quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Caminhos para Deus


O livro foi hoje posto à venda e eu tenho sobre ele uma imensa curiosidade. E, mesmo sem o ter lido, consigo antever a sua excepcionalidade. Sei que ao dizer isto posso ser considerada muito mais do que suspeita. Porque a Helena que todos conhecemos, que eu comecei por admirar como acontece com a maior parte da população portuguesa, pelo menos, que é um exemplo de força, de coragem e de alegria, é agora -  por um daqueles acasos do destino que se acredita estarem há muito escritos nas estrelas  - uma pessoa que faz parte da minha vida, uma amiga muito próxima e muito querida, a quem estou profundamente ligada por fortíssimos laços de amizade e estima.
Por isso já não consigo dissociar a Helena autora da "minha" Helena, que está para além dessa imagem comum, porque é a que tenho no coração. Por isso, também, tudo o que lhe diz respeito me interessa e me toca.
Mas este livro é diferente, eu sei. Mais íntimo e ousado. E sei muito de como ele surgiu e foi crescendo, o que aumenta a minha expectativa.
Já estava à venda no Corte Inglés, mas não o comprei ainda. Prefiro guardar-me para o lançamento, que será, de igual modo, um momento especial.
É uma livro sobre a espiritualidade e a fé, mas estou certa que é também um livro de amor e de afectos, onde todos nos poderemos rever e encontrar.
E, se alguém tem dúvidas, basta ouvi-la aqui, na primeira pessoa. Grande Helena!...

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Esta confusão em que estamos metidos




A propósito dos dias estranhos que temos vivido no último mês - e sabe Deus o que ainda vamos ver acontecer - tenho lido e ouvido muita coisa. Do mais interessante ao mais disparatado, opiniões com as quais concordo e outras de que discordo em absoluto, umas simples e outras muito rebuscadas, muito bem escritas, ou nem tanto.
Hoje, encontrei no "Observador" um texto de Rui Ramos de que gostei. Chama-se "A última golpada e não resisto a trazê-lo até aqui. Diz isto:

Em Portugal, não entrámos numa época de polarização política, mas de golpismo parlamentar e de confusão ideológica. O perigo não é a guerra civil, mas o apodrecimento do regime.
Vivemos há um mês no país dos cenários. Subitamente, tudo se tornou possível. Pela primeira vez, a democracia portuguesa pode ser governada por quem perdeu as eleições. Para chegarem ao poder, os derrotados de 4 de Outubro prestaram-se à mais extraordinária ginástica: António Costa esqueceu o seu precioso plano Centeno, o BE rifou a  intransigente oposição ao Tratado Orçamental, e o PCP pôs no sótão a sua implacável campanha contra o euro – em conjunto, renegaram todas as propostas e bandeiras com que pediram votos e convenceram os eleitores. Quem votou no PS porque era um “partido do centro”, vê-o agora a perfilhar as bolas que o BE e o PCP lhe atiram; quem votou no BE e no PCP porque eram “contra tudo”, vê-os agora a aceitar tudo. O poder corrompe, e o poder de uma maioria parlamentar forjada no desespero e no cinismo da derrota, corrompe muito mais. 
António Costa transformou um dos maiores fracassos da política portuguesa numa vitória: é como se D. Sebastião, depois de perder em Alcácer-Quibir, tivesse reaparecido como sultão de Marrocos. Ora, o que custa, nestas coisas, é a primeira vez. Uma golpada nunca é a última golpada. Qual é a próxima? O PCP e o BE vão “entalar” o PS? Ou é Costa quem vai “entalar” o PCP e o BE? As pensões e os salários sobem mesmo, ou isso é apenas outro embuste, para cair em Janeiro, a pretexto dos “mercados” e da “Europa”? Manter-se-á Costa fiel aos seus parceiros de ocasião, ou tentará mudar de montada e obrigar o PSD e o CDS, com a ajuda de Bruxelas e do próximo presidente da república, a assumir a “responsabilidade” de lhe viabilizar o governo? As esquerdas serviram-lhe para chegar ao poder; vai a direita servir-lhe para lá ficar? Ninguém sabe. Nada, a partir de agora, é impossível. 
Quem pensa que em Portugal entrámos numa época de polarização e de ideologia, está talvez enganado. Entrámos na época do golpismo parlamentar e da confusão ideológica. O perigo não é a guerra civil, mas o apodrecimento do regime através da quebra de todas as regras e da degradação de todos os projectos. A política desligou-se da sociedade. A velha regra do vencedor das eleições governar tinha uma razão de ser. Não era só permitir governos minoritários num sistema que dificulta maiorias absolutas. Era mais do que isso: era manter alguma relação, mesmo que esforçada, entre o voto e as soluções de governo. Quando, a meio da noite eleitoral, os resultados ficavam definidos, o eleitor podia ir para a cama, porque já sabia quem iria ser o primeiro-ministro. O cidadão tinha assim a sensação de haver decidido o governo. Isso acabou. A partir de agora, o eleitor vota, mas sem ideia nenhuma do que pode resultar desse voto: tudo dependerá das intrigas e das combinações dos chefes políticos. 
Entre o eleitor e o governo, a oligarquia inseriu o parlamento como uma camada intermédia de enredo e de manipulação, onde os derrotados se transformam em vencedores e os partidos anti-euro reaparecem como partidos do euro. Para a metamorfose da nossa política estar completa, falta apenas a atomização dos partidos em pequenos grupúsculos imprevisíveis. Então, as possibilidades de combinação serão ainda mais infinitas e vertiginosas. 
Em Portugal, a oligarquia libertou-se dos eleitores. Atreveu-se a isso, porque imagina que já não tem diante de si cidadãos, mas apenas dependentes do Estado, que pode rebaixar à vontade. No meio disto, estão os grandes interesses (empresariais, corporativos, sindicais), cuja margem de manobra vai aumentar, e os grandes ingénuos, convencidos que isto é a “democracia”, quando é apenas a podridão.

