe da minha paixão por Lisboa, por Paris e por Sevilha. E do meu desejo de conhecer outras cidades, Buenos Aires, Nova Iorque, Rio da Janeiro. 
Há nas cidades um magnetismo, um mistério, uma magia qualquer, que não sei explicar e me seduz.  Deslumbro-me a vê-las despertar e ganhar vida logo de manhã, cativa-me o movimento das ruas, o bulício ao fim da tarde e os silêncios e ruídos que diferenciam as noites e os dias. Atrai-me a vida a correr contra o tempo como se tudo fosse sempre muito urgente e delicio-me a descobrir recantos tranquilos e secretos. Gosto das especificidades de cada lugar, das cores, dos sons e dos cheiros que os caracterizam, de admirar a arquitectura dos edifícios onde o novo e o antigo coexistem, às vezes em harmonia e outras vezes nem tanto, de observar as pessoas e olhar atentamente as centenas de coisas que em cada momento me passam diante dos olhos e me avivam o espírito. 
Na verdade, sempre que penso em viajar, é de uma cidade que me lembro em primeiro lugar. E faltam-me tantas!... Na Europa, por exemplo, faltam-me quase todas as cidades românticas: Veneza, Praga, Budapeste, Bruges, Florença, Roma, Amsterdão. Ah, tivesse eu mais tempo e, sobretudo mais dinheiro, e já teria ido a quase todas.
Mas evito viajar no Verão. Porque é um tempo de excessos. Há o calor e as moscas e gente a mais por todo o lado. Mesmo quando as férias grandes eram em Agosto, gostava de aproveitar os feriados de Dezembro para sair. Nem que fosse para Espanha, sempre aqui tão perto.
No ano passado experimentei pela primeira vez sair entre o Natal e o Ano Novo. E foi muito bom. Tanto, que este ano gostava de poder repetir. A hipótese ainda surgiu (e era Veneza), mas afinal parece que já não vai ser possível. Não importa! Lembra-me aquela canção de Reggiani:
Venise n'est pas en Italie/ Venise c'est chez n'importe qui/ Fais-lui l'amour dans un grenier/ Et foutez-vous des gondoliers/ Venise n'est pas là où tu crois/ Venise aujourd'hui c'est chez toi/ C'est où tu vas, c'est où tu veux/ C'est l'endroit où tu es heureux.
E, apesar da minha extrema urbanidade, às vezes também tenho vontade de silêncio e de sossego. E acontece-me querer "perder-me" em fundo verde, ou azul. Sou mais praia do que campo, ainda assim; sinto o apelo da água mais do que o da terra e, por isso, gosto frequentemente de me escapar para junto do mar. É o que vou fazer já hoje!...

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Impressão

Era uma tarde linda de Outono de um dia quase perfeito, iluminado por um sol ainda morno, que uma aragem fresca suavizava. A lembrar um fim de tarde de Verão. Nas ruas a imagem habitual, o passo apressado de quem tem hora marcada e sabe exactamente que direcção seguir,  a contrastar com o movimento ondeante dos que apenas vão deambulando em ritmo de passeio,  aproveitando a temperatura amena e olhando à sua volta devagar, embrenhados naquele semi-sossego de meros espectadores, misturando-se com os turistas atentos a cada pormenor, e o rio, sempre mais ou menos igual, quieto e cintilante, a revelar-se ou ocultar-se em cada volta de esquina.
E de repente, o insólito acontecia. Um homem atirava-se do miradouro de onde usualmente se  admira a cidade na sua estonteante e romântica beleza; e caía desamparado, daquela altura descomunal, no meio dos passantes.
Não o vi cair. Mas a imagem do corpo estendido no chão, morto, à espera de ser levado, entre o aparato policial e uma pequena multidão que se foi juntando e, em murmúrios e suposições sussurradas, numa insensata e repentina morbidez, queria saber todos os detalhes, agarrou-se-me ao  dia e aflige-me até agora.
Impressionou-me muitíssimo aquele corpo caído, mais solitário ainda no abandono do meio da rua,  do que na tragédia de uma morte que escolhera tão violenta. E mesmo sem conseguir imaginar, sequer remotamente, pergunto-me quanto desespero cabe num acto como este.  

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Aprender a escrever



Retomo aqui um assunto que me é especialmente caro, porque é talvez um dos eixos fundamentais da minha vida profissional. E porque tenho de referir, de novo, o excelente artigo de opinião de Vasco Graça Moura, hoje no DN, com o qual concordo na íntegra, que vem ao encontro daquilo que penso há muito tempo e que, por motivos vários, nos últimos dias, tem sido tema de conversa com várias pessoas.
O texto, intitulado "O ensino do Português", trata sobretudo da discussão pública do "Programa e Metas Curriculares de Português", de que eu já falara também na semana passada.
Diz, por exemplo, isto: Vale a pena ler o documento do Ministério da Educação, muito bem fundamentado e com objectivos claramente enunciados. (...) valoriza-se a importância da literatura no ensino do Português, salienta-se a "dimensão prospectiva e o potencial de criação que significa a leitura dos clássicos" e entende-se o texto literário como uma realidade em que "convergem todoas as hipóteses discursivas de realização da língua". (...) Trata-se, como também ali se lê, de "escrever para aprender e escrever para pensar, na sua articulação com o ler para escrever." E termina com esta frase: Em si mesmo, este programa de Português para o ensino secundário é já parte de um guião fundamental para uma verdadeira "reforma do Estado".
Escrever deveria ser o centro das preocupações da cada professor de Português, apesar de eu saber, na pele, quanto isso custa. É um trabalho lento e árduo.
Há pessoas que nascem com jeito para escrever, como há as que nascem com jeito para dançar, ou para cantar. E, no entanto, toda a gente, mesmo os que não têm esse talento, que é como um dom, podem aprendê-lo, com esforço, persistência e a técnica adequada. Não haverá um Balzac nem um Camilo dentro de cada um de nós, mas trabalhando a escrita qualquer pessoa pode ser capaz de se exprimir muito razoavelmente deste modo.
O que não se pode é pretender que alguém chegue ao 12º ano e seja capaz de fazer um comentário de frase, num texto bem estruturado e linguisticamente correcto, apresentando argumentos válidos, quando durante os anos anteriores não se trabalhou nesse sentido. Aprender a escrever é um caminho que se vai construindo desde cedo e que leva anos. E, aos poucos, vai-se aprendendo também a organizar o pensamento e a estruturar o discurso, a assumir pontos de vista e uma visão do mundo mais consciente e mais crítica. E descobre-se o prazer que tudo isso pode proporcionar. E percebe-se que a leitura e a escrita estão absolutamente interligadas; e que para escrever é preciso, antes de mais, ler.
Por isso continuo a dizer o que sempre digo. Ensinar ou aprender Português tem que ser ler, ler, ler; e escrever, escrever, escrever. E ler textos literários. Porque quem lê um texto literário e consegue entendê-lo, será sempre capaz de entender qualquer outro tipo de texto. O inverso é que já não é verdadeiro.
Sei muito bem do que falo. E sei o trabalho que tudo isto dá. A quem aprende e a quem ensina também. Porque é preciso ler e corrigir muitos textos, indicar em cada um o que está bem e o que está mal, onde e como melhorar.
Mas ensinar Português é muito isto. É sobretudo isto. E só assim faz sentido. E depois, é indizível a alegria e o orgulho de ver alguém a crescer e a revelar-se escrevendo. E saber que, de algum modo, se contribuiu para chegar até ali. E que é possível ir ainda mais longe.