domingo, 8 de setembro de 2013

A melhor professora



 Como toda a gente, tive bons e maus professores. Relembro alguns que me marcaram profundamente, como a minha professora da primária, de que já falei aqui, ou o professor de Português do final do secundário, que contribuiu talvez para, depois de muito hesitar, me ter decidido pela literatura.
E, no entanto, hoje, posso dizer com a mais absoluta certeza que a melhor professora que tive foi Maria Alzira Seixo que, com o seu entusiasmo contagiante, não me ensinou apenas literatura francesa, mas o prazer de adquirir a compreensão reflectida das coisas de que ela falava ainda ontem, no Diário de Notícias. 
Durante dois anos foi minha professora de Literatura Francesa na Faculdade de Letras. E foi inesquecível. Porque o que aprendi com ela serviu-me para o resto da vida.
Era uma figura controversa, daquelas que não deixa ninguém indiferente, suscitando  amores e ódios mais ou menos intensos. Conhecida pela sua extrema exigência, pela frontalidade e pelo rigor com que tratava todas as questões, tantas vezes confundido com  "mau feitio", era temida por quase todos os alunos e circulavam sobre ela, nos corredores da faculdade, as histórias mais fantásticas. Por isso, eram muito poucos os que se inscreviam na(s) sua(s) turma(s). Eu fui. A medo, no início. Mas em muito boa hora. Enquanto outros professores tinham turmas de quarenta alunos, na aula da Maria Alzira eramos doze. E ela revelou-se uma pessoa extraordinária, muitíssimo competente, com espírito e com génio, capaz de fazer de cada aula um momento especial, em que se falava dos autores, dos livros e dos textos com paixão e com emoção. Com humor também. Lembro-me de a ouvir recitar poemas do barroco francês, por exemplo, que eu própria fixei  e sei de cor ainda agora. As notas que tive não foram excelentes, mas aprendi com ela muito mais do que com todos os outros professores do  curso. Na verdade, mais do que uma simples professora, foi para mim um exemplo e uma inspiração. E assim, quando passei a ser professora, sempre me pareceu que a melhor maneira de fazer os alunos gostar de ler e de escrever é mostrar-lhes como isso pode ser bom. E esquecer as fichas e os "contratos de leitura". É apenas um exemplo...
Entretanto nunca mais a vi, a não ser na televisão, em aparições esporádicas, onde me espantava o facto de a achar sempre igual, na aparência e nos modos. Como se o tempo não passasse por ela.
Muitos anos depois, reencontrei-a ao vivo no ciclo de conferências sobre o romance francês e sua influência no romance português do século XIX, e na cultura ocidental, em geral, uma excelente ideia de Vasco Graça Moura, a decorrer todos os Sábados deste mês e dois do próximo, no CCB. E foi como voltar ao passado.  É de novo a Maria Alzira Seixo que eu conheci, numa intemporalidade que não julguei possível, com a mesma exaltação, sem excessos, a mesma capacidade comunicativa,  o mesmo discurso apaixonado e emotivo, que seduz. E que torna possível ouvi-la durante horas, sem nunca nos cansarmos. Porque é sempre interessantíssimo o que diz e, sobretudo, o modo como o diz.
Ter sido aluna de Maria Alzira Seixo foi, na verdade, um privilégio enorme. Mas revê-la igual, tanto tempo depois, é como regressar a um tempo antigo, mas sem nostalgia, é um "rafraîchissement" cultural, um prazer para o qual não consigo encontrar as palavras certas, uma daquelas surpresas boas que valem a vida.
E no Sábado há mais...

