terça-feira, 30 de julho de 2013

Nostalgia(s)




Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé


Há, na vida quotidiana, muitos momentos sublimes que deveriam poder eternizar-se ...

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Falta-me o mar


Este foi um Julho atípico, marcado por aquela malvada constipação, ou virose, ou lá o que foi que me ia dando cabo de um ouvido, e tantas outras incertezas, ilusões, desilusões, desassossegos, ansiedades, com as mais diversas origens, que me mantiveram afastada da praia o mês inteiro.
É verdade que agora só me restam os fins de semana e que eu dispenso e  às vezes até evito as enchentes típicas da época, com criancinhas aos guinchos, música aos berros, calor em excesso e todas as variantes do(s) lazer(es) massificado(s).
E, no entanto, falta-me o azul imenso e a vastidão das águas onde preciso de pousar os olhos e deixá-los ficar, porque é nessa visão contemplativa e extasiada de céu e mar juntos, ou no aparato da onda que se lança desabrida sobre a areia da praia, que me reequilibro e volto a sentir a harmonia do mundo e da vida e redescubro a paz interior que me dá a força de acreditar e prosseguir.
Um dia destes, tenho mesmo que ir vê-lo...

sábado, 27 de julho de 2013

Paixões Proibidas


Não gosto de dizer "nunca",  e é verdade que no amor há muito de irracional e de inexplicável, mas dificilmente me imagino a amar um homem muito mais novo ou muito mais velho do que eu. Porque, digam o que disserem, me parece que a idade conta.  E porque há entre mim e as pessoas que são mais ou menos da minha geração (vá, com uma diferença de até dez ou doze anos para cada lado) uma cumplicidade imediata que nos faz entendermo-nos de um modo muito natural e sentirmo-nos inevitavelmente mais próximos, porque vivemos as mesmas coisas nas mesmas alturas.
Pensei nisto a propósito do filme "Paixões Proibidas" (Two Mothers, no original), uma história de amor e de transgressão.
Realizado por uma luxemburguesa, Anne Fontaine, que curiosamente viveu a sua infância em Lisboa, adapta um conto de Doris Lessing, de 2003, The Grandmothers,  e conta a história, pouco banal, de duas amigas de infância quase inseparáveis, Lil e Roz, que se envolvem passionalmente, ambas, com o filho uma da outra.
Interpretado de forma notável por Naomi Watts e Robin Whright,  aborda os temas da amizade, do amor e do desejo, num lindíssimo cenário australiano, uma praia paradisíaca que parece um lugar longe do resto do mundo, tal como a história,  fora do comum, complexa e tocante, visualmente bonita como a paisagem, que nos  seduz  e incomoda no modo envolvente como trata a vertigem e o desregramento do desejo, a incapacidade de lhe resistir. E, no entanto, o filme, tocando com audácia um assunto mais ou menos tabu, fá-lo sempre com prudência e uma certa melancolia, aflorando também o medo do envelhecimento, pois é como se houvesse naquelas duas mulheres maduras uma tentativa, entre o patético e o desesperado, de se agarrar a uma juventude perdida; e levantando ainda outras questões, como  a procura da felicidade e a sua ilusão.
É um filme sobre os limites do amor, um filme de grande beleza e sensualidade, ao qual é impossível ficar indiferente. Eu gostei. E acho que vale a pena vê-lo.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Do avesso



Sabia que aqueles eram tempos de mudança. Nem que fosse de maneira intuitiva, percebia com clareza que em si e na sua vida tudo se tornara muito diferente, dando força à ideia que  lhe fora tão difícil entender e aceitar, de que tudo tem um fim e a vida não volta atrás.
Mesmo se às vezes a saudade ainda lhe doía, as lembrança boas lhe ensombravam algumas horas dos dias e uma mistura difusa de culpa, tristeza, nostalgia e desencanto se apoderava do seu ânimo. Mesmo se a incerteza do que viria depois a fazia hesitar e ter dúvidas sobre tantas coisas, ora deixando-se levar pelo coração, sem pensar, ora não querendo coisa nenhuma e caminhando  simplesmente, sem certezas nem quereres, confiando em si e na sua força, amando a sua liberdade, que lhe parecia ainda maior que antes, ou, até, sonhando outras vidas e novos começos.
O calor não ajudava a serenar o corpo e a sossegar o coração, que nalgumas noites se lhe adiantava,  indomado e inquieto, destapando vontades e desatando aquele fogo que, às vezes, até parecia  queimar pelo lado de dentro. E depois havia também as outras noites,  as que se viviam  em solidão e desalento desmedidos, que a levavam a assumir todas as suas fragilidades e temores, a contemplar as estrelas em silêncio e a percorrer imagens que nem sabia se eram reais ou se existiam apenas no universo onírico em que se sentia enredada, absorta num mundo novo de possibilidades infinitas, que ansiava e temia em proporções iguais, que queria tanto e se recusava a aceitar, feito de desejos prementes e vontades inconfessadas e incertas, mas cada vez mais acesas.  
A existência parecia-lhe envolta em brumas  que não a deixavam ver com absoluta nitidez, em ventos que a empurravam em várias direcções,  em terrenos pouco sólidos, feitos de areia fina, onde é tão fácil enganar-se no caminho, perder-se e soçobrar. Sabia que a razoabilidade lhe pedia paciência, esperas, deixar o tempo e a vida correr. Sabia muito bem que querer é deixar ir, prender e soltar.
Mas sabia também das alturas em que era como se o mundo inteiro acabasse nela  e no que lhe explodia no peito, um turbilhão de emoções contidas que se soltam de repente,  na urgência de se revelar.
E então pensava em bocas que lhe aliviassem a sede, em mãos que lhe percorressem o corpo, acalmando o desejo e protegendo-a de todos os perigos e medos; e em olhos  perdidos no fundo de outros olhos, em risos e vozes e cheiros e em beijos demorados, que tantas vezes imaginava a que saberiam e que não se cansava de querer, no silêncio dos seus pensamentos. E nos abraços de uns braços fortes e bons à volta do corpo, num colo onde pudesse deitar a cabeça e sentir-se protegida e aconchegada. E deixar-se ficar assim, envoltos no mesmo abraço sem palavras, na entrega sem pressa do início do amor,  com o tempo suspenso, a novidade de uma vida nova e uma espécie de inexplicável superstição de nenhum se atrever a afastar-se do outro antes da luz de um novo dia se deixar antever ao longe.
E queria ficar muito tempo naquele feitiço paralisante em que tudo podia parecer tão perfeito e diferente da realidade quotidiana, perdida em mil devaneios, nos  desvarios de mundos cruzados e vontades indizíveis que às vezes era preciso levar um dedo até aos lábios para indicar que se mantivessem assim. E torná-lo verdade.  E repeti-lo muitas vezes, na serenidade e na paz de vontades em sintonia. 
Convencia-se que a vida é feita de incertezas, mistura de sonho e realidade e vontades insensatas, como as que lhe enchiam o espírito no torpor sonolento que o calor das noites de Verão embalava, como uns braços onde sabe bem ficar, em  evidente antecipação do paraíso. E vinha a certeza que o amor emociona tanto que pode valer a vida. E que chegaria de novo à sua, em todo o seu esplendor, se não estivesse já ali, ocultando-se na desigualdade dos dias e revelando-se nos momentos  em que se virava do avesso.

