quarta-feira, 24 de novembro de 2021

O verdadeiro artista




O Luís Represas faz parte da minha vida, porque a sua voz e a sua música me acompanham desde (quase) sempre, porque me embalou nas horas mais tristes e me aconchegou nos momentos mais felizes - e continua a ser assim- , porque, ao longo do tempo, me tornou a existência mais "llevadera" e porque, apesar de haver muitas outras vozes e canções de que eu gosto, que me comovem e me tocam de forma particular e que eu sinto como se fossem um pouco minhas, o Luís Represas tem, ainda agora, nesse domínio, o lugar principal.
Hoje, é muito mais que um amigo; é uma companhia de todos os momentos, responsável por muitos instantes de pura emoção, daqueles em as palavras sobram e só o sentimento existe, que dão leveza e brilho aos nossos dias.
E é por tudo isto e pelo que não consigo dizer, é, também, porque hoje o dia é todo dele, que aqui deixo a minha gratidão gigante, um abraço de parabéns do tamanho do mundo e o desejo de que possa continuar a (en)cantar(nos) infinitamente.

quarta-feira, 3 de novembro de 2021

Um interminável e acalmante silêncio

É sempre em silêncio e em solidão que se "curam" os desgostos, que se saram as feridas, que se vai gerindo a dor, deixando que ela se agudize ou se atenue, consoante os dias, os momentos, as circunstâncias de todo o tipo.

E mesmo quem, como eu, não tem o culto dos mortos no sentido mais tradicional, quem não se revê em visitas a cemitérios, missas "em memória de", ou gestos similares, e acha que é nas recordações que nos enchem o pensamento e o coração que melhor vivem os que já não temos fisicamente connosco, pode em instantes fugazes encontrar nesse silêncio infinito uma apaziguante  serenidade.

Que complexo é afinal o processo de luto, até quando ele se vive em aparente tranquilidade. A mim sempre me impressionaram todos os rituais associados ao fim da vida, sempre me incomodaram os cemitérios, lugares tristes e um pouco sinistros, metáforas maiores da efemeridade e da finitude.  Não é, definitivamente, nestes espaços que me sinto mais próxima de quem já não está, porque sempre achei que é em vida que se dão todos os mimos possíveis e que a melhor homenagem que se pode fazer é lembrar com ternura e emoção todas as histórias e risos, abraços e olhares, palavras e gestos que nos chegam do fundo da memória, através de um cheiro ou de um objecto, de um lugar, de uma palavra, de uma ideia, de uma canção.

Mas se um dia, de repente, contrariando tudo aquilo em que acreditamos, nos apetece sem qualquer razão concreta ir a um desses lugares, então há que ir, mesmo que seja só porque sim, deixar-se envolver pelo silêncio e apenas estar. É que quando a saudade aperta, por mais que nos congratulemos com o tempo que tivemos para estar juntos, todas as hipóteses são legítimas para os continuar a sentir perto de nós e com isso sermos, também, mais fortes e mais capazes de "seguir caminho".

(...) Sentados nele descansamos, escapamos por momentos do frenesim confuso, abrimo-nos ao silêncio e à contemplação ou simplesmente espreguiçamo-nos ao sol, de olhos fechados, a sentir o odor de um tempo reencontrado. Visto de um banco de jardim, o mundo parece ganhar uma fisionomia diferente. Abraçamos margens esquecidas da vida, escutamos zonas periféricas, mas necessárias, olhamos o colorido de outras vozes. E percebemos que a alegria se aproxima de nós como uma folha trazida pelo vento.

(José Tolentino de Mendonça, O Pequeno Caminho das Grandes Perguntas)

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Regresso à "normalidade"


Retomar o trabalho presencial ao fim de um ano não deixa de ser uma estranha sensação, em muito semelhante à do primeiro dia de aulas. É de novo o toque do despertador quando ainda está escuro lá fora e o Outono já vai fazendo notar a sua presença, são os transportes ainda não muito cheios, é um sem fim de rotinas e de gestos recuperados depois de uma longa interrupção.

Quase tudo "normal", ou talvez nem por isso. Para mim, que sou uma grande defensora do teletrabalho, este sistema que mistura os dois mundos, é a maneira suave de voltar à vida de antes, e dá-me a possibilidade de ir aproveitando o que há de bom nas duas maneiras de funcionar.

Com Outubro a chegar ao fim e a mudança para a hora de Inverno de amanhã, chegam novos tempos de roupas mais quentes, dias mais sombrios e vontade de aconchego. Tudo no seu sítio, claramente.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

O poder da música



Foi um fim de semana de sentimentos fortes, que me trouxe a certeza de que ao vivo a emoção é sempre maior e que a música tem essa fantástica força, que é também magia, de aproximar as pessoas, de sarar feridas e de tornar a vida ainda mais bonita.

