É o meu lado mais passional e inquieto que se manifesta a cada novo desafio, no nervoso miudinho que toma conta de mim em cada mudança, no risco mais ou menos calculado que é prazer e ansiedade, temor e descoberta, expectativa e ilusão, que me faz atirar-me de cabeça, num impulso feito de vontades irreprimíveis e nem sempre sensatas, sem pensar muito no que vem a seguir. Mas não será assim, de sonho em sonho, devagar ou na vertigem do querer, que se vai dando sentido à vida?
Amanhã é o primeiro dia de um caminho diferente e (quase) inteiramente novo. E é como se tudo recomeçasse. Mas eu pressinto que vai ser bom. Vamos a isso!...
"Écrire c'est ébranler le sens du monde, y disposer une interrogation indirecte, à laquelle l'écrivain, par un dernier suspens s'abstient de répondre. La réponse c'est chacun de nous qui la donne, y apportant son histoire, son langage, sa liberté."
(Roland Barthes)
Hoje, há muito a ideia que qualquer um pode ser um grande escritor. E não falta por aí quem se considere como tal, apenas por ser capaz de alinhar meia dúzia de frases ou ideias mais ou menos engraçadas. A facilidade que a tecnologia trouxe à circulação da palavra escrita, propiciou o aumento considerável do número de presunçosos que anunciam publicamente que "escrevem", querendo com isto dizer que há neles um potencial grande escritor, ansioso por revelar-se ao mundo e à espera da "sua" grande oportunidade. E não faltam os cursos de "escrita criativa", que ensinarão, presumo, a melhor maneira de chegar a um best seller.
Li, já não sei bem onde, que se publicam em Portugal mais de dez mil livros por ano. E pergunto-me quantos serão efectivamente lidos. De resto, é comum, actualmente, ouvir-se esta frase, que diz tudo: "Eu não leio muito. Eu gosto é de escrever." Como se uma coisa pudesse existir sem a outra.
Esquece - ou ignora - essa gente que "gosta de escrever" que para o fazer (e bem, já agora!) há que ler muito. E que ler um bom autor, deixar-se enfeitiçar pelas palavras, pela sintaxe, pela sonoridade e ritmo próprios de cada texto, que é afinal o que nos toca e transforma, pode ser uma excelente forma de conhecer o mundo e de nos conhecermos, bem melhor que qualquer teoria, ou prática, de "escrita criativa".
É que gostar de escrever é uma coisa, saber escrever bem é outra totalmente diferente. E ser um escritor é outra ainda...
Há uma beleza meio nostálgica no fim do Verão, no sol já mais enfraquecido, no azul um pouco embaciado dos dias a querer virar cinzentos, e na brisa que subtilmente vai anunciando o Outono, todo feito de recato e recomeços.
Ainda que possamos às vezes julgar que não, e que por insignificâncias nos desiludamos e deixemos a tristeza ou o desânimo tomar conta de nós, a vida é maravilhosa, porque o que há nela de bom é muito maior e melhor do que o que pode, aqui e ali, fazê-la parecer agreste ou sombria.
De modo geral, raramente perco um filme francês. Tinha por isso que ir ver "A família Bélier", muitíssimo publicitado, com Louane Emera como protagonista e canções de Michel Sardou, de quem não sou fã, de todo.
Ainda assim, tinha muita curiosidade e expectativas elevadas, talvez por causa de tudo o que entretanto lera e ouvira sobre a actriz principal, de quem até já falei aqui.
E foi uma decepção. O filme conta uma história banal, a puxar ao melodrama e ao sentimentalismo, sustentados na incapacidade de falar e de ouvir de uma parte considerável das personagens. Com umas pinceladas de humor e de ternura, não deixa de ser uma imensa pieguice, onde não faltam todos os lugares-comuns próprios do género de filme feito para agradar a toda a família e apelar aos bons princípios.
Mas há depois Louane Emera, que é o filme todo. De facto, percebo agora melhor a atribuição do César da actriz revelação, e entendo perfeitamente o furor que tem feito em França. Porque para além de uma voz excepcional, tocante e cristalina, há nela a frescura e a simplicidade da menina-mulher, uma graça natural que cria empatia com quem a vê e ouve, e um talento que se adivinha poder ir muito mais longe.
Impossível ver a cena da audição, em que interpreta a canção Je vole acompanhada de linguagem gestual, sem nos comovermos e deixarmos levar pela graça genuína da sua imensa capacidade interpretativa. Temos artista, sim senhor!...
Sou da geração Trovante. Aquela que cresceu e viveu a ouvir, a cantar, a acreditar, a sonhar e a emocionar-se com as canções que nos marcaram tanto e nos embalaram os amores, os anos e as vidas.
O grupo acabou em 91, mas de vez em quando reúne-se de novo, para alegria e encantamento dos que, como eu, os querem sempre voltar a ver juntos, matar as saudades e partilhar momentos, afectos, sentimentos.
É por isso que cada concerto é sempre uma festa. Igual e diferente de todas as anteriores. Foi o que aconteceu anteontem, uma vez mais, em Cascais. A noite estava chuvosa e o concerto era ao ar livre. Julgo que a última vez que nos tínhamos encontrado fora em Outubro de 2011, na comemoração dos 35 anos do grupo. Mas, tal como acontece com os amigos verdadeiros, esses quase quatro anos não fizeram a menor diferença. A alegria foi a de sempre e ninguém esmoreceu. E foi a mesma magia das outras vezes: em silêncio, como no "Sorriso" e na "Esplanada", ou em euforia em tantos outros momentos, vozes ao alto, aos berros até, no coro de "Perdidamente" ou "Timor", aos pulos em "125 azul" ou "Caravelas", cúmplices em "Um caso mais" ou "Saudade" viajámos no tempo com a certeza de que continuamos ligados uns aos outros como antes, mas também com o acréscimo de tudo o que a maturidade nos deu de novo.
Em conjunto, com as emoções à flor da pele, revisitámos os grandes êxitos que são já nossos e não apenas dos músicos: do "Baile no Bosque" em diante, ouvimos tudo o que queríamos ouvir, sem falhar nada.
Pode parecer saudosismo, mas não é disso que se trata; nem de querer voltar atrás. No fundo todos sabemos que o Trovante de há trinta anos, hoje, já não faria sentido. Agora trazemos connosco as marcas visíveis da passagem do tempo e a sabedoria e as cicatrizes que os anos nos deram. E continuamos a fazer um caminho que tem este património comum, como um tesouro que cada um de nós leva consigo, que guarda na memória e no coração, que mima e preserva à sua maneira.
E depois, às vezes, juntamo-nos outra vez para celebrar isto que nos une. E é tão bom!... Porque é uma nostalgia boa que toma conta de nós e que nos traz de volta o que há de mais íntimo e enternecedor na lembrança de todos estes anos. E que nos ampara e embala a vida.
As cidades, como as pessoas, revelam-se-nos aos poucos, em cada passo, a cada gesto, ou em formas muito próprias de respirar, sentir e viver. Umas e outras apaixonam-me na sua maravilhosa complexidade, que é proximidade e distância, enlevo, mistério, desconcerto e assombro.
E deixo-me seduzir, num mágico apego que cresce devagar, e que me enche a alma, como o conforto de um colo grande e bom, onde gosto de me perder e de me encontrar.