Diante do que já se anunciava e hoje não fez mais que confirmar-se, faltam-me as palavras. Esta sede desmedida de poder, o princípio de que vale tudo e que não se olham a meios para atingir fins que assentam em pura ambição pessoal, a ideia de querer levar a sua vontade avante por cima de tudo e de todos é, no mínimo, vergonhoso, imoral e ultrajante.
Como disse Paulo Portas: "O secretário -geral do PS escolheu o caminho do que é matemático possível, formalmente constitucional, mas politicamente ilegítimo." Ou ainda: "Um dia acabará por suceder-lhe manobra igual ou semelhante. E de tão alto cairá como a tão alto se quis guindar, sem que para tal o povo o elevasse."
O discurso de Paulo Portas, tão brilhante como sempre, ou mais ainda desta vez, vale a pena ser ouvido na íntegra. Aqui.
Mas, mais cedo ou mais tarde, não serão apenas os que hoje cantaram vitória a pagar o preço desta fraude. Infelizmente, vamos todos pagar muito caro este triste episódio da nossa história.
Por ora, resta-nos manifestar bem alto a nossa imensa indignação...
A revista Notícias Magazine, que leio todos os Domingos, apareceu esta semana renovada. Diferente. Com mais opiniões. Entre elas as de Júlio MachadoVaz e Marta Crawford, em versão quase epistolar, alternando os seus textos, numa crónica chamada "Na volta do correio". Desta vez, o texto dela diz uma coisa com a qual concordo inteiramente. Isto:
Para mim o sexo é muito mais do que penetração. Comparo-o a um menu de degustação em que cada prato deve ser saboreado sem pressas de se chegar ao fim. É esse o princípio do prazer. Mas será que sabemos realmente saborear o nosso caminho, aproveitar cada momento, tirar o maior partido do que temos?
Mesmo quem, como eu, sofre de urbanidade aguda, encontra no espaço de um jardim em plena cidade um encanto muito peculiar. Há nele uma paz revigorante, um silêncio e um sossego que nos permitem descansar, uma magia de beleza e serenidade que nos fazem sentir um conforto semelhante ao de um colo grande e bom.
E então, é como se o tempo se suspendesse e pudéssemos parar e permanecer quietos, pensar em nada, deixando-nos simplesmente arrebatar pela perfeição de um momento puramente contemplativo e, naquela sensação de beatitude que nos dá uma alma nova, sentir como pode às vezes ser boa a preguiça.
Destes lugares maravilhosos onde me sinto em harmonia com o mundo, o Luxembourg é talvez o mais especial de todos. Em traços gerais a história é mais ou menos assim: Marie de Médicis, a viúva de Henri IV e mãe de Louis XIII, farta das intrigas da corte, decidiu retirar-se para um pavilhão de caça (hoje Palaisdu Luxembourg, sede do Senado, no interior do Jardim), que mandou arranjar e, ao mesmo tempo, construir os jardins. Isto por volta de 1600 e tal. E, por isso, há no Jardim a Fontaine de Médicis.
O Jardin du Luxembourg, em pleno Quartier Latin, Paris, é
para visitar sempre que se quiser, mas eu prefiro-o ao entardecer. Seja em que estação do ano for. Porque o
entardecer, ali, é diferente. Os parisienses, que adoram abreviaturas, chamam-lhe,
de modo familiar: “Le jardin du lugo”.
E contrariamente ao que se passa
connosco, os franceses aproveitam de forma quase exaustiva os inúmeros e
extensos espaços verdes da cidade. É comum encontrar os jardins cheios de
gente, a qualquer hora. E também no Inverno, mesmo quando a temperatura não é
superior a cinco graus. Ao final do dia, em todo o caso, quase ao pôr-do-sol, o
“Lugo” costuma ser tranquilo e silencioso. Por isso me sabe tão bem
sentar-me nas cadeiras de ferro verde e deixar-me estar, apreciando a luz e o
sossego em volta. Ah, que saudades...
Il y avait un jardin qu'on appelait la terre,
Il brillait au soleil comme un fruit défendu.
Non, ce n'était pas le paradis ni l'enfer
Ni rien de déjà vu ou déjà entendu.
