segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A moda das tatuagens

 
Definitivamente, eu não gosto mesmo nada de tatuagens.  Não consigo! Há modas que não me convencem de modo algum, vista a questão seja de que perspectiva for. E há coisas, também,  em relação às quais eu me confesso de uma intransigência sem limites, desproporcionada, quase irracional.
Dantes, quando eu era pequena, as tatuagens eram todas em forma de coração e tinham mensagens similares, que passavam  invariavelmente por uma inscrição do género: "amor de Mãe - Angola 1973". Hoje, há de tudo um pouco e para todos os gostos: desde a "Sininho" à execrável "Hello Kitty", passando por frases pseudo-profundas como: All you need is love, símbolos árabes ou caracteres japoneses, golfinhos no ombro,  rosas no tornozelo, estrelas na nuca ou no pescoço, flores no pulso, o nome do(a) namorado(a) nos lugares mais inconcebíveis, até aos desenhos personalizados e pretensamente originais, mas que de inovador têm muito pouco. E, no entanto, a diversidade não veio melhorar nada. Pelo contrário. O facto de ser uma moda que tem agora tantos seguidores, tornou-a  mais banal e corriqueira e, por isso mesmo,  ainda mais detestável. Com a agravante de que aquela porcaria nunca mais sai.
Quando penso em tatuagens, ou quando me entram pelos olhos dentro, vem-me sempre à ideia uma canção brasileira e a voz, magnífica, de Luís Represas: "Porque gado a gente marca (...) mas com gente é diferente..."
Falam-me de "arte" e de mais não sei o quê e eu não encontro ali beleza alguma. Apenas consigo vê-las no que têm de mais "chunga". Há em todas as tatuagens um toque qualquer de vulgaridade, que as torna, aos meus olhos, todas iguais. Um bocadinho exibicionistas, até.
E não apenas em casos extremos, de tatuagens enormes, que ocupam grandes extensões do corpo. Refiro-me a todas;  e, por isso, também, àquelas mais ou menos simples, em lugares recônditos, acessíveis apenas a alguns olhares, em circunstâncias de maior intimidade. Porque não há tatuagens discretas. É sempre qualquer coisa que está a mais,  uma espécie de borrão, uma mancha que se podia ter evitado. E já vi corpos lindos, que perdem a sua absoluta perfeição, porque, num cantinho qualquer, lá está aquele defeitozinho a dizer "olá, cá estou eu", confirmando a ideia de que "no melhor pano cai a nódoa".
Consigo, apesar de tudo,  amar quem tem uma tatuagem? Claro que sim, porque às vezes o amor sobrepõe-se a tudo e, então, a questão passa a ser insignificante. Não é pois caso para gostar menos de alguém só por causa de uma tatuagem,  mas, olhando para ela,  apetece-me sempre dizer: "Serias tão mais perfeito se não tivesses isso aí..."
Chamem-me beta, tia, snob, o que quiserem, mas não consigo olhar para uma tatuagem sem a achar uma "piroseira".
Enfim, parafraseando a Imperatriz Sissi, de um blog a que acho imensa piada, eu, quanto a esta "modernice", manifesto o meu enorme e mais profundo blheeec!

domingo, 9 de dezembro de 2012

O meu sofá


Ocupa o centro da minha sala e tem um lugar privilegiado na minha existência. Conhece os meus segredos mais obscuros, aqueles que não ouso mesmo contar a ninguém. Já viveu muito e talvez esteja, até, um bocadinho fora de moda. Mas isso não tem para mim a mais pequena importância. Porque temos uma longa história comum, de cumplicidade e de partilha.
Menos próximos de manhã, que é a altura do dia em  passo por ele com indiferença e quase o ignoro,  é a partir da hora de almoço  e à medida que o dia se vai fazendo noite, que nos vamos tornando mais íntimos. Então, consente-me tudo e, às ordens do meu humor e da minha vontade, deixa-se usar: para dormir, sonhar, divagar, descansar, ler, escrever, pensar, comer,  falar ao telefone, ver televisão, ouvir música, namorar. Para tudo o que eu quiser. E devolve-me a serenidade de que tantas vezes necessito.
É como um enorme colo, que me ampara e aconchega, única testemunha de inúmeras alegrias e desgostos, de tristezas passageiras, de  recordações, de desejos, de conversas e de silêncios, de mágoas profundas, de raivas incontidas e de lágrimas silenciosas, mas também de muitos momentos de ternura, de carícias demoradas, de almas a nu, de beijos apaixonados e de corpos despidos à pressa, na urgência do amor.
Sinto-lhe a falta com frequência. Quantos dias, sentada à frente do computador, a seguir ao almoço, me invade aquela moleza do corpo a pedir descanso e sonho com as delícias de uma sesta. Ou, em tardes de chuva e frio, anseio por lanchinhos, de lareira acesa, entregue ao seu conforto, de olhos presos na luz e no calor das chamas,  deixando o pensamento voar.
É onde gosto de me estender, quando chego a casa cansada, farta, ou triste. Ou quando estou feliz e  me apetece ficar um bocado sem fazer nada, deixando passar o tempo, perdida em mil  ideias e fantasias, de imaginação à solta, em tardes e noites ociosas, de silêncio, de paz e de preguiças várias.
Ah, se o meu sofá falasse, teria tanta coisa para contar...

