segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

O meu mundo



O meu Natal sempre foi muito mais Menino Jesus do que Pai Natal. Por isso, quando eu era pequena, a  festa concentrava-se sobretudo no dia 25. Porque se dava maior importância à espiritualdade da celebração do que ao consumismo. Deve ser, também, por essa razão, que esta continua a ser para mim  uma época de sentimentos e de afectos mais do que de presentes, de comidas e de bebidas. E, ainda hoje, o grande momento dos festejos familiares é o almoço do dia de Natal.
Tenho uma família pequena. Mas, felizmente, há na minha vida muitas pessoas a quem o que me liga é só o coração. E que são verdadeiramente importantes para mim. É essa grande família afectiva que fez e faz de mim muito do que eu hoje sou. São todas as pessoas que já passaram na minha vida e deixaram nela a sua marca. São, acima de tudo,  as que ficaram nela para sempre, as que estão comigo aqui e agora, que me acompanham e apoiam em todos os momentos, que me ouvem e me aturam, que partilham as minhas alegrias e atenuam as nódoas negras que vou fazendo pelo caminho; e que gostam de mim sem limites, porque me aceitam como eu sou.
É em todas essas pessoas, muito diferentes entre si e que fazem parte da minha vida, família, amigos e amores, que eu  hoje penso mais; e que abraço, na realidade, ou somente no coração, porque são o meu património sentimental; e porque lhes agradeço, infinitamente, o facto de me ajudarem na procura de um sentido para a vida e de contribuirem, todos os dias, para eu me sentir (ainda) mais feliz. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Chegou o Inverno




Não é uma das minhas estações preferidas, mas, no fundo, todas elas têm a sua magia e significado e é nessa diversidade que reside o efeito que cada uma tem em nós. 
Associado à noite, ao escuro, ao frio e a uma certa tristeza, o Inverno é também tempo de recolhimento, de interioridade, de abrigo e protecção, do  aconchego e do calor da casa,  assim como de uma certa fragilidade e desamparo, que torna ainda mais tocante qualquer  pequeno gesto querido.
A maioria das pessoas não gosta muito do Inverno. E, no entanto, tudo o que tem um lado negativo tem também um lado positivo, tudo pode ser ao mesmo tempo mau e bom, verso e reverso. Tudo o que é triste pode ser surpreendentemente belo. O Inverno não é apenas preto, ou branco; muito para além disso: ele pode ser cinzento, ou ter todas as cores do arco-íris. E ainda traz consigo a promessa de uma nova Primavera.
Como em quase tudo, a maior parte depende só de nós...

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Para os meus amigos da blogosfera



 Hoje escrevo à mão, a tinta permanente, que é como eu gosto mais de escrever.  E, ao contrário do que é habitual, este é um post especialmente dedicado.
Porque esta é uma época de amor, de afectos e de emoções fortes. Porque a blogosfera foi uma descoberta boa deste ano, que chegou à minha vida quase por acaso, que me revelou um mundo novo e fez despertar um lado de mim que andava um pouco mais escondido.
Por todos os posts que, ao longo destes  sete meses, me fizeram rir, pensar, sorrir, emocionar-me, enternecer-me, reflectir, concordar, discordar, maravilhar-me, comover-me, deliciar-me e sonhar, numa teia sem fim de encantos e cumplicidades, que não imaginava possível entre pessoas que antes não sabiam da existência umas das outras e que nunca cruzaram um olhar.
Por todos aqueles a quem me afeiçoei sem precisar de os ter visto, que admiro e respeito sem conhecer o som das suas vozes, nem a musicalidade dos seus risos, que chegaram até mim apenas através das palavras (no princípio era o Verbo), com tudo o que elas escondem e revelam. Pelo  prazer da partilha e pelos laços que descobri que também é possível criar desta maneira.
E, ainda, para todos os que passam por aqui sem se dar a conhecer, para todos os que me "seguem" e eu acompanho também, ou, até, nem por isso; para os se detêm para ler o que eu vou escrevendo, ao sabor das minhas vontades e  de sentimentos de cada dia e de cada momento.
É para todos eles e, em particular, para o  Paulo, para a Helena, para a Virgínia, para a Fátima e para a Sissi, que vai este forte beijo e este abraço apertado de bom Natal, cheio de desejos das melhores coisas que a vida pode dar-nos, principalmente saúde, mas também alegria, amor, dias bem passados e muito boas surpresas.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Madrugar



