quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Privilégio(s)


Como a maior parte das pessoas, gosto de dar e de receber presentes. De todo o tipo: simples ou requintados, banais ou originais, inesperados ou desejados, comprados ou caseiros. Por causa deles em si mesmos, mas sobretudo pelo afecto que lhes está associado. Porque é completamente diferente comprarmos uma coisa qualquer que queremos, ou recebê-la de alguém de quem gostamos e que gosta de nós.
Hoje, deram-me este livro. É o texto de uma palestra de Mário Dionísio na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, em finais de 1957, enquanto estava a escrever e publicar A Paleta e o Mundo, e reeditado agora pela Casa da Achada, por serem ainda actuais as questões que ele coloca, e em edição bilingue, para poderem ser conhecidas e discutidas também em universo francófono.
Deu-mo uma pessoa que me é muito querida, que marcou muito a minha vida, e de quem já aqui falei, na última sessão de mais um curso seu a que tive o prazer e o privilégio de assistir, que fala de literatura como ninguém, que me ensinou imenso sobre os livros e a sua relação com a (nossa) vida e a quem me liga hoje uma enorme amizade, que é também gratidão por ter sido a melhor professora que tive, e por tudo o que continua a fazer-me pensar. Uma honra, pois claro!...

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Vale Tudo?



De tudo o que tenho visto e ouvido nos últimos dias sobre a inenarrável situação que estamos a viver, e que diz tanto sobre o mais mesquinho e desprezível que pode haver nas pessoas, destaco o texto de Maria João Avillez, hoje, no "Observador".
Não sei o que me espanta mais: se é o descaramento que ouço agora mesmo Bagão Félix qualificar como falta de ética, se é haver algumas de vozes a defender a legitimidade deste oportunismo, a todos os títulos inaceitável, e a ambição absolutamente vergonhosa, que justifica todos os meios para atingir um fim pessoal.
O texto chama-se "O usurpador", e o título já diz tudo. E diz, por exemplo, isto:
(...) uma estreia absoluta em Portugal mas, hélas, fornecida por uma realidade, que embora enviezada e politicamente ilegítima é concreta, de carne e osso. Razões: nenhumas a não ser o pior da natureza humana.
(...) O país sabe que se trataria de uma usurpação, a Europa também, o mundo também. E "last but not least", os portugueses também sabem. Mesmo que fazendo deles parvos-parvíssimos se evoque "a Constituição" como fonte legitimadora de um governo eleitoralmente anormal.
(...) é preciso ir buscar a chave deste alarmante comportamento de António Costa ao pior que pode haver dentro de alguém.

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Sossego e encantamento


Esta é a minha mais recente descoberta, um oásis de paz no meio da cidade, lugar tranquilo e quase silencioso onde me "sento e descanso", deixando os olhos e o pensamento vaguear sem pressa nem amarras, o cabelo à solta na brisa suave das tardes de Outono,  haja sol ou venham as nuvens alterar-lhe os brilhos e as cores, e permitir-me descobrir novos recantos e matizes, esquecida do tempo e de tudo, desfrutando do luxo que são estas pequenas pausas em  dias repletos de intensa actividade, e tão cheios de sons e de vozes, de horas certas e de deveres a cumprir.
Daqui saio sempre refeita e (re)conciliada com a vida, na mesma mansidão interior com que regresso das aulas de Pilates, em perfeita sintonia com o mundo, serena e feliz.
Conheço-o há muito, na verdade, mas só agora se me revela assim, no seu imenso esplendor e na discrição do seu encanto.Tudo leva a crer, pois, que este será um daqueles lugares, como outros, que em breve sentirei um pouco meu, porque o que entre nós existe é já promissora sedução, e está prestes a tornar-se um caso sério.

domingo, 11 de outubro de 2015

Contrariedade(s)


Há alturas em que os elementos parecem conspirar contra nós para que os contratempos surjam uns atrás dos outros em catadupa, numa espécie de maré de azar.
Foi mais ou menos o que me aconteceu este fim de semana, que foi exactamente o contrário do que deve ser: tempo de descanso e de lazer.
Mas, com calma, tudo acaba por resolver-se. E, no fundo, há que saber relativizar, porque as coisas têm, quase todas, muito menos importância do a que lhes queremos dar.

(Fotografia de Maria Cristina Guerra)


quinta-feira, 8 de outubro de 2015

lugares para viver



Tenho com quase todos os lugares que habito uma relação de proximidade semelhante à que tenho com as pessoas: agradam-me muito ou nada, mas se gosto é sempre muito, sinto-lhes a falta, afeiçoo-me e, se por acaso tenho de os deixar, guardo-os no coração para sempre, porque são parte da minha história.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Encanto(s) do amanhecer


Agora, cada manhã é um pouco mais escura que a manhã anterior, o Outono instala-se e, aos poucos, vão-se adensando os cheiros, as  sombras e as cores próprias da época.
Mas há uma espécie de magia no silêncio e na quietude dos momentos que antecedem o sol, como se o mundo assistisse espantado e reverente ao milagre de mais um dia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Surpresa e confirmação


Tenho por Diogo Infante uma admiração desmedida, já se sabe; e, por isso, raramente perco o que ele faz. É que, seja lá o que for, tenho a certeza que será muito bem feito. Não há em Portugal, na minha opinião, nenhum actor que seja tão excepcional e multifacetado, mesmo sendo verdade há alguns outros que são também muito bons.
Mas é de igual modo verdade que prefiro vê-lo a solo, porque às vezes quem contracena com ele não consegue acompanhá-lo ao mesmo nível. Foi um pouco isto que senti na última peça a que assisti: Cyrano de Bergerac.
Desta vez tratava-se de uma comédia, o que fazia aumentar o risco. Gosto de comédia, mas é um género complexo, que apenas me entusiasma verdadeiramente quando é feito com humor inteligente e não se cinge a um apelo ao riso fácil e alarve, que é bem mais comum, e faz qualquer boa ideia degenerar facilmente num autêntico desastre. 
Sabia que, neste caso, seria Alexandra Lencastre a acompanhar Diogo Infante, o que adensava a minha expectativa. Nunca a tinha visto no teatro e como não vejo as telenovelas portuguesas (nem as outras) tinha apenas uma vaga ideia do que ela seria capaz de fazer. E que, confesso, não lhe era muito favorável pelas mais variadas razões. Pois bem: tenho de me penitenciar por este preconceito parvo. Alexandra Lencastre é uma surpresa e, para mim, também uma revelação, em perfeita sintonia com Diogo Infante - sempre genial -, com quem consegue fazer uma dupla sólida, coesa e equilibrada, que muito contribui para o sucesso da peça, chamada Plaza Suite, em cena no Tivoli, sobre o casamento e a(s) sua(s) crise(s) e para as duas horas divertidas que ela nos proporciona.
A minha amiga Helena bem me avisara. E não é que não acredite nela; muito pelo contrário! Mas, nesta como noutras coisas, nada como confirmar com os nossos olhos e ouvidos...