sábado, 8 de dezembro de 2012

Blanca Paloma

 
Y a mí que me importa el día
ni el mes del año que sea
y aunque no haya romería
Mi fe siempre va con ella
Todo el año y cualquier día


Porque hoje é um dia consagrado a Nossa Senhora. E porque é a Virgem do Rocío que me guia, que me protege e que sempre me acompanha.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

E, de novo, Espanha


Não sou uma daquelas pessoas que olha com desconfiança para tudo o que é espanhol, alimentando o velho ditado segundo o qual, daqueles lados, "nem bom vento nem bom casamento." Irritam-me as rivalidades parvas entre dois países que têm tudo para se entender, porque, no fundo, se calhar, o que nos aproxima é muito mais do o que nos afasta, contrariamente ao que, durante tantos anos, sempre nos quiseram fazer crer.
Eu gosto de Espanha na sua diversidade e nos seus contrastes, como gosto de tudo o que é controverso e se ama, ou se odeia, sem indiferença nem meias tintas. É um país onde me sinto bem. Identifico-me com o prazer de viver e o espírito positivo, que faz de tudo uma festa. Mas, ainda me falta conhecer muita coisa. É que Espanha é enorme!...
Gostava, um dia, por exemplo, de fazer o caminho de Santiago, de ir ao cabo Finisterra, a Oviedo brindar com sidra, ou às festas de San Fermín, em Pamplona. E, também, a sítios menos afamados e muito mais recônditos, como Úbeda, na província de Jaén, considerada a jóia do renascimento andaluz,  Ronda,  ou Sos del  Rey Católico, em Zarogoza. E mais; muito mais!
Do que conheço, gosto de maneira mais intensa e apaixonada de San Sebastian, romântica e cativante, da aldeia de El Rocío (Huelva), por tudo o que significa para mim, de Barcelona, só por causa do Gaudí, (que os catalães são mesmo muito embirrantes), de Madrid, monumental e cosmopolita e, naturalmente, de Sevilha, que é a Espanha mais genuína.
Porque Espanha, para mim, é sul. É Andaluzia, sol, touros e mar. São as esplanadas, o flamenco e as sevilhanas. São noitadas intermináveis,  de amigos, de copos e de música. É o entusiamo excessivo e inebriante, com razão ou sem ela, o colorido forte e o à-vontade às mãos cheias.
Adoro  Sevilha, a sua cálida luminosidade, o ambiente "callejero" e a vida ao ar livre, o tilintar dos guizos das carroças  misturado com o som dos cascos dos cavalos no asfalto, a paz do rio Guadalquivir, o fervor religioso em ritmo de alegria, a simpatia das pessoas, o movimento fervilhante das ruas ao final do dia e a preguiça da sesta nas tardes quentes de Verão. Seja em que altura do ano for, Sevilha é sinónimo de ócio, de animação e de folia.
Há um ano que não vou a Espanha. E já tenho muitas saudades. Mas, daqui a mais ou menos vinte dias, vou resolver isso. Habituada a viajar em Dezembro, mas nunca nesta altura do ano, assim, entre festas (de Natal e de Ano Novo), é, de certo modo, uma estreia dupla, porque vou muito bem acompanhada, com amigos de há muito anos, mas com quem, por razões várias, nunca viajei antes. Só o destino é que não é novo. Repetir destinos conhecidos é uma velha mania minha e, desta vez, calhou Madrid. Não é a minha cidade preferida, mas é uma belíssima cidade, um  lugar onde me sabe sempre  bem regressar. E depois, Madrid é perto e bom caminho. E tem muito para ver e para fazer. Vai ser bom!...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Por toda a minha vida


Conhecemo-nos até ao mais pequeno detalhe, partilhamos pequenos e grandes momentos da vida um do outro, gardamos mil e um segredos de momentos só nossos, que nunca  ninguém, além de nós, saberá. Depois vem o tempo e o resto, que altera muita coisa, quase sem darmos por isso.
Mas não o essencial, que continua enorme e inteiro no coração. Porque há sentimentos que resistem ao tempo. E o que é que pode ser melhor do que a certeza de nos termos um ao outro para sempre?

