terça-feira, 17 de setembro de 2013

Escolha(s)



Mesmo com a imensidão do mundo por caminho, ainda é no silêncio dos teus olhos que me abrigo. Porque há dias em que, no fundo dos teus olhos, tudo volta a ser verdade...

(Fotografia do blogue Pé-de-Meia, de mfc)

domingo, 15 de setembro de 2013

Um Óscar para Cate Blanchett




Woody Allen é um daqueles realizadores de que se gosta muito, ou não se gosta nada. Pertenço ao primeiro grupo. E acho mesmo que, para quem gosta de cinema, é um autor incontornável. Vi quase todos os filmes e gostei de alguns mais do que de outros, naturalmente. Assim de repente lembro-me de uns muito antigos, Annie Hall, ou Interiors, por exemplo, e de outros  mais recentes, como Match Point, ou o fabuloso Midnight in Paris, que eu adorei, e não só por se passar em Paris.  Creio, aliás, que o filme ganhou o Óscar do Melhor Argumento Original.
 Blue Jasmine, o seu último filme, é também magnífico. É um filme no feminino, construído à volta de Cate Blanchett,  inesquecível e genial como Jasmine, mas brilhantemente secundada por Sally Hawkins, no papel da irmã, Ginger, enternecedora na sua quase ingénua simplicidade.
O que há de extraordinário nestas personagens é a sua humanidade. É isso, de resto que as torna credíveis, a ponto de nos perturbarmos com o drama de Jasmine, cujo delírio, sempre a pisar a linha de fronteira da insanidade, desperta a nossa compaixão. E são tão autênticos os seus monólogos, é tão genuinamente verdadeiro o seu olhar vago, que  nos comovemos com a tragédia do seu infortúnio e a acompanhamos perdida em si mesma, a caminho da loucura; e quase nos sentimos à deriva com ela, na procura da redenção.
Este é, sem dúvida, um dos filmes do ano, que dará provavelmente a Cate Blanchett um Óscar mais do que merecido. E nem que fosse apenas por isto, já valeria a pena vê-lo. Porque ela enche o filme todo, embora o filme seja mais que isso: é também a sua brilhante construção, que vai alternando passado e presente, tudo docemente embalado pela cadência do jazz e dos blues. A não perder...


sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Regresso às aulas



Contrariamente ao que se passa com muita gente, em especial nesta altura do ano, nunca me custam as segundas-feiras, nem o pós-férias, ou o começo de um novo ano.
Na verdade, não sofro desse desalento do (re)começo, nem consigo compreender bem a nostalgia do ócio, que se manifesta nas mais diversas formas de abatimento e afecta de maneira mais contida, ou mais ostensiva, pessoas de todas as idades. Eu regresso sempre cheia de força. E depois, lá mais adiante, é que me apetece parar de novo. Porque o que me sabe mesmo bem é que à azáfama do quotidiano, à rotina carregadinha de horários rígidos e de obrigações a cumprir, se sucedam os períodos de puro prazer, em que me posso deixar guiar pela vontade de cada momento e em que o tempo é todo meu, numa cadência alternada, tal como depois da noite surge o dia, e depois da escuridão vem a luz, ou depois da tempestade a bonança.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Hoje, o dia é do Paulo!...



Faz 51 anos e  eu gosto muito dele. E apesar de tudo o que ouço e leio por aí, na habitual maledicência que enaltece a mediocridade dominante e não tolera quem se destaca, eu acredito nele. E ouço-o, naquela postura séria que é  exemplo de força, de persistência e de determinação e não posso deixar de confiar. E admiro-lhe a inteligência, a vontade e a coragem. E, num país em que há tão pouca gente capaz, agradeço-lhe tudo o que tem feito e espero que não desista de nós. Porque Portugal precisa de políticos assim.
É por tudo isto e pelos valores que temos em comum que o Paulo é uma daquelas pessoas de quem me sinto imensamente perto. E, como hoje é um dia de festa para todos os que gostam dele como eu,  associo-me  à alegria da celebração da vida e  deixo-lhe aqui um enorme abraço de parabéns, mesmo assim, apenas virtual, mas com enorme  respeito e estima.
(Fotografia de Isabel Santiago Henriques)