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Amores antigos




A vida tinha-os afastado, mas quis o destino que vivessem perto um do outro. Quando ele passava de carro, agora grisalho e talvez mais bonito ainda, ela perturbava-se sempre um pouco. Mas nem se falavam. E, no fundo, apesar de isso lhe custar, a ponto de momentaneamente lhe sentir a falta e quase lhe doer, sabia que era melhor assim.
Já não faziam parte da vida um do outro. Esses eram os únicos momentos em que pensava nele. E em como naquela altura não soubera esperar, não o soubera entender, porque não tinham maturidade suficiente para saber lidar com fragilidades e diferenças e aceitar tudo o que os separava, guardando apenas o lado bom, que também era enorme. Afinal tinham tanto em comum... Era muito antiga aquela história, feita de desencontros e de felicidade, de caminhos sinuosos e de palavras e canções coladas à pele, na confusão dos vinte anos. 
Então lembrava o tempo em que o seu sorriso ou a sua voz lhe enchiam o coração, a afinidade intelectual que os fazia  perder-se em longas conversas, as horas esquecidas nas noites em que se deixavam ficar no Snob, no Foxtrot e no Pavilhão Chinês, às vezes  em silêncios que não precisavam de palavras, em instantes que se faziam eternos, alheados de tudo, suspensos no fundo dos olhos um do outro e no que nem precisava de ser dito, numa sedução demorada, feita de avanços e de recuos; e os passeios de descapotável, marginal fora, com Cascais no horizonte, o cabelo ao vento e mil sonhos e promessas por cumprir; e a maneira como ele deitava a cabeça no seu colo, devagar, nos momentos em  que só os sentidos contavam e o mundo inteiro começava e acabava  neles os dois; e os olhos dele que pareciam fazer beicinho quando se despediam, numa tristeza de quem está sempre a pedir mimo. E aquela sua personalidade intensa  e misteriosa, que a fascinava e entontecia; e tantos bocadinhos de paraíso que viveram juntos; e tantos gestos amor, puros, todos só sentimento e emoção.
E pensava, também, em todas as vezes em que depois de se terem separado haviam voltado a ceder à paixão, como uma inevitabilidade a que não se pode escapar. E de como, numa altura difícil da sua vida, ele a soubera entender e, esquecendo-se de si, a tomara de novo nos braços e lhe embalara a mágoa e a vulnerabilidade, repetindo-lhe ao ouvido pequenas coisas queridas. Depois dele vivera outros amores, talvez maiores, talvez melhores, ou mais perfeitos e agora aquele amor parecia já tão antigo que quando por casualidade se cruzavam fingiam não se ver, incapazes de ser amigos, ou sequer conhecidos, porque ambos sabiam que entre eles só podia ser tudo ou nada; e que o tempo não volta atrás.
E vinha a certeza  de que, para o bem e para o mal, a vida é assim mesmo: são todas as escolhas que vamos fazendo, todos os nãos e os sins, o que se diz e o que se cala para sempre, e se guarda no silêncio secreto de um lugar perdido no canto mais fundo e escuro do coração.
E que não vale a pena lamentar o que quase ia sendo, ou pensar no que poderia ter sido se tudo tivesse sido de outra maneira, porque só o presente importa e merece ser vivido em plenitude. Mas também é certo que há pessoas que nos marcam. E que não podemos esquecer...

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

Adolfo


É novíssimo, muito dinâmico e absolutamente brilhante nas suas intervenções públicas. Adolfo Mesquita Nunes, Secretário de Estado do Turismo, pôs isto no Facebook:
Pequeno comentário ao crescimento do turismo. Este Governo não fica, nem quer ficar, com méritos alheios: são as empresas do sector que devem colher os principais louros. Por isso mesmo, vamos passar a tê-las institucionalmente envolvidas na promoção externa do país.
Para quem não percebeu bem quando eu dizia outro dia que o meu partido faz a diferença, só mais uma achega: é claro que o Adolfo só podia ser do CDS.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