domingo, 2 de dezembro de 2012

Espírito de Natal

 
Chegou o mês de Dezembro, tempo do advento e, por todo o lado, já se respira Natal.
Nesta época tão alucinantemente festiva, cheia de luz, de encanto e de emoção, é difícil não nos deixarmos contagiar pela euforia consumista, esquecendo um pouco a essência do que celebramos, o presépio e a sua lição de amor e simplicidade.
A alegria do nascimento do Menino Jesus traz, em cada ano, uma magia especial às nossas vidas. O que nos toca, verdadeiramente, é a força e a grandeza deste Deus Menino, que vem ao nosso encontro em toda a sua inocência, trazer-nos uma mensagem profunda de verdade, de amor, de vida e salvação.
E, na emotividade da festa, parece que os sentimentos se acentuam e fortalecem. Parece inevitável sentirmo-nos mais perto das pessoas de quem gostamos.
Eu, que sou uma sentimental, vivo estes dias com as emoções à flor da pele, fico muito mais sensível, tudo me comove e, apetece-me, acima de tudo, apertar nos braços, com muita força, todas as pessoas de quem gosto. E dizer-lhes, muitas vezes, como são importantes para mim e como lhes quero bem.
É em alturas assim que tenho vontade de celebrar a vida ainda mais, de agradecer a Deus as coisas boas que me dá todos os dias ( e são tantas!) e as pessoas maravilhosas que trouxe à minha vida e, em parte, fizeram (e fazem) de mim tudo o que hoje sou. E porque o espírito do Natal é todo só amor, esse é o melhor presente que tenho para dar às pessoas que trago no coração. É que o amor é o que há de mais forte e mais bonito. O amor pode tudo. E só o amor importa.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Paris


Depois de Lisboa, é Paris a cidade que trago no coração. O que nos liga é um amor intenso e muito antigo. Conheci-a nos livros, nas fotografias, nas canções, nos filmes, antes de a conhecer na realidade; idealizei-a ao sabor da minha imaginação, deixando-me encantar pelo romantismo e a boémia que lhe estão associados, num tempo em que a cultura francesa era ainda a cultura dominante, embora já em fase de declínio.
Quando a visitei pela primeira vez, devia ter uns dezanove anos. E foi uma enorme emoção. Sonhara com esse encontro vezes sem conta. Ainda me lembro como se fosse hoje da minha entrada inicial em Paris, de madrugada, na excitação de tudo o que se quer muito e acontece pela primeira vez, na alegria desassombrada  de poder por fim estar num lugar que nunca vira antes e que, no entanto, já me pertencia. E da comoção de tudo ser  tão real e palpável, daquele mundo, até aí sonhado e imaginário, subitamente tornado verdade para os meus sentidos; e daquela primeira impressão de grandiosidade, de que tudo era afinal imenso, ou, pelo menos, muito maior do que  eu imaginara.
Hoje, já não sei quantas vezes lá voltei. Conheço Paris em quase todas as estações do ano: sei do sol abrasador nas tardes de Verão do Quartier Latin - que eu adoro -, do frio cortante que se sente ao caminhar nas Tuileries, em manhãs gélidas de Inverno, do encanto da cidade tão justamente apelidada cidade luz (ville lumière) intensificado pelo brilho das iluminações na época de Natal, da doce tranquilidade das manhãs na Place des Vosges, do sol de Primavera amenizando o silêncio e a quietude dos cais do Sena, luminoso, reflectido no rio, ou fazendo brilhar os  típicos telhados, na deslumbrante vista da cidade desde Montmartre. Falta-me apenas Paris no Outono;  e imagino como devem ser fantásticos os fins de tarde no Jardin du Luxembourg,  - que é um dos meus locais preferidos -, com as árvores e os extensos relvados cobertos de folhas douradas.
Gosto de tudo em Paris: dos monumentos e dos edifícios, das ruas e dos cafés, das praças, dos jardins, da cidade construída à volta do rio, da dissemelhança das suas inúmeras pontes, dos bateaux-mouche, passeando de cá para lá no Sena, da arte em cada esquina, do requinte de cada detalhe, do ar em que se respira cultura e sofisticação, da atmosfera simultaneamente retro e avant-garde.
Paris é uma cidade apaixonante, um daqueles lugares com alma, onde o amor apetece. Há nesta cidade uma magia qualquer, uma luz especial, um magnetismo insondável, que me faz querer sempre voltar. Porque, para mim, regressar a Paris é como regressar aos braços de um amor antigo, que se conhece de cor e ainda assim nos surpreende e entontece, que guarda inesgotáveis segredos por revelar. Entre nós há uma cumplicidade que não consigo explicar. Talvez só em Baudelaire, na sua Invitation au Voyage, encontro algo que se aproxima vagamente do que Paris me faz sentir, no dístico que se repete como um estribilho: Là, tout n'est qu'ordre, beauté, luxe, calme et volupté.
Paris é um dos meus grandes amores. Um amor sem porquê. Mas, não são todos os amores inexplicáveis, avessos a definições, irredutíveis às palavras?