Il y avait un jardin, une maison, des arbres
Avec un lit de mousse pour y faire l'amour
Et un petit ruisseau roulant sans une vague
Venait le rafraîchir et poursuivait son cours
Il y avait un jardin grand comme une vallée On pouvait s'y nourrir à toutes les saisons Sur la terre brûlante ou sur l'herbe gelée Et découvrir des fleurs qui n'avaient pas de nom.
Um filme de 007 vale sempre a pena ser visto. Mesmo para mim, que não sou fã de filmes de acção. Mas estes são suficientemente bem feitos, aliam qualidade e bom gosto, charme e adrenalina, argumento e ritmo intensos, efeitos especiais e humor, tudo nas doses certas. Spectre tem uma sequência de abertura verdadeiramente arrebatadora e depois amolece e prolonga-se um pouco para lá da conta.
As "bond girls" de serviço cumprem o seu papel no essencial, com vantagem óbvia para Mónica Bellucci que mantém o "sex appeal", apesar das marcas visíveis da passagem dos anos (ou até por causa delas). Já Léa Seydou não consegue nunca parecer-me completamente convincente, neste como noutros filmes - La vie d'Adèle, por exemplo - mas deve ser problema meu, que nunca vejo nela garra suficiente para dar credibilidade aos papéis com que é presenteada.
Desta vez concordo com a crítica. O filme é muito bom. Mas o anterior é talvez ainda melhor. Até na música que o acompanha...
O livro foi hoje posto à venda e eu tenho sobre ele uma imensa curiosidade. E, mesmo sem o ter lido, consigo antever a sua excepcionalidade. Sei que ao dizer isto posso ser considerada muito mais do que suspeita. Porque a Helena que todos conhecemos, que eu comecei por admirar como acontece com a maior parte da população portuguesa, pelo menos, que é um exemplo de força, de coragem e de alegria, é agora - por um daqueles acasos do destino que se acredita estarem há muito escritos nas estrelas - uma pessoa que faz parte da minha vida, uma amiga muito próxima e muito querida, a quem estou profundamente ligada por fortíssimos laços de amizade e estima.
Por isso já não consigo dissociar a Helena autora da "minha" Helena, que está para além dessa imagem comum, porque é a que tenho no coração. Por isso, também, tudo o que lhe diz respeito me interessa e me toca.
Mas este livro é diferente, eu sei. Mais íntimo e ousado. E sei muito de como ele surgiu e foi crescendo, o que aumenta a minha expectativa.
Já estava à venda no Corte Inglés, mas não o comprei ainda. Prefiro guardar-me para o lançamento, que será, de igual modo, um momento especial.
É uma livro sobre a espiritualidade e a fé, mas estou certa que é também um livro de amor e de afectos, onde todos nos poderemos rever e encontrar.
E, se alguém tem dúvidas, basta ouvi-la aqui, na primeira pessoa. Grande Helena!...
A propósito dos dias estranhos que temos vivido no último mês - e sabe Deus o que ainda vamos ver acontecer - tenho lido e ouvido muita coisa. Do mais interessante ao mais disparatado, opiniões com as quais concordo e outras de que discordo em absoluto, umas simples e outras muito rebuscadas, muito bem escritas, ou nem tanto.
Hoje, encontrei no "Observador" um texto de Rui Ramos de que gostei. Chama-se "A última golpada e não resisto a trazê-lo até aqui. Diz isto:
Em Portugal, não entrámos numa época de polarização política, mas de golpismo parlamentar e de confusão ideológica. O perigo não é a guerra civil, mas o apodrecimento do regime.