No país da burocracia


Infelizmente, há no nosso país muita coisa de que só podemos envergonhar-nos. Lembro-me do post da Ana Vidal, que li há dias no "Delito de Opinião" a propósito de um simulacro de incêndio comemorativo, a ter lugar ao mesmo tempo que bombeiros morrem sem ser a fingir e Portugal arde triste e realmente. É apenas  um exemplo. O que se passou comigo, hoje, apesar de muito diferente, é outro. A história, que mais parece um odisseia, é esta: para poder participar na campanha eleitoral, preciso de um comprovativo de que consto das listas e, para tal, soube que teria de me deslocar ao Palácio de Justiça, onde foram entregues e estão afixadas.
Na sexta-feira passada fui até lá, mas como cheguei às quatro horas e dois minutos já não me atenderam. Além de ser extraordinário este horário de funcionamento (das nove às doze e trinta e das treze e trinta às dezasseis, o que significa que as pessoas que trabalham normalmente têm sérias dificuldades em dirigir-se-lhes quando necessário e só o fazem com prejuízo do seu próprio trabalho), deixaram-me, ainda assim, consultar o número de processo e fizeram-me saber que teria de apresentar um requerimento. Mas isso noutro dia, porque os serviços estavam encerrados há dois minutos.
Voltei hoje, já de requerimento feito e a correr, esforçando-me por estar lá às nove em ponto, de modo a poder tratar do assunto e chegar ainda a horas decentes à Praça de Alvalade. Perguntei onde devia dirigir-me e mandaram-me ao 7º Juízo, no 8º andar, onde dois funcionários conversavam animadamente. Um minuto depois, olharam para mim e, de onde estavam, perguntaram-me o que era, sem sequer se levantarem. Eu disse. Pois, que não era ali, mas sim no piso térreo, junto aos elevadores. Voltei a descer. Entreguei então o meu requerimento e, naturalmente, perguntei quando o poderia ir buscar. Resposta do funcionário: "Ah, isso não sei! Eu só recebo os requerimentos". "Mas dê-me uma ideia!",insisti. "Não faço ideia.", retorquiu. "Depois telefona a perguntar isso". "E onde o devo ir levantar?" ainda perguntei. "Não faço ideia!", foi de novo a resposta.
Ainda aparvalhada perante a evidência de haver um funcionário cuja função é apenas receber requerimentos e pôr-lhes o carimbo, sem ser capaz de prestar qualquer informação adicional, dirigi-me à saída, onde tentei saber qual o número para onde deveria ligar. Sem exagero, a funcionária esteve durante cinco minutos com uma lista de telefones na mão, folheando-a para trás e para a frente, sem conseguir encontrar o número. "Dê-me o número geral", pedi eu já em desespero e a ver o tempo passar. Bom, deu, mas teve que telefonar para não sei quem a pedi-lo. Extraordinário!
Porém, a história ainda não acaba aqui. Chegada ao meu local de trabalho, liguei para o número que me tinham dado. Fui atendida por uma senhora, que me passou para outra, do 7º Juízo, que me passou para o colega que se ocupa do processo, (e claro que tive que explicar a cada um o assunto e a informação que pretendia) o qual me atendeu com muito maus modos (uma chatice estar a incomodá-lo!) e me disse à bruta: "Depois é notificada!" Eu, que sou nova nestas andanças, perguntei: "Notificada como?". Irritou-se. Repetiu: "Depois é notificada". Insisti na pergunta. Respondeu-me já aos berros: "Através do mandatário!". Ainda assim perguntei quantos dias demoraria, mais ou menos. Resposta: "Isso depende do que eu tiver para fazer!..."
Chocada com este modo de funcionamento e com a "gentileza" na forma de tratamento, ainda ousei perguntar onde deveria depois ir levantar o papel.  "Deve ser na Secretaria Geral!" foi a resposta.
Se não fosse a triste imagem real do país em que vivemos, esta história poderia ser anedótica, ou hilariante. Afinal, se o meu nome está lá afixado, à vista de todos, não bastaria simplesmente apresentar a identificação e passarem-me o papel logo ali?
Haja paciência! No mínimo... De tudo isto fica-me a certeza de que há de facto funcionários públicos que merecem ser despedidos; e a amarga sensação de que este país nunca vai conseguir  endireitar-se.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

