quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Objecto(s) de estimação

 
Se me pedissem para escolher um objecto que me definisse, não hesitaria em escolher uma caneta. Adoro canetas. Todas as canetas, mas sobretudo as de tinta permanente, que são aquelas com que me dá mais prazer escrever, que utilizo em todas as circunstâncias e das quais tenho uma vasta colecção.
Tenho pena que se escreva cada vez menos à mão. Durante anos, ouvi gabarem-me a caligrafia, pequena, redonda e certinha. Muito legível, como sempre me diziam. E lembro-me dos livros de ponto onde os meus sumários se destacavam, por causa da minha letra e das cores com que gostava de escrever: azul, sempre, em diferentes tonalidades, do turquesa ao bleu nuit  e, às vezes,  bordeaux. Lembro-me, também, de como, nos últimos Conselhos de Turma em que estive presente, as minhas colegas vinham munidas dos seus computadores portáteis, exibindo grelhas em Excel com percentagens relativas às coisas mais mirabolantes e eu insistia nos meus cadernos franceses, com anotações coloridas, manuscritas a tinta permanente, resistindo à tendência para reduzir a uma fórmula matemática a avaliação do percurso de aprendizagem de cada aluno.
Hoje, reconheço as inúmeras vantagens do computador e, no entanto, penso que, com a ditadura da era tecnológica, se perdeu o carácter distintivo das diferentes caligrafias, limitadas agora à monotonia de dois ou três tipos de letra - "times new roman" ou "arial" - que não revelam rigorosamente nada sobre a personalidade de quem os utiliza.
E depois, na frieza do teclado, não há o mesmo tipo de toque. É uma coisa mais superficial. Falta-lhe aquela sensualidade da caneta apertada entre os dedos e da mão deslizando devagar, encostada ao papel, da caneta quase como  uma extensão do corpo, numa relação muito mais física com a escrita.
Não se trata de insistir em ser "antiquada", mas há prazeres que não devem perder-se. É por isso que ainda gosto de escrever cartas, que têm um requinte e um vagar que se perde na imediatez do mail ou do sms. Mas, porque desde que estou na DREL os "ossos do ofício" me obrigam a escrever no computador o dia todo, também já me habituei a fazê-lo directamente, sem pegar na caneta.
Ainda assim, continuo a ter os meus cadernos e as minhas canetas. Continuo a trazê-las sempre comigo, para ir registando ideias e pensamentos que me vão passando pela cabeça, ou sensações e sentimentos que vêm cá mais de dentro. À mão, pois claro!...

sábado, 24 de novembro de 2012

Luís Represas


Quem me conhece bem sabe como eu gosto de Luís Represas, como é  a sua  voz linda, única e inconfundível, a que mais me emociona e que, nos últimos vinte e tal anos, - mais de metade dos que já vivi -  me tem acompanhado em  todos os momentos: de alegria e de tristeza, de silêncios cúmplices e de solidões magoadas, de amor e de dor, de sonho e de comoção...
Há, naturalmente, muitos outros músicos, vozes, canções, de que também gosto e que estão associadas a momentos que vivi. Mas esta é, sem dúvida, a voz e a(s) música(s) que marca(m) a minha  existência e que muito contribuíram para eu ser mais feliz.
Ao fim de todos estes anos, o Luís Represas faz parte da minha vida e não é um músico como outro qualquer. É um amigo muito querido, com um lugar grande no meu coração.
O Luís Represas faz hoje 56 anos. Para ele, um abraço muito apertado! 

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O mito de Orfeu

 
Notável tocador de cítara e de lira, Orfeu emocionava os corações mais insensíveis que se detinham contemplativos e sonhadores a ouvir o seu canto e a sua música. Quando  Eurydice, a quem amava perdidamente, morreu picada por uma serpente, desceu aos infernos acompanhado da sua lira, para resgatá-la das trevas, depois de se ter abandonado a um silencioso e profundo desgosto. Graças à sua arte, comoveu os deuses da obscuridade, conseguindo permissão para trazê-la de volta à luz e à vida, com a condição de não se voltar e de não a olhar, nem lhe falar, antes de estarem ambos de novo no mundo dos vivos. Mas, à saída do inferno, vencido pela tentação, Orfeu não pôde impedir-se olhar para trás para se certificar de que Euryidce o seguia, perdendo-a, assim, para sempre.
 