Se há coisas de que eu não gosto, levantar-me cedo é, seguramente, uma delas. Custa-me sempre tanto!... 
À noite nunca tenho pressa de me deitar e tudo o que seja menos da meia-noite, ou uma, é demasiado cedo para mim. Mas, de manhã, sou incapaz de ouvir  o despertador e saltar da cama, com o vigor  e a determinação de quem está pronto para começar um novo dia. Preciso de uns dez minutinhos, pelo menos, para me mentalizar. Para me auto-convencer que vou ter mesmo que sair dali. Onde eu estava tão bem... E só o faço por obrigação, para ir trabalhar, ou por prazer - para ir viajar, por exemplo.
Em podendo, gosto de me ir deixando ficar até mais tarde, acordando e voltando a adormecer, gozando a preguiça do meio-sono, sem pressa nem horários a cumprir, numa espécie de desforra por todos aqueles dias em que tenho de me levantar antes de ter dormido tudo. É que eu adoro dormir! E tenho que dormir imenso. Oito horas, no mínimo, seria o ideal. Mas isso nem sempre é possível! Felizmente, não há preocupações, nem tristezas, ou desgostos, que sejam capazes de me tirar o sono; e, até agora, só muito raramente tive que lidar com espertinas e insónias.
Quem haveria pois de dizer que  me ia dar para esta maluqueira de me levantar muito mais do que cedo, três vezes por semana, para ir ao ginásio antes de ir trabalhar.  Às vezes, até a mim me custa a acreditar, porque nem me  reconheço. Claro que continua incomodar-me ouvir o toque do despertador às seis da manhã, que continua a ser difícil sair de casa antes das sete, quando lá fora ainda é tudo escuro e as ruas estão mais ou menos desertas.
Mas, depois, há o lado bom que têm, também, todas as coisas: os efeitos do exercício físico no corpo, o facto de me saber bem sentir-me em forma e de sair do ginásio a transbordar de energia e boa disposição.
E, acima de tudo, o prazer de poder assistir ao nascer do dia, de ver a noite fazer-se dia e Lisboa a clarear, a cidade a transformar-se, ampliando os sons e os movimentos, o sol a aparecer no horizonte, primeiro tímido e logo iluminando os telhados e o rio, silencioso e sereno, eterno companheiro de uma Lisboa  que acorda vagorosa, como eu.
Tudo isto dura há quatro meses e tal, mas ainda conserva  o sabor da novidade; ainda não me cansei de ver amanhecer, o nevoeiro dissipar-se, a cidade despertar, ganhar cor e vida, passar  da calma ao bulício, na  luz ímpar da manhã que, aos poucos, se vai tornando mais intensa.
E, nem que fosse somente para assistir a este magnífico espectáculo, já teria valido a pena madrugar...

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Passagem do tempo



Les vieux ne bougent plus
Leurs gestes ont trop de rides
Leur monde est trop petit
Du lit à la fenêtre,
Puis du lit au fauteuil
Et puis du lit au lit.       (Les Vieux, de Jacques Brel)

Quando olho a minha mãe, vejo, com mais clareza, como podem ser duros e devastadores os efeitos que a passagem do tempo tem em nós.  Às vezes, confesso, não deixa de emocionar-me ver nela apenas uma sombra do que foi outrora.
É a mesma alegria. É o mesmo sorriso. Mas, o dinamismo e a energia de quem eu me habituara a ver positiva e bem-humorada, a agarrar a vida com as duas mãos, olhando-a de frente e lutando contra todos os impossíveis para a transformar numa festa diária, perdeu-se para sempre.
E pergunto-me o que ela pensará sobre tudo o que não consegue dizer-me. Tento aceitar a sua velhice com a naturalidade de quem sabe que o declínio não pode ser evitado.  Sei que, agora, tenho de ser eu a ampará-la e a mimá-la, para que ela se sinta bem. Só quero que, no tempo que lhe resta, ela possa ser muito feliz. E faço tudo por isso. Porque  o tempo também inverteu, de certo modo, os nossos papéis. Mas não deixa de ser triste constatar que, entre nós, só o  amor continua igual.
Os Domingos à tarde são um tempo só nosso, momento especial de estarmos juntas. Hoje, tento aproveitar ao máximo esse tempo. E  não consigo imaginar-me  sem os seus olhos verdes, sempre vivos,  mudando de tonalidade consoante o seu humor, nem sem os nossos risos cúmplices e os nossos abraços apertados.
Tenho, muitas vezes, saudades do seu colo. Do tempo em que bastava dizer: "ó mãe!" para tudo se resolver; em  que  bastava ser embalada pelos seus braços fortes e bons  para que todas as minhas dores passassem   e  os meus desgostos de menina se desvanecessem.
Quem sabe se, de afecto em afecto, o que procuramos a vida toda não é mesmo o regresso a essa inocência irremediavelmente perdida, que continua a parecer-nos  a "Terra Prometida".

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Ternura



Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

Hoje, agora, em total desarmonia com uma tarde agreste de Outono,  despedindo-se  impiedoso  e violento,  é só ternura que me enche o coração.
E, sempre que digo, penso, ou sinto ternura, é este poema, lindo, que eu adoro, que me vem à cabeça.
Mas, hoje, quero dar-to! Porque, repetindo O'Neill, também eu "tropeço de ternura por ti."