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

terça-feira, 23 de julho de 2013

Beleza Pura


Às vezes nem são precisas muitas palavras. Basta a beleza esmagadora de uma imagem como esta.  Também a vida é assim: o impensável e imprevisível de cada momento é que nos supreende e seduz. E, quando menos se espera,  surgem flores no meio das pedras...
(Fotografia do Blogue Pé-de-Meia, de mfc)

domingo, 21 de julho de 2013

O(s) dia(s) de todas as decisões


Daqui a pouco mais de duas horas o Presidente volta a falar (nos). Depois da surpresa da última vez, até temo o que virá dali agora...
Depois, a um nível mais restrito, mais pessoal, parece que é também amanhã que, finalmente, vou saber o que me espera para o próximo ano e, em função disso, vou ter que tomar decisões mais ou menos importantes.
Por isso, ou não sei porquê, hoje, a palavra que me define é: inquietação.

  

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Teatro (do bom...)


Sou mais de cinema do que de teatro, confesso. Em teoria o teatro pode até ser mais interessante do que o cinema, pelo carácter único, imediato e irrepetível de cada representação. O cinema tem a câmara e o tempo a separar a interpretação do público. E, no entanto, é mais fácil, para mim, pelo menos, ver uma história no ecrã e esquecer-me de que se trata de uma ficção.  Tal como acontece com a literatura, por momentos, é possível "sair do mundo" e acreditar no que se vê/lê como se fosse a (nossa) vida, emocionarmo-nos com a história, rir e chorar, deixarmo-nos levar para outro tempo e outro(s) lugar(es). No teatro é-me mais difícil esquecer que estou a ver "representar" e sou, em geral, mais difícil de contentar.
Odeio teatro de revista e também não gosto de musicais. Não gosto de "stand up comedy", nem de comédias de riso fácil e piadas mais ou menos alarves. Nem de peças muito intelectuais e deprimentes, daquelas muito obscuras, que demoram a entender-se, ou que nunca se chega lá.
Por isso, ou não sei porquê, vou muito menos ao teatro do que ao cinema. E, no entanto, no meio de tudo isto, há excepções. Porque há actores que vale sempre a pena ver. Destaco dois: Nuno Lopes e Diogo Infante.
Façam o que fizerem, tento ver. Tenho um "fraquinho" por ambos, na verdade. Artístico, claro está! O Diogo Infante, então, nem precisa de representar. Basta-me ouvir-lhe a voz, que é linda, mesmo!...
Vem tudo isto a propósito da peça Preocupo-me, logo existo, com texto de um norte-americano chamado Eric Bogosian, música original de João Gil, direcção cénica de Natália Luísa e interpretação de Diogo Infante. Acho que também foi ele que traduziu o texto, mas não tenho a certeza. Nem é relevante, para o caso.
Durante cerca de uma hora e pouco, Diogo Infante, sozinho em palco, faz oito monólogos que nos divertem e inquietam, simultaneamente. Fala de tudo, com o brilhantismo  e o talento de que só ele é capaz: da procura do sentido para a vida, de preocupações existenciais e quotidianas, de pequenas coisas que vão enchendo os nossos dias.
Como disse o próprio Diogo Infante, numa entrevista, o texto trata "das nossas ansiedades de forma corrosiva e muito humorística."
A peça, que já vi  há meses, no Inverno, andou em digressão pelo país e voltou agora a Lisboa, aos S. Jorge, onde vai ficar durante o Verão. Eu adorei. E, como gosto de partilhar as coisas boas, aqui fica a sugestão: recomenda-se vivamente!