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Impossível esquecer


Há doze anos estava em casa a esta hora, a preparar as primeiras aulas de um ano lectivo que começava daí a dois ou três dias. Na sala tinha a televisão ligada no telediario espanhol, como de costume, que ia ouvindo de maneira mais ou menos desatenta. E, de súbito, no fim do jornal, uma notícia de última hora chamou-me a atenção: um avião tinha acabado de chocar com as torres, em Nova Iorque. Fui até à sala e assisti em directo ao segundo embate. Aquilo que se pensara primeiro ser um acidente, era afinal muito mais que isso. Durante o resto da tarde, e da noite, já não saí da frente da televisão. E assisti em estado de choque, com o resto do mundo, aos relatos imprecisos e emocionados do que se estava a passar num dia de horror que havia de mudar o mundo para sempre.
Este Verão li um livro sobre esse 11 de Setembro de 2001. Chama-se A Manhã do Mundo e é um livro que incomoda. Porque apesar de ser uma obra de ficção, é impossível não sentir cada um daqueles dramas, não reviver a confusão de sentimentos, a dor daquele dia e dos que se lhe seguiram. O livro foi escrito pelo Pedro Guilherme-Moreira do blogue Ignorância. Hoje, doze anos depois, o Pedro escreveu isto no Facebook:
Há doze anos o 11 de Setembro marcou-nos a todos. Eu fui dos que segui a voragem noticiosa no centro da dor de todo o mundo (morreu o mundo inteiro naquelas torres)(...) Depois fui mais fundo e mais fundo, quis entrar nas torres e contar a história dos suicidas da torre norte, heróis dos tempos modernos, por corporizarem cada um de nós, a qualquer momento, nas nossas cidades, no nosso escritório, a asfixiar, a arder, a perder a esperança, a ter de tomar a última decisão. (...) Sei que nunca mais me curarei e cuidei que ninguém mais se curasse ao escrever "A manhã do mundo", que a Dom Quixote deu à estampa em Maio de 2011, sob edição da Maria Do Rosário Pedreira. Talvez seja difícil explicar porque é que este dia é tão duro para mim. Porque é que sinto sempre que tenho uma tonelada sobre o peito. Mas o bombeiro luso-americano Arthur Sanhudo, que fez parte desse dia, a Taciana de Aguiar, irmã do João Aguiar, português morto na torre sul, e até o ilustre poeta João Luís Barreto Guimarães, em Nova Iorque nesse dia e com um relato público assombroso, feito em directo no seu blogue nos dias subsequentes, sabem desse luto e dessa dor que todos partilhamos. E os leitores do livro sabem que vestir a pele dos heróis lhes tira a indiferença em que corremos sempre o perigo de cair, se nos esquecermos. E não nos podemos esquecer.
Hoje Nova Iorque continuará a ser a capital do mundo, um lugar fascinante, a cidade que nunca dorme, mas é impossível falar dela sem lembrar esta data, como uma ferida indelével em infinita laceração.
(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Inquietação

 
Há na aparente tranquilidade dos dias uma subtil oscilação entre a indolência de se deixar ir na fluidez do tempo, as incertezas e fragilidades que retraem os passos, tornando-os hesitantes ou receosos, no temor de novos desencantos e fracassos, e o sobressalto do que incessantemente se procura, na crença desassombrada e audaz de um lugar utópico onde todos os sonhos são possíveis, na certeza de que para lá do nevoeiro o caminho é luminoso e tem todas as cores do arco-íris, mesmo se não se sabe exactamente por onde ir, como chegar, ou onde se vai dar, guiado apenas por um coração desperto, desabrido e intrépido, que às vezes bate acelerado, e que não deixa de querer, nem de acreditar.