Para mim, Orfeu é talvez o mais tocante dos mitos gregos. Por causa da sua relação com a poesia e a música, mas também pela indissociável ligação entre o amor e a morte, tema recorrente em toda a literatura ocidental; e que sempre me interessou.
O amor levado até aos limites, o prazer extremo por oposição à mais excessiva dor, a importância do instante que tudo decide, do momento que é simultaneamente redenção e perdição...
É tudo isto que me fascina, ou tão somente me identifico com a impossibilidade de resistir à tentação?

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O fascinante mundo da blogosfera

 
Durante muito tempo resisti ao mundo virtual.  Só no fim de 2009 aderi à mais popular das redes sociais, quando já toda a gente "facebookava" a torto e a direito. E, ainda assim, moderadamente. Era a época áurea do farmville, que nunca me entusiasmou, assim como também não  experimentei outros joguinhos similares, nem nunca tive a mínima paciência para as várias aplicações do tipo: "Qual é hoje o teu grau de excitação sexual?"
O facebook permitia-me estar em contacto mais directo com quem, de outro modo, estaria mais tempo sem notícias. Era uma forma de me aproximar de algumas pessoas de quem gosto e com as quais,  por razões várias, não falo muito. Por isso não aceitei adicionar muitos conhecidos daqui e dali, que me enviavam pedidos. Porque não me interessava nada do que diziam e faziam, nem sequer virtualmente. E já "apaguei" outros, pelos mais diversos motivos.  Também foi raro incluir na minha lista de "amigos" pessoas que não conhecia, a não ser três ou quatro que, apesar de tudo, vinham referenciadas. Conheci no facebook o Diogo Moura, a Isabel Santiago Henriques, a Ana Paula Almeida, por exemplo, antes de os conhecer em pessoa. Não me arrependi. Quando nos vimos pela primeira vez havia a estranha sensação de que, na verdade, já nos conhecíamos. E achei imensa piada a essa novidade.
O blog surgiu muito depois. E é, para mim, muito diferente. Dir-se-ia que o facebook é talvez mais social e o blog mais intimista. Esta é uma paixão recente, que me tem trazido  encantada desde Maio, quando, sem mais nem menos, decidi criar um blog, não tendo a mais pequena ideia de como isso se fazia. Não perguntei nada a ninguém, fui experimentando, até surgir "isto e aquilo" (o nome não é grande coisa, reconheço!), - o meu blog -  como a materialização de uma daquelas vontades irresistíveis, que me atacam de repente e que não descanso enquanto não consigo concretizar, uma daquelas paixões repentinas e assolapadas, que não importa sequer se vão durar.
A blogosfera proporcionou-me, em primeiro lugar, o gosto da escrita - que me acompanha desde sempre - de novo à flor da pele. Passou a ser uma maneira de trazer à luz sentimentos, pensamentos e tantas outras coisas que dantes ficavam escondidas no fundo escuro da minha gaveta, ou,  em silêncio, semi-ocultas dentro de mim. E tentar encontrar as palavras certas para dizer o que está cá dentro e às vezes só se consegue sentir. Ao início, teve um efeito quase libertador. 
Depois, ao mesmo tempo, fui conhecendo outros blogues.  E isso é que tem sido verdadeiramente enriquecedor. E fascinante, também. Comecei pelo da Helena Sacadura Cabral, que é um exemplo e uma inspiração, uma mulher extraordinária e querida, uma pessoa que admiro como poucas, que me ensina, pelo seu olhar sábio e experiente, a pensar, a pensar-(me), sei lá, até a viver melhor. E, a partir do blog da Helena, dos comentários que ia lendo, fui conhecendo outros; e, através desses, outros ainda, numa enorme e infinita teia de partilha de opiniões e pensamentos, de sentimentos e de gostos, semelhantes ou diferentes dos meus,  que foram criando cumplicidades e afectos. Há blogues pelos quais  desenvolvi mesmo uma espécie de "carinho". São os meus preferidos! E descobri, com surpresa, que  havia também pessoas que liam o meu blog. Melhor: que até o comentavam! Tudo isto é novo e emocionante.
Falam-me, às vezes, de "perigos", de um lado menos positivo, feito de insultos, cobardias e falta de genuinidade, que me é, por agora, (e espero que sempre) desconhecido. Seis meses e 79 posts depois, são vários os blogues que que leio e sigo com maior frequência. E gosto do que leio. De todos eles, além do da Helena, destaco dois, que são para mim os mais bonitos e aqueles de que me sinto mais próxima: o do Paulo Abreu e Lima, lindíssimo e absolutamente encantador; e o da Virgínia, artístico e ternurento. E adivinho as pessoas fantásticas que se escondem por trás das palavras, das fotografias e das músicas destes blogues, que também já fazem parte do meu quotidiano e da minha vida.
Hoje, estive com a Helena Sacadura Cabral, na apresentação do seu último livro: Os nove magníficos. É a terceira vez que estou com ela no "mundo real". A Helena é linda e a sua presença é ainda mais forte quando estamos perto dela, incrível na rapidez da sua gargalhada fácil, do sentido de humor que a caracteriza e na sua capacidade de, no minuto seguinte, nos emocionar pela maneira como se refere aos filhos e ao Miguel em especial. Quando lhe falei, a Helena sabia muito bem quem eu era e identificou-me automaticamente com a blogosfera. Para mim, foi tão simples  e tão bonito como (re)encontrar uma amiga de há muito tempo. É ou não  é magnífico, tudo isto?