domingo, 1 de novembro de 2015

O que nos fica dos que partem


Não tenho de todo o culto dos mortos, não gosto de visitar cemitérios em circunstância alguma, e menos ainda nestes dias em que vai toda a gente. Respeito muito, no entanto, quem o faz.
E, contrariamente aos que conseguem encontrar beleza e paz nestes espaços, só vejo neles soturnidade, assim como, para mim, há em todos os rituais associados ao fim da vida terrena qualquer coisa de lúgubre que me impressiona e incomoda. 
Não sinto, por isso, necessidade ou desejo de levar flores aos mortos, porque é em vida que gosto de homenagear e mimar as pessoas a quem quero bem; nem é no cemitério que me sinto mais perto dos que já cá não estão, porque não os associo a tristeza nem a desconforto.
Dos que partiram ficam-me as recordações, as ideias, as acções, os ensinamentos e tudo o que de bom e mau fomos vivendo ao longo do tempo, que é a marca indelével que deixaram em mim. É com ela que vivo. É ela que, passada a surpresa inicial do momento da partida - a morte surpreende-nos sempre - a dor da perda, o momento do luto, no-los traz de volta, em lampejos fugazes que nos chegam através de um lugar, de um objecto, de uma palavra, de uma canção. E lembrá-los assim é a mais bonita e singela forma de os voltar a ter próximos, no pensamento e no coração.

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Cansaço...


Às vezes também só isto: em silêncio e em sossego, ouvir música. Ouvir mesmo. E não dizer nada...

domingo, 25 de outubro de 2015

Mudou a hora


É quando muda a hora que o Outono assume toda a sua plenitude, na beleza nostálgica dos caminhos cobertos de folhas, nos tons dourados e castanhos das árvores que dominam as ruas, as praças e os jardins, na aragem dos dias que vão ficando mais frios, ou nas noites que chegam demasiado cedo; e também nos tons escuros ou cinzentos das roupas, na alegria que parece esmorecer, como se até a vida se virasse um pouco mais para dentro.
Mas, no fundo, todas as estações têm o seu encanto e significado próprios e é essa alternância que as torna maravilhosas. Eu prefiro a Primavera, explosão de cor, de luz e de alegria, mas logo depois o Outono, todo tristeza, contenção, recato, poesia. 

 (Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

sábado, 24 de outubro de 2015

Simplesmente confiar


Embora eu seja de um signo associado à inconstância - ainda que não acredite nada nessas coisas - sou muito mais dada à duração e à fidelidade do que posso parecer, até porque o definitivo também não é bem comigo.
E é por causa do sossego de conhecer e confiar, que conservo há anos a mesma cabeleireira, a mesma esteticista, a mesma manicure, o mesmo café de todas as manhãs. 
Pensei nisto hoje, enquanto lia revistas descontraidamente e a Sandra me cortava o cabelo. Que luxo tão bom, esta sensação de que ela sabe o que eu quero e a certeza de que no final fico satisfeita; e poder pensar no que quiser, sem o mínimo temor dos excessos da tesoura, ou de um pincel mais ousado que de repente me deixe loura.
Tal e qual como no amor. Pode o corpo animar-se com vontades várias na vertigem do desconhecido e na luz de novos olhares, mas há lá prazer maior e  melhor do que um cheiro e uma pele que se conhecem de cor, e aquele ombro ou colo da vida toda, onde se pode deitar a cabeça e, em silêncio, descansar...