segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Íntimo(s)


Este é também o tempo da intimidade e do sossego, dos lanchinhos à lareira e do calor da casa, de amigos e de amores, de longas e boas conversas, de bebidas quentes, de harmonia e de abraços apertados. E, na verdade, há muito poucas coisas melhores que o abraço de quem se quer bem...

(Fotografia do blogue iznotmeizyou)


quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O que não se explica


Dizem que os grandes amores não podem explicar-se, que são maiores do que as palavras e existem para além delas, naquele lugar fundo, dentro do peito, onde tudo é apenas emoção e sentimento. 
É talvez isso que me faz ter vontade de voltar muitas vezes aos "meus" lugares, onde me reencontro e pacifico, e donde volto mais eu.

Y yo sé
Que Sevilla tiene algo
Que será ese "no sé qué"
Que si de Sevilla salgo
Tan solo pienso en volver

(Fotografia de Carmen Pizarr)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Um ano depois


Passou um ano em que a nossa vida mudou muito. Nunca guardo muitas recordações dos dias maus e, por isso, são difusas as minhas lembranças desse dia 7 - um dia de que eu gosto tanto!... Não sei bem o que senti ou pensei, o que disse, o que fiz.
Sei apenas que esse nosso Domingo foi muito diferente de todos os outros. E que havia sol, embora nem dessemos por isso. Recordo vagamente a ambulância a apitar, correndo desenfreada, subindo e descendo ruas que eu não conseguia ver, e finalmente o destino, que me pareceu situado no fim do mundo.
Depois, foi um mês inteirinho de incerteza e angústias, de sofrimento e solidão, que nenhum abraço ou palavra podiam atenuar. E foi assim, no meio desta inquietação com o que viria a seguir, que chegou o Natal, vivido em silêncio, no calor das mãos apertadas a contrastar com o ambiente frio de um quarto de hospital.
Entretanto passou o tempo e, devagar, um dia de cada vez, tivemos que nos habituar a novas realidades e aprender a viver com elas, na tranquilidade possível. Não imagino o que pensas e sentes nesse mundo quieto e sem palavras em que vives agora, mas gosto de te ter ainda do lado de cá da vida, de te contar as minhas histórias sem saber se as ouves, se as percebes, se reconheces a minha voz e o meu riso, se ainda sabes quem eu sou; gosto de te ver agarrada à vida, mesmo se são frágeis os fios que te prendem a ela, e se me pergunto muitas vezes se viver assim ainda é viver.
Mas é quando me olhas com os teus magníficos olhos verdes, quase sempre tranquilos, ou  às vezes sombrios, quando muito raramente me sorris ao ver-me chegar, quando passas a mão na minha cara e tentas dizer-me palavras que eu não compreendo, que percebo que tudo se inverte na nossa forma de existir, e que tal e qual como quando eu ainda não chegava às palavras  são agora as palavras que já não chegam a ti; e é então que tenho a certeza que, manifestando-se em presença e mimos, pelos olhos e pelo toque, como no princípio, o nosso amor permanece igual, ou até, talvez, mais forte ainda.

BFF: Helena


Todas as pessoas que amamos são especiais à sua maneira e têm um lugar importante e insubstituível no nosso coração e na nossa vida. 
Mas depois, há também aquelas pessoas que não têm idade, que não somam anos mas só experiência e sagesse, e que espalham sempre à sua volta muita luz e alegria.
A Helena é uma dessas pessoas excepcionais, com uma força e um humor únicos, que sabe aproveitar e revelar o lado melhor da vida, e que eu, por um acaso do destino, daqueles que parecem escritos nas estrelas, tive o prazer e o privilégio de poder conhecer "ao vivo e a cores". 
Tornámo-nos amigas muito depressa e hoje somos muito próximas, e rimos como adolescentes quando estamos juntas, tal e qual como os velhos amigos. 
E é porque hoje o dia é todo dela, e porque esta nossa amizade é mais uma daquelas bençãos que eu devo agradecer a Deus e à Virgem do Rocío  que, apesar das más lembranças que esta data me traz também, eu  a assinalo aqui, - pois é a vida que deve ser celebrada - e lhe deixo um beijo enorme de parabéns, além dos que já lhe dei e dos que vou dar ainda.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Jardins da minha vida (III)