A escola azul



Tem o nome pomposo, com dois "tês" e tudo, de uma das mais ilustres figuras das letras e da política portuguesa, mas aqui na zona é sobretudo pela cor que se distingue; porque é como "escola azul" que é conhecida e que todos, ou quase todos, se lhe referem. Eu vou ainda mais longe: digo sempre "a escola" ou "a minha escola". É que este é um daqueles lugares a que ficou agarrada uma parte enorme da minha vida e que, tal como os grandes amores, que mesmo quando acabam deixam em nós uma marca que nunca poderemos apagar, esta escola está ligada a mim para sempre.
Talvez isso explique em parte o friozinho na barriga e o coração apertado com que passo o portão e desço as escadas de cada vez que volto. É como se, em cada regresso, numa estranha indistinção de saudade e de mágoa, de fascínio e desencanto, de indiferença e de amargura, que nem consigo explicar, se misturassem todas as recordações dos vinte e dois anos em que aquele era o meu mundo e quase a minha casa.
Olho à minha volta e tudo é o mesmo, aparentemente igual e, ao mesmo tempo, está  já muito diferente. Vejo o cacifo fechado onde ainda está o meu nome e imagino-o outra vez cheio de livros, de cadernos, de fotocópias e de testes. E volto a sentir o cheiro forte da cera na abertura do ano lectivo e a ouvir o barulho de fundo dos alunos no pátio; e voltam as saudades das aulas e do nervoso miudinho do primeiro dia do ano; e passam-me pela cabeça todas as memórias, boas e más, divertidas ou dramáticas, tensas, doces, ternurentas, curiosas, inesquecíveis  e inenarráveis de tantas histórias que ali passei, de tanto que aprendi e ensinei, e de tanta coisa tão diferente que fui vivendo e que fez de mim, também, muito do que sou. Hoje,  a escola azul é este lugar assim, paradoxal, que me pertence e que já não é meu, onde eu quero e não quero voltar.

domingo, 1 de setembro de 2013

CDS



Sempre foi assim: para mim é muito mais em Setembro do que em Janeiro que começa um novo ano. Esta é, por isso, uma época de projectos, de intenções e  de esperanças. E, no entanto, este início foi diferente de todos os outros, porque  não começou com uma ida à escola, mesmo fugaz, como nos últimos três anos. Desta vez a minha rentrée começou na política. Uma novidade que, certamente, marcará o meu ano.
Tenho orgulho de pertencer ao CDS, que é o partido com que me identifico e onde me sinto cada vez mais "em casa". E emociono-me com aquele mar de bandeiras azuis e brancas que se agitam no ar, com o hino nacional cantado em coro, com as palavras claras, sabedoras e sensatas de Paulo Portas, mas também com o discurso apaixonado e emotivo de Adolfo Mesquita Nunes, ou a eloquência de Telmo Correia.
Como em tudo na vida, há no CDS coisas boas e más, pessoas extraordinárias, dinâmicas, trabalhadoras e capazes e outras que não interessam nada e são para esquecer. Mas este é, em geral, um partido que sabe o que está certo e o defende com convicção. E que se preocupa com as pessoas, pois  como diz o Papa Francisco participar activamente na política é uma obrigação para um cristão. Sobretudo em tempos difíceis, como os que vivemos. 
Talvez também por tudo isto me vejo envolvida nas eleições deste mês como nunca até aqui. Com realismo, mas com força, eu acredito que o CDS faz a diferença e faz falta a Portugal. E que, por muito pequenos que sejam, todos os contributos são necessários.
Na rentrée de ontem aconteceu-me o que me acontecia há anos, quando tinha orgulho em fazer  parte da minha escola e em ajudar a levar para a frente, todos os dias, um projecto em que acreditava profundamente. E me sentava, no início de cada ano, para ouvir com atenção as palavras de incentivo e de ânimo do director.  Tal como então, o que ouvi ontem não foram palavras de circunstância, vazias de sentido, mas palavras de significado profundo, de quem sabe o que quer e para onde vai. E ama o que faz. Porque é assim que são os verdadeiros leaders: capazes de nos encher a alma  e de nos puxar pelo empenho e pelo querer, de modo a darmos também o melhor de nós para o bem comum, conseguindo acima de tudo misturar com naturalidade o que tem de ser feito com o prazer da sua  realização.
Ninguém diz que vai se fácil, mas tenhamos esperança que este seja um ano bom.