segunda-feira, 10 de agosto de 2015

O insuportável mês de Agosto


Ultimamente tenho gostado das crónicas da Catarina Carvalho, ao Domingo, na Notícias Magazine. A de ontem tem a ver com um tema que me diz muito: como pode ser horroroso o mês de Agosto. Apesar de não viver esta experiência de ir de férias para o sul, como (quase) toda a gente, partilho a visão tenebrosa que o texto descreve. E continuo a preferir a(s) cidade(s).
Alguns excertos, que subscrevo:
Como se ainda não houvesse inferno suficiente para quem tenta encontrar o paraíso numas férias em Agosto, eis que chegam as festas ao fim da tarde nos bares de praia. As sunset party. Dantes havia pores do Sol, e todos os dias. E os bares de praia serviam para comprar gelados aos miúdos antes do caminho para casa. Agora há sunsets. Chama-se assim, num inglês tão parolo como aquilo que descrevem. E os bares de praia, a partir das seis da tarde transformam-se em deslocadas discotecas de pés na areia. (...) hoje em dia um sunset não é a melhor hora do dia para estar na praia. É a melhor hora para sair da praia e começar a beber uns copos - que, julgo, se prolonguem noite fora. Os DJ saltam para as mesas de mistura e dão à grafonola insuportável. Podia perguntar: mas quem é que prefere música de martelinhos a ver um pôr do sol apenas ao som do mar? Suspeito que a resposta não fosse a que eu esperaria, tendo em conta a quantidade de pessoas nas espreguiçadeiras ao lado que vi a abanarem a cabeça, ou, até, as ancas, em poses que julgo elas considerarem ser modernas (...)
Resta-me, portanto, continuar a chamar pôr do Sol ao pôr do Sol. E encontrar um lugar onde possa apreciá-lo na areia, sem músicas. Num desses muitos lugares que ainda há em Portugal, que não o usam apenas como razão para uma festa. Mas fazem dele o que ele é: um autêntico espectáculo.
É um pouco por tudo isto  que prefiro a praia quando posso tê-la mais vazia e silenciosa e que, com o calor excessivo que se faz sentir, e enquanto não chegam os dias de passeio e de arejamento que se avizinham, escolho o melhor oásis de frescura e tranquilidade que posso encontrar neste momento: a minha casa.

(Fotografia de Paulo Abreu e Lima)

domingo, 9 de agosto de 2015

Comédia de Verão


A preferência de uma das minhas amigas por este género de filme - comédia - levou-nos ontem a ir ver "Descarrilada", (Trainwreck, no original) mesmo sem saber quem é Judd Apatow, o realizador, e sem nunca antes ter ouvido falar de Amy Schumer, a protagonista, que escreve também o argumento e que parece ser já uma celebridade em termos de stand up (que eu detesto) e de televisão.
Desta vez, porém, já tinha lido algumas críticas, muito favoráveis, na generalidade. No DN, por exemplo, Rui Pedro Tendinha diz isto:
E graças ao todo-o-poderoso padrinho da nova comédia americana, Judd Apatow, o cinema americano ganhou uma nova estrela. Não é sensual, não tem o acting padronizado mas é a notícia mais refrescante do humor de Hollywood. Chama-se Amy Schumer, já brilhava na televisão americana (...) e agora escreveu e protagonizou aquela que pode vir a ser a melhor comédia do ano.
Eu não diria tanto. Amy Schumer faz o filme e cumpre muito bem  o seu papel, num registo entre o divertido e o malicioso, sem cair na vulgaridade, mas a história é mais ou menos a mesma da maior parte das comédias românticas e por isso não sei se esta é, como li já não sei bem onde, uma comédia como não se via há muito. Para mim, não passa de um filme mediano, ideal para ver numa noite quente de Verão. E esquecer logo a seguir.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Caetano


Brasileiro, baiano, cantor, intérprete, poeta, revolucionou a música e, com a sua voz única, trouxe mais mundo e mais encanto à nossa vida. Por isso nem precisa de apelido. É Caetano, apenas, e só o nome próprio o identifica como um dos maiores de sempre.
Ninguém diria que faz hoje 73 anos. Há pessoas, realmente, por quem parece que os anos não passam. Mas, para o homenagear, nada melhor que ouvi-lo.



quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Insólitos do quotidiano


Tenho, de há muito, a convicção de que devo ser parecida com toda a gente. De facto, nos mais diversos lugares e circunstâncias, é habitual dizerem-me ter ideia que me "conhecem de algum lado". Mas o que se passou ontem ao fim de tarde,  num típico eléctrico lisboeta, - bem menos turístico que o  28 -, assumiu contornos de verdadeira caricatura. 
A meio de um percurso entre Santos e Campo de Ourique, quando me sentei num lugar à janela, deliciada com a perspectiva de admirar Lisboa ao sabor da ronceirice do eléctrico e da brisa da tarde, uma senhora sentada no banco atrás do meu, que eu já reparara me olhava insistentemente, tocou-me no ombro e perguntou-me com delicadeza, pedindo desculpa por me interpelar daquela maneira repentina, se eu não era do Mar Salgado
Respondi que não, sorrindo meio divertida, mas ela não se convenceu. E insistiu: sim, é aquela que trabalha no mercado do peixe, disse, talvez para me relembrar o meu papel. Voltei a dizer-lhe  que não era quem ela julgava, nem sabia bem de quem falava, pois não acompanhava a novela. Um pouco desiludida, mas ainda desconfiada, ousou numa última tentativa: é que é tão parecida... E repetiu esta frase várias vezes.
Por pouco não me vi forçada a tirar uma fotografia para publicar no facebook, ou sabe Deus onde, ou a ter que dar um autógrafo. O problema é que não saberia que nome assinar. E continuo sem saber com quem me confundia.
E ainda há quem ache que andar nos transportes públicos não é uma interessante experiência do quotidiano... 


(Fotografia de Maria Cristina Guerra)

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Des petits riens


Mesmo quem se julga mais ou menos forte e positivo e tem pudor das suas fragilidades pode às vezes, por qualquer coisa de nada, abater-se e soçobrar. Por que não há-de então chorar desalmadamente, sem culpa nem justificação, até pelo que parece não ser assim tão importante?
Mas depois há também a felicidade de um sorriso ou de um abraço, uma palavra ou um gesto, que podem mudar tudo. Ou apenas o luxo de preencher os dias com o que se quiser, de deixar que as horas passem vagarosas, de encostar-se calado  e quieto numa varanda qualquer  diante do rio ou do mar, demorar o olhar  naquela imensidão cintilante e deixar-se levar no encanto de um prazer antigo e sempre renovado, enchendo os olhos de luz e de azul. E sentir então que tudo volta ao seu lugar. E ser feliz com coisas banais, na certeza de que a vida é boa e bonita e, no fundo,  muito menos sinuosa do que costumamos acreditar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O esforço e o dom


Encontrei o texto por acaso nas redes sociais. Tem um título que pode à partida parecer um pouco impiedoso, quase cruel: "Meu filho, você não merece nada". Foi escrito por Eliane Brum, uma brasileira, jornalista e escritora, que colabora também no El País. E dá que pensar. 
Apesar de só agora ter tido dele conhecimento, foi escrito em 2011. No entanto, nem por isso perdeu actualidade e constitui um interessante e muito realista retrato das novas gerações e do modo como são educadas, isto é: mais ou menos preparadas  do ponto de vista das habilidades e das tecnologias, mas incapazes de lidar com a frustração, o risco, o esforço e a ideia de "criar a partir da dor", a inércia cada vez maior em "fazer-se à vida", uma visão do mundo baseada no princípio de que têm todos os direitos e nenhuns deveres, o que explica, entre muitas outras coisas, o drama que são hoje os "trabalhos de casa", por exemplo, a proliferação de "centros de explicações" e todas as consequências nefastas que daí advêm, a permanência na casa dos pais até perto dos trinta ou para além disso, a emigração vista como uma fatalidade, a má educação e a falta de civismo crescentes, que quem como eu  lida com tudo isto diariamente tão bem conhece.
Aqui ficam apenas alguns excertos. Para quem quiser ler o texto inteiro, também pode fazê-lo aqui:

"Há uma geração de classe média que estudou em bons colégios, é fluente em outras línguas, viajou para o exterior e teve acesso à cultura e à tecnologia. (...) Ao mesmo tempo, cresceu com a ilusão de que a vida é fácil. Ou que já nascem prontos - bastaria apenas que o mundo reconhecesse a sua genialidade.
(...)
Tenho-me deparado com jovens que esperam ter no mercado de trabalho uma continuação de suas casas, onde o chefe seria um pai ou uma mãe complacente, que tudo concede. Foram ensinados a pensar que merecem, seja lá o que for que queiram. E quando isso não acontece - porque obviamente não acontece - sentem-se traídos, revoltam-se com a "injustiça" e boa parte (...) desiste.
(...) foram crianças e jovens que ganharam tudo sem ter de lutar por quase nada de relevante, que desconhecem que a vida é construção. (...)
A nossa época tem sido marcada pela ilusão de que a felicidade é uma espécie de direito. E tenho testemunhado a angústia de muitos pais para garantir que os filhos sejam "felizes". Pais que fazem malabarismos para dar tudo aos filhos (...) sem esperar nenhuma responsabilização nem reciprocidade.
É como se os filhos nascessem e imediatamente os pais já se tornassem devedores. Para estes, frustrar os filhos é sinónimo de fracasso pessoal. Mas é possível uma vida sem frustrações? Não é importante que os filhos compreendam como parte do processo educativo duas premissas básicas do viver, a frustração e o esforço? Ou a falta e a busca, duas faces de um mesmo movimento? Existe alguém que viva sem se confrontar dia após dia com os limites  da sua condição humana tanto como com os das suas capacidades individuais?
Nossa classe média parece desprezar o esforço. Prefere a genialidade. O valor está está no dom, naquilo que já nasce pronto. (...) Ter de dar duro para conquistar alguma coisa parece já vir assinalado com o carimbo de perdedor. (...)
Da mesma forma que supostamente seria possível construir um lugar sem esforço, existe a crença não menos fantasiosa de que é possível viver sem sofrer. De que as dores inerentes a toda vida são uma anomalia, uma espécie de traição ao futuro que devia estar garantido. Pais e filhos têm pagado caro pela crença de que a felicidade é um direito. E a frustração um fracasso. Talvez esteja aí uma pista para compreender a geração do "eu mereço".
Basta andar por esse mundo para testemunhar o rosto de espanto  e de mágoa de jovens ao descobrir que a vida não é como os pais lhes tinham prometido. (...) possuem muitas habilidades e ferramentas, mas não têm o menor preparo para lidar com a dor e as decepções. Nem imaginam que viver é também ter de aceitar limitações e que ninguém, por mais brilhante que seja, consegue tudo o que quer. (...)
Se os filhos têm o direito de ser felizes simplesmente porque existem - e aos pais caberia garantir esse direito - que tipo de relação pais e filhos podem ter? Como seria possível estabelecer um vínculo genuíno se o sofrimento, o medo e as dúvidas estão previamente fora dele? Se a relação está construída sobre uma ilusão, só é possível fingir.
Aos filhos cabe fingir felicidade - e, como não conseguem, passam a exigir cada vez mais de tudo, especialmente coisas materiais, já que estas são as mais fáceis de alcançar - e aos pais cabe fingir ter a possibilidade de garantir a felicidade, o que sabem intimamente que é uma mentira porque a sentem na própria pele. (...)
Assumir a narrativa da própria vida é para quem tem coragem (...) se tornar aquilo que se é, buscar a própria voz, é escolher um percurso pontilhado de desvios e sem nenhuma certeza  de chegada. É viver com dúvidas e ter de responder pelas próprias escolhas. Mas é nesse movimento que a gente vira gente grande.
Seria muito bacana que os pais de hoje entendessem  que tão importante como uma boa escola, um curso de línguas ou um Ipad é dizer de vez em quando: "Te vira, meu filho. Você sempre poderá contar comigo, mas essa briga é tua". (...)
Crescer é compreender que o facto de a vida ser falta não a torna menor. Sim, a vida é insuficiente. Mas é o que temos. E é melhor não perder tempo se sentindo injustiçado, porque um dia ela acaba.

domingo, 2 de agosto de 2015

Masculino Singular


Há aquela velha máxima do senso comum, segundo a qual "os homens são todos iguais" e, associada a ela, a ideia de que o género masculino é normalmente mais básico e linear e o feminino, pelo contrário, muito mais complexo, misterioso e refinado.
É daqui, de resto, que terá surgido o dito jocoso de que um homem faz só uma coisa de cada vez e uma mulher consegue fazer muitas ao mesmo tempo. Descontadas as piadas e o carácter simplista e mais ou menos abusivo que têm todas as generalizações, não consigo concordar com nada disto. Tal como as mulheres, os homens são na verdade todos diferentes, numa tão vasta diversidade que dá para todos os gostos; e ainda bem!...
É talvez por isso que não percebo as mulheres que julgam conhecer perfeitamente o género feminino apenas por pertencer-lhe e tendem a ver nas outras mulheres alguém que obedece a um padrão comum, regra geral feito à sua própria semelhança e, por isso, aqui e ali, entendido com a rivalidade de um alvo a abater.
Do mesmo modo, para lá do estereótipo, também muitos homens são capazes de ser verdadeiramente complicados, de uma enorme fragilidade emocional, e com opções e caminhos, gostos e atitudes, gestos e palavras que nos fazem tantas vezes pensar: "vá lá a gente entender isto..."
E, no entanto, não podemos passar sem eles. E é justamente essa complexa dissemelhança, que faz de cada homem, como de cada pessoa, um ser absolutamente único e diferente de todos os outros, o que torna tudo muito mais difícil, mas também mais aliciante e que, a cada volta da vida, nos surpreende, confunde, desconcerta e apaixona.

Um dia, vivi a ilusão
De que ser homem bastaria
Que o mundo masculino
Tudo me daria
Do que eu quisesse ter

Que nada
Minha porção mulher
Que até então se resguardara
É a porção melhor
Que trago em mim agora
É que me faz viver

Quem dera
Pudesse todo homem compreender
Oh Mãe, quem dera
Ser no verão o apogeu da primavera
E só por ela ser

Quem sabe
O Super Homem
Venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus
O curso da história
Por causa da mulher