Vivemos há um mês no país dos cenários. Subitamente, tudo se tornou possível. Pela primeira vez, a democracia portuguesa pode ser governada por quem perdeu as eleições. Para chegarem ao poder, os derrotados de 4 de Outubro prestaram-se à mais extraordinária ginástica: António Costa esqueceu o seu precioso plano Centeno, o BE rifou a intransigente oposição ao Tratado Orçamental, e o PCP pôs no sótão a sua implacável campanha contra o euro – em conjunto, renegaram todas as propostas e bandeiras com que pediram votos e convenceram os eleitores. Quem votou no PS porque era um “partido do centro”, vê-o agora a perfilhar as bolas que o BE e o PCP lhe atiram; quem votou no BE e no PCP porque eram “contra tudo”, vê-os agora a aceitar tudo. O poder corrompe, e o poder de uma maioria parlamentar forjada no desespero e no cinismo da derrota, corrompe muito mais. António Costa transformou um dos maiores fracassos da política portuguesa numa vitória: é como se D. Sebastião, depois de perder em Alcácer-Quibir, tivesse reaparecido como sultão de Marrocos. Ora, o que custa, nestas coisas, é a primeira vez. Uma golpada nunca é a última golpada. Qual é a próxima? O PCP e o BE vão “entalar” o PS? Ou é Costa quem vai “entalar” o PCP e o BE? As pensões e os salários sobem mesmo, ou isso é apenas outro embuste, para cair em Janeiro, a pretexto dos “mercados” e da “Europa”? Manter-se-á Costa fiel aos seus parceiros de ocasião, ou tentará mudar de montada e obrigar o PSD e o CDS, com a ajuda de Bruxelas e do próximo presidente da república, a assumir a “responsabilidade” de lhe viabilizar o governo? As esquerdas serviram-lhe para chegar ao poder; vai a direita servir-lhe para lá ficar? Ninguém sabe. Nada, a partir de agora, é impossível. Quem pensa que em Portugal entrámos numa época de polarização e de ideologia, está talvez enganado. Entrámos na época do golpismo parlamentar e da confusão ideológica. O perigo não é a guerra civil, mas o apodrecimento do regime através da quebra de todas as regras e da degradação de todos os projectos. A política desligou-se da sociedade. A velha regra do vencedor das eleições governar tinha uma razão de ser. Não era só permitir governos minoritários num sistema que dificulta maiorias absolutas. Era mais do que isso: era manter alguma relação, mesmo que esforçada, entre o voto e as soluções de governo. Quando, a meio da noite eleitoral, os resultados ficavam definidos, o eleitor podia ir para a cama, porque já sabia quem iria ser o primeiro-ministro. O cidadão tinha assim a sensação de haver decidido o governo. Isso acabou. A partir de agora, o eleitor vota, mas sem ideia nenhuma do que pode resultar desse voto: tudo dependerá das intrigas e das combinações dos chefes políticos. Entre o eleitor e o governo, a oligarquia inseriu o parlamento como uma camada intermédia de enredo e de manipulação, onde os derrotados se transformam em vencedores e os partidos anti-euro reaparecem como partidos do euro. Para a metamorfose da nossa política estar completa, falta apenas a atomização dos partidos em pequenos grupúsculos imprevisíveis. Então, as possibilidades de combinação serão ainda mais infinitas e vertiginosas. Em Portugal, a oligarquia libertou-se dos eleitores. Atreveu-se a isso, porque imagina que já não tem diante de si cidadãos, mas apenas dependentes do Estado, que pode rebaixar à vontade. No meio disto, estão os grandes interesses (empresariais, corporativos, sindicais), cuja margem de manobra vai aumentar, e os grandes ingénuos, convencidos que isto é a “democracia”, quando é apenas a podridão.
Não tenho de todo o culto dos mortos, não gosto de visitar cemitérios em circunstância alguma, e menos ainda nestes dias em que vai toda a gente. Respeito muito, no entanto, quem o faz.
E, contrariamente aos que conseguem encontrar beleza e paz nestes espaços, só vejo neles soturnidade, assim como, para mim, há em todos os rituais associados ao fim da vida terrena qualquer coisa de lúgubre que me impressiona e incomoda.
Não sinto, por isso, necessidade ou desejo de levar flores aos mortos, porque é em vida que gosto de homenagear e mimar as pessoas a quem quero bem; nem é no cemitério que me sinto mais perto dos que já cá não estão, porque não os associo a tristeza nem a desconforto.
Dos que partiram ficam-me as recordações, as ideias, as acções, os ensinamentos e tudo o que de bom e mau fomos vivendo ao longo do tempo, que é a marca indelével que deixaram em mim. É com ela que vivo. É ela que, passada a surpresa inicial do momento da partida - a morte surpreende-nos sempre - a dor da perda, o momento do luto, no-los traz de volta, em lampejos fugazes que nos chegam através de um lugar, de um objecto, de uma palavra, de uma canção. E lembrá-los assim é a mais bonita e singela forma de os voltar a ter próximos, no pensamento e no coração.