domingo, 18 de novembro de 2012

As palavras


 
O cinema é um dos meus grandes prazeres. Há uma magia qualquer naquela coisa da sala escura e do ecrã enorme, que se perde totalmente na televisão. É raro, por isso, ver um filme na televisão. Hoje, foi dia de cinema.
Jeremy Irons é um motivo suficiente para fazer um filme valer a pena. Mas este filme - The Words - é muito mais do que apenas outra  excelente interpretação. É um filme sobre as palavras e a sua importância. E também sobre a força das coisas que elas não conseguem dizer. E sobre a realidade e a ficção, aparentemente tão próximas, mas  distintas, no fim de contas.
A tradução do título original em espanhol  - El ladrón de palabras - aproxima-se mais do assunto central: a apropriação das palavras dos outros. Na verdade o filme não conta apenas uma história, mas várias, encaixadas umas nas outras, num processo de mise en abîme, que evoca em mim os velhos tempos da Faculdade de Letras.
A minha paixão pelas palavras é um caso antigo e, talvez porque nos últimos tempos voltei a andar às voltas com elas e com a distância que as separa do que elas querem  dizer, gostei particularmente deste filme, que é daqueles que, quando termina, nos faz ficar sentados durante uns instantes, em silêncio.
Foi, pois, uma escolha muito acertada; um filme perfeito para este Sábado de preguiça!

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Tem dias...