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Noites de Lisboa



Conhecida pelo seu romantismo meio decadente e  por uma  luz absolutamente  inigualável, Lisboa tem, também, uma extraordinária vida nocturna.
É quando o sol desaparece e o Tejo fica às escuras, que Lisboa desperta da sua habitual quietude  mais ou menos pachorrenta, se volta  para si  e se agita festiva, como uma adolescente em alvoroço.
Eu, que sou conhecida por ser muito "urbana", vivo em estado de permanente paixão pela minha cidade, caprichosa, cativante e sedutora a todas as horas.
Houve uma altura, há uns bons anos, em que saía quase todas as noites. Animada pela euforia da emancipação acabadinha de chegar, queria viver tudo de uma vez, como se nada, nem ninguém, me pudesse deter. Era o tempo em que tudo tinha que ser para hoje, já, agora mesmo. Em que queria ir aqui e ali, na sofreguidão desmedida de conhecer tudo e mais alguma coisa, restaurantes, bares, discotecas... E absorver, exaustivamente, o mundo de diversão que a noite me oferecia, que era de certo modo novo para mim e me encantava a ponto de não deixar sequer lugar para o  sono, nem para o cansaço.
Naquela época, todos os caminhos iam dar ao Xafarix, que era um dos lugares incontornáveis da noite de Lisboa. E onde, ainda por cima,  estava o Luís Represas, não na distância fria de um palco, mas coladinho a nós, com aquela voz única que Deus lhe deu, a cantar canções brasileiras (tantas vezes melhor do que as versões originais), lindas, que embalavam os nossos amores e desamores de então, que continuaram a fazê-lo durante uns anos e que, ainda hoje, me vêm frequentemente à memória. Como esquecer: Foi nos bailes da vida, ou num bar em troca de pão, que muitas gente boa...Não há ó gente, oh não, luar como esse do sertão... Prepare o seu coração, p'rás coisas que eu vou contar... E por falar em saudade, onde anda você... Quero falar de uma coisa, adivinhe onde ela anda...Ou ainda a Saudosa Maloca e a Teresa da Praia, em duetos tão deliciosos como hilariantes com um impagável Cajó?
E, no entanto, era quando a madrugada já ia adiantada e o Xafarix encerrava portas,  que aconteciam os melhores momentos, os mais emotivos, com um grupo restrito que se ia deixando ficar, a conversar, a beber, a comer tostas mistas, a rir e a cantar, em longas noitadas de  emoções, afectos e música, que, quase sempre, se prolongavam até à hora em que o dia já se fazia anunciar.
Guardo, bem vivas, muitas recordações boas desses anos e de incontáveis noites de farra total. Lembro-me, por exemplo, de uma vez ter estado connosco Pablo Milanês; e de outra noite em que fomos todos para minha casa, lá para as seis da manhã, comer bolo rei torrado com manteiga e ouvir Frank Zappa.
Entretanto já passou muito tempo, aconteceu muita coisa e todo aquele frenesim de outrora se esgotou.
Hoje, continuo a gostar da noite e de "sair", mas faço-o de maneira muito mais comedida, pensando nos efeitos colaterias que uma noitada à maluca pode causar no(s) dia(s) seguinte(s).
Ir jantar fora é um dos meus grandes prazeres. Gosto de bons restaurantes, daqueles onde o ambiente acolhedor, a comida e a bebida mais  requintadas, associados a uma excelente companhia, são a garantia de pequenos pedaços de paraíso. De momentos que fazem a vida valer a pena. E há restaurantes magníficos em Lisboa. Não os conheço todos, naturalmente, mas dos que já visitei (e repeti várias vezes) continua a ser, talvez, A Travessa, na Madragoa, que está no topo das minhas preferências. A isso não será indiferente a sua localização, no espaço meio feérico do Convento das Bernardas, que faz muito mais o meu género do que os ambientes frios e algo minimalistas do tipo  Bica do Sapato.
De discotecas nunca fui grande fã, embora tenha feito todo o circuito (kremlin, Plateau, Kapital e  Lux, como todas as pessoas da minha geração), mas cada vez tenho menos paciência para esse tipo de espaços.
Para mim,  que sempre preferi os bares às discotecas, as melhores noites de Lisboa, as melhores festas, continuam a ser as do Xafarix. Há, agora, locais belíssimos, à beira-rio, ou com deslumbrantes vistas sobre a cidade, mas,  ali, no velho Chafariz de Santos,  vinte anos depois, o Xafarix continua igual e imparável, com boa música, muita alegria  e o sucesso que só consegue ter quem percebe o que anda a fazer. Mesmo se o Luís Represas  já só canta em dias de festa, lá está o Cajó para nos receber com a sua simpatia e boa disposição e sem o pretensiosismo exibicionista dos locais da moda.
Na verdade,  o Xafarix continua a ser um lugar de referência, um clássico, que eu não hesito em nomear como primeiríssima escolha, se me pedirem para assinalar um lugar para ir passar um bom bocado. E ainda que, actualmente, (e tirando a festa de aniversário, na noite de Santo António, que é imperdível e  em que acabo sempre por ir  "picar o ponto"), a minha presença no Xafarix seja incerta e pouco frequente, pelas mais diversas razões, é um sítio onde tenho sempre vontade de ir. Porque é como estar de novo na sala de velhos amigos, daqueles com quem nos sentimos bem, mesmo quando estamos muito tempo sem nos ver. E porque  é ali, naquele ambiente genuíno, festivo e acolhedor, entre risos e muita música, que continuo a sentir o aconchego e o bem-estar que só se sente em casa.