Sempre me deu vontade de rir, para não dizer que considero de um ridículo absurdo, aquelas professoras (e são muitas, infelizmente), que têm a irritante mania de mandar os meninos escrever poemas, como se isso estivesse ao alcance de todos, ou houvesse dentro de cada um de nós um Fernando Pessoa em potência, ansiando por se revelar num qualquer exercício da escola.
Foi, pois, com horror e com e uma estupefacção da qual não consegui ainda recompor-me inteiramente que descobri que isto, que eu tenho visto acontecer com frequência ao nível da adolescência e no ensino secundário, se passa também no primeiro ciclo, onde meninos do 2º ano, que mal dominam a leitura e a escrita e possuem, na maior parte dos casos, um vocabulário bastante reduzido, têm como trabalho de casa, misturado com exercícios de divisão silábica ou de acentuação, qualquer coisa tão "banal" como escrever um poema.
E pergunto-me o que se pretenderá com isto. Provavelmente, algo semelhante ao que conseguem as professoras dos alunos mais velhos: fazer passar a perigosíssima ideia de que somos todos poetas ou, pior ainda, fazer crer que a poesia é não é mais do que alinhar umas rimas, mesmo que o resultado seja um texto sem sentido, que não quer dizer nada.
O objectivo do ensino da língua materna tem que ser, fundamentalmente, pensar muito, ler, ler, ler e escrever. Escrever muito, também. E, aos poucos, ir desenvolvendo espírito crítico e capacidade de argumentação. Mesmo quem não tem jeito para escrever, pode aprender; e consegue fazê-lo razoavelmente, se o praticar. Pode até ter prazer nisso. Mas quanto a fazer um poema, já tenho dúvidas. Tenho muitos anos de experiência de ensino de português. É uma tarefa tão difícil como apaixonante. Mas nunca pedi a nenhum aluno que escrevesse um poema. Por uma questão do mais elementar bom senso. Ou talvez apenas porque gosto muito de poesia e a levo demasiado a sério para a ver assim maltratada, confundida com o quer que se escreva em verso e que, tantas vezes, nem chega a ser prosa decente.
Importa, sobretudo, parece-me, fazer passar a ideia de que ler e escrever é bom. E mostrar os textos e os poetas. Conhecê-los e sabê-los. Pensar e discutir sobre o que é a poesia e a arte, em geral. Porque se conseguirmos fazer isto tudo com maior ou menor êxito (e não é fácil), mesmo que tenhamos entre nós um génio poético, certamente que, mais tarde ou mais cedo, ela acabará por revelar-se. Sem que seja necessário fazer poemas "por encomenda".
E aos professores que tanto gostam disso, já agora, eu sugeria que alargassem o leque e pedissem também aos alunos: "pinta-me um quadro" ou "faz-me um filme". Como trabalho de casa, de preferência...