 
Deve ser do Outono. Deixo-me levar pela nostalgia dos dias cinzentos, solto palavras e emoções que tantas vezes prefiro calar num cantinho escondido do mais fundo de mim e ouso enfim dizer-te que há  dias assim, em que a saudade  de ti não tem tamanho  e é tão grande que me dói.
É uma inquietação que  começa mansamente, sem qualquer aviso prévio, que se vai espalhando devagar, tomando conta de tudo, instalando-se sem pedir licença, ocupando o coração e a cabeça, o corpo e a vida.  Começa sempre pelo lado de dentro e chega depois à superfície da pele.
Então, é como se não existisse mais nada do que a falta  de te ter inteiro, das tuas mãos no meu cabelo, nas minhas pernas, à deriva pelo meu corpo todo, fazendo-o arrepiar-se e estremecer. E da força do teu abraço apertado, da tua respiração no meu pescoço ou confundida com a minha, da tua voz murmurando baixinho ao meu ouvido, ou explodindo de prazer.
Na cabeça soam ecos distantes  de Caetano Veloso:"O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar, ir aonde ele quiser, ser o que ele é..." É tudo tão verdade e ao mesmo tempo, se calhar, não é bem isso; é antes, sem temer as palavras, contar-te tudo o que me fazes pensar, dizer-te que chega de tantas vezes ter o teu toque à distância da mão e afinal não. Hoje não! E que queria que fosse tudo muito mais fácil, tão fácil como um estalar de dedos, ou um passe de mágica. Que não quero ter-te perto sem te ter, que às vezes os teus olhos não chegam; nem a tua voz. Que quero mais.
Dizer-te de uma vez que sim, que preciso de ti muito mais do que te digo, que te quero, que te quero aqui, já, agora mesmo, que preciso com urgência de aninhar-me inteira em ti, outra vez, mais uma vez. E voltar a desatar a paixão, sem querer saber de antes nem depois, saboreando apenas, lentamente, o gosto e a textura de cada bocadinho de ti, como se não existisse mundo, nem vida, para além de nós dois.  E que qualquer outra coisa não me aquece a alma, nem me acalma o corpo em sobressalto, porque tudo o que não sejas tu me sabe a pouco.
Mas amanhã é outro dia, volta o sol e o sorriso,  a tua presença na minha existência será suficiente, hoje sim, amanhã talvez... E voltarei a deixar-me arrebatar pela maravilha que é a vida, onde tu também estás. Por isso é ainda mais bonita e  luminosa!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Um apelido diferente

 
Gosto de ter um apelido pouco comum. Estou habituada a toda a espécie de perguntas sobre ele. De: "É Mouzinho com s ou com z?" a "Como é que isso se escreve?", passando pelo quase inevitável:  "Apelido? Mouzinho. Como?"  Está claro que Mouzinho não é propriamente Silva, mas basta lembrar Mouzinho de Albuquerque e o indissociável Gungunhana para se compreender que não é assim tão raro. Ou que, pelo menos, já  deveria ter sido ouvido alguma vez. Afinal, é um nome histórico.
Enfim, já nem estranho que me troquem o nome, de Mouzinho para Mourinho, Moutinho, ou outras coisas semelhantes e ainda mais extraordinárias. Piores, diria eu. Como "Mauzinho", na versão espanhola, ou na versão "alcunha", para os  alunos que me acham demasiado exigente. O que, aliás, considero um elogio. Gosto da pergunta: "Quem é a tua professora? A Mouzinho?"
E depois há ainda, na versão mais querida,  - que eu adoro -, a Mouzas, expressão carinhosa que significa, automaticamente, que quem a utiliza gosta de mim.
Agrada-me este nome que me distingue, que está colado à minha pele e à minha personalidade. Há poucos Mouzinhos. E ainda bem! Os Mouzinhos (os da minha família, pelo menos) têm algumas características em comum: são mais dedicados às letras e às artes do que às ciências, têm todos os mesmos olhos e alguns também um nariz peculiar. Há quem os ache um pouco vaidosos, ou mesmo convencidos. Exageros, com o risco e a margem de erro que têm todas as generalizações...
Seja ele qual for, habituamo-nos ao nome que temos, comos nos habituamos à imagem que o espelho nos devolve e a tudo o que nos caracteriza e faz de cada um de nós uma pessoa diferente das demais. Mais que tudo, o meu nome - este nome -  faz parte de mim. E orgulho-me dele. Isabel Mouzinho? Oui, c'est moi!