Situado no centro da cidade, o Parque Eduardo VII, começou por chamar-se Parque da Liberdade, mudando depois de nome, como forma de homenagear o rei de Inglaterra que entretanto visitara Lisboa. Obra do arquitecto Francisco Keil do Amaral, o "Parque", como é normalmente conhecido, existe desde o início do século XX e é, ainda hoje, um dos mais emblemáticos locais de Lisboa.
Os seus 26 hectares incluem a Estufa Fria do lado oeste e o Pavilhão dos Desportos, mais tarde designado Carlos Lopes,  do lado oposto, e um miradouro no topo norte de onde se pode observar uma das mais bonitas vistas sobre o rio. É também no alto do Parque que é hasteada uma bandeira nacional de tamanho XXL, que por tradição havia sempre um presépio de grandes dimensões na época do Natal e que, desde 1997, existe um controverso monumento ao 25 de Abril da autoria de João Cutileiro.
Quando eu era pequena, o Parque Eduardo VII era o jardim que ficava mais perto da nossa casa e tinha um parque infantil que era um dos meus locais favoritos e fazia as minhas delícias. Nele  passei inúmeras tardes de aventura e diversão, experimentando habilidades nos baloiços e escorregas, inventando jogos, correndo e saltando, na despreocupação inocente desses anos em que o mundo nos parece simultaneamente simples, misterioso e encantador.
Mas tenho também uma má memória associada a este lugar que, ainda que aparentemente insignificante, me marcou de forma profunda. Foi quando, numa dessas tardes, o meu pai que sempre nos acompanhava e se sentava a ler no mesmo lugar, observando-nos de longe, resolveu esconder-se para ver como reagíamos ao verificar que ele não estava ali.
Relembro, até hoje, aquele momento de aflição em que olhei para o banco do costume e percebi que o meu pai não estava lá. Teria uns quatro ou cinco anos, não mais. Sei que pensei de imediato que não sabia como voltar para casa sozinha e senti-me verdadeiramente perdida. Não sei quanto tempo passou até o meu pai se mostrar de novo, nem sei se me pus a chorar, se chamei a minha irmã, ou o que fiz a seguir. Mas, durante muitos anos, mesmo já bem "crescidinha", aconteceu-me muitas vezes, a cada vez que  perdia de vista quem me acompanhava, num sítio qualquer, voltar por instantes àquela mesma sensação aflita do "e agora?"
De facto, há brincadeiras parvas que se fazem com as crianças, que deixam marcas que não poderíamos supor.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Se (eu) fosse...


Quando eu era adolescente, tinha um grande grupo de amigos com quem me encontrava todos os fins de semana. E, entre muitas outras coisas, fazíamos às vezes o jogo do "se fosse..." para testar a  que ponto nos conhecíamos. Era mais ou menos assim: um de nós tinha que adivinhar de quem estávamos a falar, fazendo perguntas começadas por "e se fosse...", a que os restantes tinham de responder com o que considerassem mais próximo da personalidade e maneira de ser do(a) visado(a).
Muitos anos depois, em 2010, cerca de um ano após a minha adesão ao Facebook, retomei a brincadeira, mas desta vez só comigo, numa nota que redigi em jeito de apresentação. Redescobria-a um destes dias, ao fazer por lá uma "limpeza". E não deixou de me surpreender que, ainda que tenha sido feita há cinco anos, o que diz de mim continue a ser verdade...

Se fosse um mês: Março (porque faço anos e chega a Primavera. Porque de Março até ao final de Junho é a altura do ano de que eu mais gosto)

Se fosse um dia da semana: Sexta-feira (o dia livre dos últimos anos, a antecipação do fim de semana)

Se fosse uma hora do dia: final da tarde, em Lisboa, junto ao rio, ou no Chiado. Em Paris, no Jardin du Luxembourg

Se fosse uma estação: Primavera

Se fosse uma direcção:  Sul (de Espanha...)