 Fotografia de Verónica Méndez López

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Virar a página e seguir

 

Foram três meses de dias atarefados e intensos, cheios de emoções e de papéis, de assuntos a tratar e de sentimentos  por gerir,  na surpresa absurda do que fica para lá do fim e na certeza de que o tempo não pára e que a vida segue sempre o seu caminho, inexoravelmente.
E, no entanto, não houve um só dia em que uma imagem, uma palavra, um pensamento ou uma canção não me levassem de volta ao tempo de estarmos juntas, às nossas conversas e risos, a tantas cumplicidades tão nossas. Nem houve nenhum passo ou decisão que tenha tomado sem pensar primeiro no que diria, ou na forma de a fazer sentir-se orgulhosa de mim.
Mas, como diz uma amiga minha "não tenho vocação para o martírio"; e, por isso, talvez, valorizo mais o que vivemos juntas, a alegria de nos podermos ter tido durante tantos anos, que guardo comigo para sempre, do que a inevitável saudade, ou a dor da perda. 
Há, naturalmente, risos, e olhos, e colos que não se esquecem, e é essa a glória  da imortalidade: o que dos nossos sonhos e anseios, de tudo o que fomos e quisemos, perdura nos outros, para além de nós. E há, também, a tranquilidade de saber que fiz sempre tudo o que esteve ao meu alcance, multiplicando cuidados e carinhos para que se sentisse aconchegada, amparada e feliz, sobretudo nos últimos anos e nos momentos de maior fragilidade, em que lhe segurei a mão e lhe devolvi em amor e mimos grande parte do que me deu, a vida toda.
Há quem diga que se sai sempre melhor de uma dor, ou de um desgosto. Pode, talvez, ser verdade. Depois do silêncio, de um tempo em que parece que todas as palavras fogem ou deixam de fazer grande sentido, começa o tempo da aceitação.  Porque aceitar que a morte faz parte da vida é, provavelmente, a mais difícil e dolorosa aprendizagem com que vamos sendo confrontados. 
Dos que partem ficam as recordações, as ideias, as acções, os ensinamentos e tudo o que de bom e mau fomos vivendo ao longo do tempo, fica a marca fortíssima e indelével que deixam em nós. É com ela que vivo. E julgo  que essa será a mais bonita e singela forma de a continuar a ter pertinho de mim, no pensamento e no coração. É bom saber que, entre nós, pode o amor modificar-se, mas será sempre, sempre, infinito. E ir aprendendo a viver com esta nova realidade, que não é melhor nem pior; é só diferente.

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

O inconcebível mundo das traduções


Que um filme que se chama no original Antoinette dans les Cévennes apareça no cartaz nacional com o inacreditável título de "O meu burro, o meu amante e eu" pode fazer toda a diferença, já que à partida parece sugerir um daqueles filmes completamente estúpidos a que eu chamo "comédia alarve", do género de "Um sogro do pior", que não me distraem, nem divertem, nem nada.
Não é de todo o caso aqui. Antoinette das les Cévennes é um filme delicioso, terno e divertido, daqueles que sem pretensão alguma nos dispõem bem e nos entretêm durante duas horas. Dizer que é uma "comédia romântica" é também uma classificação de certo modo redutora, pois embora esse seja o ponto de partida, o filme é muito mais que isso. 
Inspirado num livro de Robert-Louis Stevenson "Viagem com um burro pelas Cevenas", de 1879, que relata a travessia feita pelo autor por esta cadeia montanhosa do centro-sul de França, que faz parte do Massif Central, acompanhado por uma jumenta chamada Modestine, o filme retoma esse mesmo percurso, desta vez feita por uma mulher e por um burro chamado Patrick, numa viagem cheia de divertidas peripécias, com Laure Calamy no papel de Antoinette, que é também o retrato de uma mulher independente e sensível, entusiasta e impulsiva, que não se deixa abater pelas contrariedades do caminho nem da vida e que nesse encontro consigo e  com a natureza tendo por companheiro apenas Patrick, o burro, ouvinte silencioso e atento das sua reflexões sobre os amores e a existência, redefine o rumo a seguir com o novo olhar sobre si que a introspecção lhe proporciona.
Pouco importa, pois, que esta seja a segunda longa metragem da realizadora Caroline Vignal (com 20 anos de diferença da primeira), ou que os actores não sejam muito conhecidos. Com muitas situações cómicas, bons diálogos e magníficas imagens das Cévennes, este é um filme leve e despretensioso, mas que vale a pena ver. Eu gostei. Muito.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

(Re)centrar-se

 
Há  acontecimentos da nossa vida que marcam para sempre, que nos fazem repensar(nos) , começar de novo, alterar focos e preocupações, objectivos ou anseios.
Os momentos de dor podem, pois, ser também de certo modo redentores, já que implicam rever todas as prioridades e sermos capazes  de seguir caminho,  com tudo o que aprendemos e nos fez amadurecer.
Enfim, para lá de todas as tristezas, mágoas ou pesares, há que continuar a acreditar que apesar dos dias e horas de solidão e desamparo, sai-se de um desgosto uma pessoa diferente, mas não necessariamente pior, que as as feridas e vulnerabilidades não são um sinal fraqueza, que as cicatrizes podem até tornar-nos mais fortes, e que são  os que amamos e também gostam de nós, onde quer que estejam e façamos o que fizermos, que estão sempre connosco a fazer do nosso caminho um tempo e espaço para ser feliz e acreditar que nada acontece por acaso e que tudo vale a pena: o bom e o mau, o alegre e o triste,  o fácil e o difícil que vai aparecendo ao longo do percurso e que temos que saber aceitar e agradecer como nos chega, porque a vida não é só risos, alegria e felicidade e porque é provavelmente nessa variação entre claro e escuro, dia e noite, sombra e luz, que ela se nos revela ainda mais bonita e valiosa.