 Se fosse um país: Espanha (pela alegria) França (pelo requinte e o pensamento)

 Se fosse uma cidade: Paris

Se fosse um continente: Europa

Se fosse um móvel: sofá (onde eu gosto de estar quando estou em casa...)

Se fosse uma bebida: vinho tinto, claro!
 
Se fosse um pecado: preguiça (para apreciar vagarosamente todas as coisas boas) 

 Se fosse uma fruta: Pêssego (quando se vê  por fora não se imagina como é por dentro)

 Se fosse um elemento da Natureza: mar calmo num fim de tarde de Verão

 Se fosse uma paisagem: uma cidade movimentada, ou uma praia deserta

 Se fosse um elemento: Água

 Se fosse uma cor:  Azul

 Se fosse um festival de música: Rock in Rio

  Se fosse um insecto: Uma Joaninha

 Se fosse um som:  gargalhada

 Se fosse uma canção:  Caçador de mim de Milton Nascimento ou Perdidamente de Luís Represas

 Se fosse um sentimento: amor sem limites nem obrigações

 Se fosse uma personagem da mitologia grega: Orfeu (a poesia, a música, o amor excessivo, a incapacidade de resistir à tentação)
  
 Se fosse uma palavra:  agora

 Se fosse um lugar:  Uma cidade cosmopolita

 Se fosse um sabor:  doce

 Se fosse um cheiro: terra molhada depois da chuva

 Se fosse um verbo: viver

 Se fosse um objecto: caneta

 Se fosse uma parte do corpo: cabelos

Se fosse uma expressão facial: piscar de olho

 Se fosse uma manifestação de afecto: um beijo sonoro ou um abraço apertado

 Se fosse um filme: As asas do desejo

Se fosse um quadro: Impressionista (Monet, Impression Soleil levant)

Se fosse um livro: Aparição

 Se fosse um número: 7

Se fosse uma letra: A (porque é por onde tudo começa...)

Se fosse um acento: circunflexo

Se fosse um sinal de pontuação: Reticências (Há sempre mais qualquer coisa a dizer...)

 Se fosse uma peça de roupa: mini-saia ou vestido

 Se fosse uma peça de calçado: sapatos de salto alto, modelo clássico

 Se fosse um acessório: óculos de sol

 Se fosse um advérbio: imenso
 
 Se fosse um palavrão: merda
 
 Se fosse uma sensação: liberdade

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Sinceramente não estou para festas


Quando chega Dezembro, já se sabe, a vida agita-se e enfeita-se excessivamente, numa euforia festiva que se vai sobrepondo à essência da época e lhe vai retirando sentido.
Há as ruas iluminadas e as canções que mantêm uma certa magia evocativa da infância e do tempo em que a celebração do nascimento do "Menino Jesus" vinha embrulhada em poesia, mistério e encantamento, em gestos e  em rituais, e em que tinham grande significado e destaque a missa do Galo, o almoço de Natal e o enorme presépio no móvel da sala de jantar.
Mas hoje, por onde quer que se ande, há sobretudo o trânsito insuportável e os sacos a transbordar de compras que atravancam tudo e importunam até os que, pelas mais diversas razões, preferem ignorar o consumismo e esta versão da alegria  de plástico, bem mais oca e fugaz, pronta a usar e deitar fora.
Um dia ouvi dizer que esta é uma época bela na aparência, mas também violenta do ponto de vista emocional; e de certa maneira é um pouco assim.
Este ano não me sinto de modo algum tocada pelo espírito natalício. Por isso decidi só enfeitar a casa com um presépio em cada divisão, como sempre faço, mas sem bolas, nem estrelas, nem nada mais. Haverá a missa, que continua a ser para mim um tempo e espaço fundamental das minhas festas, e duas ou três inevitabilidades familiares, sociais, afectivas. E depois é só esperar que passe depressa, e que volte o silêncio e a paz.